Escute o Prosa & Verso 143

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
nelson gonçalves - escultura
marcelinho da lua e seu jorge - cotidiano
choro do bebê
roberto carlos – quando as crianças saírem de férias
chico buarque – casamento pequeno burguês
agnaldo timóteo – as flores do jardim da nossa casa
paulinho nogueira – choro chorado

Uma homenagem ao meu pai, que me deixou com um vazio impossível de preencher….

Prosa & Verso 143

————————————-

Primeiro vem a fantasia, ela não é ela. Ela é o que ele imagina ou deseja que ela seja. Foi a namoradinha, a noiva, depois vieram as juras, as promessas e por fim a lua de mel. Por enquanto, quase que só fantasia. Assim como na música de Nelson Gonçalves e Adelino Moreira, Escultura.

Com o passar do tempo, se não tomar cuidado, vem a rotina e se instala. E a rotina é uma grande inimiga dos relacionamentos. Não há paixão que resista. E vem o esfriamento. Muitas vezes um dos dois, geralmente a mulher que pode ter a melhor das intenções e para fugir ao esfriamento, prepara uma armadilha, onde o marido cai como um patinho. E vem um filho sem o devido planejamento e maturidade do casal. E o desastre se estabelece, porque o filho vem como um tapa-buraco, pra tapear uma relação já esvaziada pela rotina.

Em outros casos, depois vêm naturalmente os filhos… Antunes, por exemplo, é um adolescente de 16 anos e está cursando a 1ª série do segundo grau. Como todo adolescente, rebelde à disciplina, é tido na escola como desordeiro e bagunceiro. O pai de Antunes já tem recebido várias queixas. Um dia desses, a professora Maria José, que é a diretora da escola, encontrou o pai de Antunes e Contou que na última sexta-feira toda a turma da 1ª série tinha-se envolvido em uma brincadeira de guerra, enchendo sacos plásticos e jogando uns nos outros. Acabaram molhando toda a área de recreação e parte da sala de aula. O pai de Antunes indagou se o filho estava lá e ela disse que não, que aliás tinha mudado de água para vinho, que estava no recreio mas que se tinha mantido fora da brincadeira, juntamente com apenas outros dois colegas. Disse que estava muito alegre com o novo do comportamento do rapaz. Não é preciso dizer que o pai de Antunes ficou cheio de esperança e orgulho. Quando mais tarde chegou em casa e sentou-se à mesa para almoçar e Antunes começou a relatar a guerra de sacos d’água que tinha acontecido na escola. Disse que só não tinha entrado na brincadeira porque estava com uma camisa que não queria molhar, nem tampouco molhar o cabelo, porque tinha penteado com gel fixador. Pronto. Estava explicado o comportamento de Antunes. O certo é que o pai ficou ali com a cara mexendo, porque assim são os filhos adolescentes. E os pais se perguntam: onde foi que eu errei?… Muito antes, muito antes… Ainda bebezinho… Vejam só: conta-se que u’a mulher que carregava o filho nos braços pediu a Gibran Khalil Gibran que lhe falasse sobre os filhos, e ele disse:
Vossos filhos não são vossos filhos.
São filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E, embora vivam convosco, a vós não pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Pois eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar
nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois o arco dos quais vossos filhos, como setas vivas, são arremessados.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com Sua força
para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como Ele ama a flecha que voa,
ama também o arco, que permanece estável.

Agora, assim desabafa o poeta Vinícius de Morais, em seu
“Poema Enjoadinho”:
Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete…
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

Os filhos desejados são verdadeiros alimentos para um casal. Mas não bastam filhos para garantir a solidez do casamento. A velha rotina, o ciúme possessivo, os maus tratos mútuos, a indiferença, a desconsideração, enfim todas essas ocorrências e muitas outras acabam por destruir a relação amorosa e, não raras vezes, substituí-la pelo ódio, que é o outro lado da moeda.

As crises em si são boas. Elas sempre vêm antes do amadurecimento, do crescimento. Mas só servem quando são encaradas, digeridas e assimiladas pelo casal. Não sendo assim, é quase que inevitável e até um remédio a separação. Talvez seja melhor a separação do que um casamento medíocre e odiento. Sem esquecer que toda separação vem acompanhada de dor e sofrimento.

Escute o Prosa & Verso 142

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
luiz gonzaga – são joão do carneirinho
elomar – dança da fogueira
carmen miranda e mário reis – chegou a hora da fogueira
cristóvão cerqueira – pupurri de arrasta pé
luiz gonzaga – são joão na roça
dominguinhos - quadrilha
grupo vou vivendo – doce de côco

Estamos em tempo das festas de São João. São João, fogueiras e fogos. Li um artigo intitulado São João, Festa do Sol, escrito por Ronaldo Mourão, um astrônomo brasileiro de renome, e é neste artigo que vou basear este programa de hoje.
Ao observar as variações periódicas de clima ao longo do ano, o homem primitivo procurou associá-las ao movimento aparente do Sol no céu, descobrindo, com auxílio dos seus monumentos de pedra, as direções do nascente e poente do Sol durante todo um ano. Com esses observatórios primitivos, os astrônomos da Idade da Pedra descobriram que o Sol, em quatro bem determinadas épocas do ano, nascia e se punha em quatro pontos diferentes do horizonte, que correspondiam ao início das estações, quatro grandes alterações climáticas. Com tais conhecimentos, aproveitavam-se os sacerdotes das tribos primitivas para anunciarem e preverem o ponto exato do aparecimento do Sol, no horizonte, o que lhes fornecia o poder de dominar seus discípulos ou crentes. Mais uma vez o conhecimento, o saber do cosmo, iria ser usado para favorecer os governantes. Assim, criaram-se os altares de pedras polidas e, mais tarde, as catedrais de pedra, onde os sacerdotes, que já haviam previsto a ocorrência daqueles fenômenos astronômicos, solicitavam aos crentes com antecedência a necessidade de alguns atos religiosos com os quais seria possível alterar os desígnios da natureza. Assim, foram descobertos os dias, o mais curto e o mais longo do ano. O mais curto, no inverno e o mais longo, no verão. Esses dias são chamados de solstícios. Nesta parte do mundo em que nós vivemos, que é a metade sul do planeta, o solstício de verão pode-se dizer que ocorre em 25 de dezembro, o dia mais longo do ano. E o solstício de inverno, em 24 de junho, o dia mais curto do ano. A descoberta dos solstícios há milhares de anos deu origem às festas coletivas nas quais o Sol era honrado com o fogo, a luz suprema, que o homem oferecia às divindades pagãs. Como se vê, muito tempo mesmo, antes de nascerem o cristianismo e as religiões dele derivadas.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 141

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
antúlio madureira – chegança de mouros
antúlio madureira – frevos para marimbau
antúlio madureira – ária das bachianas nº 5
augusto calheiros e turunas da mauricéia - pinião
augusto calheiros – casa desmoronada
augusto calheiros – avemaria
grupo vou vivendo - assanhado

Hoje estou trazendo dois cantores compositores, ambos do Nordeste, com quase um século de diferença um do outro. Augusto Calheiros, que muitos ouvintes já conhecem e certamente se lembram com saudade e simpatia pela sua voz afinada e tão peculiar e pelo seu repertório. O outro, Antúlio Madureira, músico contemporâneo, inovador e talentoso. Antúlio Madureira, pernambucano, cresceu entre notas musicais, teatro e dança. Desde cedo, deixou-se envolver por este mundo mágico, descobrindo seus dons e dedicando seu talento à cultura. Durante vinte anos trabalhou com o Balé Popular do Recife, fundado por sua família em 1977. O grupo serviu de palco para grande parte de seu desenvolvimento como artista, onde foi bailarino e diretor musical. Paralelamente, traçava sua instigante trajetória artística em outros movimentos. Participou do Quinteto Armorial, da Orquestra Romançal, do Trio Romançal Brasileiro, compôs trilhas sonoras para espetáculos de dança e teatro. Sua formação passa pelo Conservatório Pernambucano, pela Escola de Belas Artes e Licenciatura em Música pela Universidade Federal de Pernambuco.
Leia mais…

quando o medo de arriscar imobiliza
e deixa tudo como está,

quando o pragmatismo excessivo
sacrifica o homem pelo cumprimento da lei,

quando o preconceito discrimina,
absolutizando o relativo
(ou relativizando o absoluto),

quando a certeza de saber
coíbe arrogantemente novas perguntas,

quando a hipocrisia é tomada como moral
e o conluio como ética,

quando em nome do amor
se maltrata e se mata,

quando,  perseguindo o ter,
aniquila-se o ser…

(afinal, quem são os loucos?)

Quando leio O Príncipe, de Maquiavel, tenho a nítida impressão de que príncipe e povo são inimigos.
A tática, na guerra, é ardilosa, mas não é desleal, porque entre os inimigos não há qualquer pacto de lealdade.
Entre os amigos, o ardil, a treta, a mentira são pura deslealdade.
Entre os inimigos, a tática é uma forma de sabedoria. Entre os amigos, uma traição.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 140

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
carmem miranda e mário reis – isto é lá com santo antônio
linda batista – nega maluca
catuaba com amendoim – garajão
ciro monteiro – se acaso você chegasse
luiz melodia - rosa
ângela maria e cauby peixoto – a noiva
altamiro carrilho – primeiro amor

Acabamos de sair do mês das noivas e de passar ao mês dos santos que, no imaginário popular da tradição católica, estão intimamente relacionados ao casamento, Santo Antônio, São João e São Pedro. Hoje, trazemos o tema das noivas que, começando em maio, se estende até o dia 13 de junho, quando as moçoilas casadoiras, como diria qualquer esnobe de plantão, solteiras remanescentes de maio, estarão contritas em suas preces e promessas ao santo casamenteiro, no dia seguinte, portanto, ao dia dos namorados. Até a metade do século passado, era de bom tom para qualquer mocinha de família, como se dizia, só namorar pra casar. De modo que o dia dos namorados, sendo a véspera do dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro, fazia supor que o caminho fatal do namoro seria o casamento. E era aí que entraria a interferência do santo que, curiosamente, trás em seus braços uma criança de colo. E santo Antônio naturalmente deveria interferir neutralizando a malandragem comum aos rapazes.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 139

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
luca chaves – que saudade
gastão formenti – arrependimento
gastão formenti – folhas ao vento
gastão formenti – na serra da mantiqueira
gastão formenti – lua branca
gastão formenti – vingança
gastão formenti – zíngara

Vocês podem pensar que eu sou um saudosista, que vivo lamentando os bons e velhos tempos, como se costuma dizer. Eu posso assegurar que nem sequer sinto saudade de tempos passados. Eu me lembro, sim, é verdade. Minha memória para os fatos ocorridos no passado é razoavelmente boa. E também não posso negar que a música exerce um fascínio em todos nós e, do mesmo modo que os perfumes e os cheiros em geral, nos remete a lembranças, agradáveis ou não. Felizmente, ou não, nossa memória usa de mecanismos de defesa para selecionar aquilo de que lembramos. É por isto que geralmente a lembrança do passado quase sempre nos faz pensar em momentos agradáveis. Porque os momentos desagradáveis vão lá pra o fundo do baú, embora não desapareçam de tudo. Voltam ocasionalmente, sobretudo nos sonhos. De qualquer sorte, um sábio conselho chinês diz que quem esquece o passado corre o risco de revivê-lo. Isto naturalmente faz parte dos erros, dos desacertos e dos maus momentos possíveis de ser evitados. Por outro lado, ficar presos ao passado nos faz ficar como que num atoleiro, sem nos podermos mexer, sem podermos sair do lugar. Isto é a essência de um transtorno mental chamado neurose, a doença neurótica.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 138

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
edson gomes – camelô
gonzaguinha – e vamos à luta
anjos do inferno – acontece que sou baiano
marcelo d2 – fala sério
banda de boca – por isso eu corro demais

Um dia desses me perguntaram se eu já tinha trabalhado em cartório ou instituição parecida, porque frequentemente estou me referindo ao modo como a gente deve fazer as coisas e o exemplo que tenho usado é o da pessoa cujo trabalho, cuja tarefa é apenas carimbar documentos. Foi uma lembrança, bem de relance, de quando eu tinha 17 anos e comecei a trabalhar em um banco. Lá minha tarefa era cuidar da expedição de documentos, um trabalho simples, bobo até, mas que eu considerava importante, por ser o meu trabalho, meu primeiro trabalho remunerado. Aquilo era meu ganha-pão. Eu me orgulhava de fazer bem-feito o meu trabalho. E sabe o que era? Selar e carimbar envelopes para envia-los ao correio. De fato eu não procurava a perfeição, mas procurava fazer da melhor maneira que eu podia. Com o passar dos anos, fui aprendendo na labuta que fazer bem-feito não significa fazer melhor do que os outros nem significa fazer com perfeição. Aprendi que o ótimo é inimigo do bom, porque temos, cada um de nós, nossas imperfeições e a destreza como fazemos algumas coisas nos falta ao fazermos outras. O ótimo é inimigo do bom porque tentando compulsiva e obsessivamente fazer o ótimo podemos estar fadados ao fracasso, quando poderíamos ter feito o bom. E acabamos não fazendo nada e com um sentimento de frustração pelo fracasso. No pára-choque de um caminhão, li na estrada: Não tenho tudo o que gosto, mas gosto de tudo o que tenho. Procurei assimilar a idéia e agora passo como sugestão pra você. Se você não faz só o que gosta, tente gostar do que faz. E tente fazer da melhor maneira possível o seu trabalho, por mais simples e sem importância que lhe pareça. Lembro de um amigo que me contou que estava passando por um canteiro de obra e perguntou a um dos pedreiros o que era que ele estava fazendo, ao que o pedreiro, zangado, respondeu: “Não está vendo que eu estou assentando um tijolo? Meu amigo seguiu adiante e deu a volta na esquina, quando encontrou outro pedreiro fazendo exatamente a mesma coisa que seu colega. E perguntou a esse outro pedreiro o que ele estava fazendo. O trabalhador respondeu: “Estou construindo uma escola…”

(Clique no botão PLAY, ao lado, para ouvir a entrevista com João Lima, um técnico em eletrônica da cidade de Morro do Chapéu)

Drocha morreu num dia como este, 14 de maio. Epa! Que lapso! Hoje seria aniversário dele, que morreu mesmo foi a 21 de setembro… Teria valido a pena sua vida? Com que parâmetros medir, avaliar? Só muita petulância para julgar isto. O mistério que transcende nossa vã existência (vã enquanto existência em si) deixa rastros de dúvidas, como fogos-fátuos, como caudas de cometas. Naturalmente, são os filhos e netos (quem sabe mais quem virá a partir dele?) e toda a sua progênie que darão testemunho de sua passagem por aqui (mesmo que tenha sido por ele e por nós outros considerada vã e inútil). São as memórias de todos os que o conheceram que vão imortalizar seu nome. Estas memórias contêm na certa a marca de sua irreverência, com que filosofava em cada tirada mordaz ou de gracejo, como a que está ali no livro de Adylson Machado, Amendoeiras de Outono, mesmo que apenas numa breve citação, breve mas tão fiel ao que lembramos dele: “Ali conhecera a realidade das estiagens, aprendeu a valorizar cada gota d’água, grão de arroz, de feijão, de milho, bocado de farinha. ‘Quem tudo come, tudo caga’, filosofava um tio avô desbocado, Dativo, gargalhando das digressões em sua tenda de seleiro.” [página 41]…
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 137

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
lecy brandão e otto – vítimas da sociedade
aracy de almeida – rapaz folgado
ataulfo alves – laranja madura
elza soares e sergio fernandes – candidato caô caô
elis regina – a banca do distinto
bezerra da silva – verdadeiro canalha

Você certamente já tem ouvido falar no conto do vigário. E muito provavelmente você deve saber o que significa o conto do vigário. Quem sabe? Talvez até mesmo você já tenha caído um dia no conto do vigário.
Eu já caí pelo menos uma vez. Perdi um bom dinheiro, mas o pior de tudo foi a vergonha que fiquei quando compreendi o mecanismo da tal tramóia.
Acompanhe com atenção este programa e você vai ver como se analisa um comportamento, tão estranho quanto corriqueiro, como o conto do vigário, que é apenas uma das modalidades de enganar e de ser enganado. Vou tentar debulhar aqui neste programa hoje o tal do conto do vigário. O que vamos fazer não é nada mais nada menos do que tirar nossas máscaras para nos ver e conhecer melhor, porque a natureza humana é cheia de escaramuças, disfarces e tapeações. Acho curioso e até engraçado que nos tenham ensinado que Deus nos fez à sua imagem e semelhança. Se assim foi, nós humanos nos encarregamos de trair a imagem de Deus, até nos tornarmos o que hoje deve muito envergonhar este Ser Supremo que nos teria criado. É que o mundo, afinal, é dos espertos, como dizem. E os mais espertos parecem ser os mesmo que Jesus chamou de filhos das trevas, como está no Evangelho, seja lá o que isto queira dizer. O fato é que costumamos ver o outro como o culpado e a nós mesmos como os bonzinhos.
Leia mais…

Temos ouvido e repetido que palavras são palavras, nada mais que palavras… Agora, refletindo, podemos perceber que palavras não precisam ser mesmo nada mais que palavras! Para quem as diz, são importantes, são suas idéias. E que são as idéias? Idéias apenas povoam um mundo inexistente, o mundo interior, solipsista. Nossas idéias só servem para nós mesmos, enquanto permanecerem dentro de nosso mundo, dentro de nossas almas.
More...
Não se incriminam aqueles que pensam. Nem pecam os que pensam. Nada é o pensamento, se não for concretizado. O crime e o pecado não existem, no mundo das idéias. Fazem parte do mundo exterior, fazem parte do agir. Então, para cada um de nós que produz ondas sonoras, concretizando vocábulos, as palavras são importantes, são fundamentais, são imprescindíveis porque nos aliviam a alma [este mundo interior que não está no âmbito da existência, isto é, que portanto não existe].

Para quem as escuta, nada valem por si mesmas. Aí, sim, palavras não passam de ondas sonoras, movimentos do vento, que com o vento se vão. Palavras ditas pelo outro só se tornam importantes se, ao penetrarem o nosso mundo interior, encontrarem ressonância. Vamos lembrar de Itaca, de Kaváfis:

“Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento,  se sutil
Emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.(…)”

Isto é algo que temos de incorporar, para não nos culparmos pelas palavras pronunciadas nem nos atormentarmos pelas palavras ouvidas. Nossos tormentos são os Ciclops, os Lestrigões e o bravio Possídon que trazemos dentro de nós. Precisamos encarar nossos fantasmas e nossos medos como tais, habitantes de nossas almas. E não as palavras alheias, que pertencem de fato às almas alheias. Isto é o verdadeiro e desejável cinismo diogenesiano. Isto é o que ensina a prática do Zen.

Escute o Prosa & Verso 136

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
elis regina e tom jobim – águas de março
luiz gonzaga – viva o arigó
zé ramalho - cidadão
ciro monteiro – o que se leva desta vida
ademilde fonseca - brasileirinho

No relato bíblico, que não é científico, mas que é intuitivo, que faz parte da sabedoria popular, o escritor conta que, depois de ser criado o mundo e achado que o que tinha criado era bom, o mesmo Deus pegou um pouco de barro e fez o primeiro homem, a quem deu o sopro da vida. Esse homem foi chamado de pai de todos os homens, Adão, na língua dos judeus, porque a bíblia foi escrita pelos judeus. Posteriormente criou u’a mulher para fazer companhia ao homem. E ele tinha de conversar com ela e ela com ele. Então foi inventada, pelos dois primeiros humanos, a linguagem, para permitir que eles se comunicassem. Foi assim que, recém-nascidos, mas já adultos, Adão e Eva olharam em volta e viram tudo o que existia. Mas, vocês já observaram como é difícil a gente se comunicar quando a gente não usa as palavras certas? Quando a gente precisa de alguma coisa e não conhece o nome, a gente diz assim: me dá aquele negócio ali! E o outro que se rebole pra adivinhar o que é. Então, diz a Bíblia que nossos primeiros pais, percebendo que tudo o que existia precisava ter um nome, foram olhando coisa por coisa, planta por planta e animal por animal e dando a cada um deles um nome. Desta maneira, os primeiros homens, inteligentemente, conseguiram poupar trabalho e desgaste, fazendo uso da linguagem. Bem disse, me parece, Antônio Houais que a palavra existe para economizar trabalho.
Leia mais…

Em fevereiro de 2006, um ano eleitoral como este em que estamos, Frei Betto escreveu um artigo para o site do Correio Riograndense, Edição 4.973 em que criticava o comportamento dos maus políticos brasileiros e a conseqüente necessidade de uma reforma política no Brasil. Sua indignação é ainda bem atual. Mas, no final do seu artigo, deixou registrado o seguinte comentário. Dizia ele:

“É bom lembrar que os eleitos são nossos empregados, pagos pelos nossos impostos, e a nós devem prestar contas. Culpa nossa se, uma vez empossados, dão-nos as costas e se locupletam com o nosso dinheiro.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 135

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
augusto calheiros – senhor da floresta
chico buarque – funeral de um lavrador
ivan lins e mariana aydar – desesperar jamais
renato teixeira – tocando em frente
henrique cazes e joel do nascimento - brasileirinho

De acordo com o que finalmente nos ensinaram logo nos primeiros anos da antiga escola primária, que corresponde hoje aos primeiros quatro anos do 1º grau, o país em que nós estamos pisando, onde nascemos, onde vivemos, onde muitos de nós procriamos e certamente onde morreremos, está hoje completando 510 anos. Esta terra que já se chamou Pindorama, Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz e que agora se chama Brasil, descreveu um caminho que de certo modo pode ser comparado com a história de uma pessoa. Assim, quando se chamava Pindorama, estava livre, em plena harmonia com a Natureza, sem donos. Uma vez descoberta pelos estrangeiros, foi batizada como Ilha de Vera Cruz e assim transcorreu sua primeira infância, até que perceberam que não era uma Ilha e lhe deram o apelido de Terra de Santa Cruz. Era então uma terra criança, bravia, indomada, ainda habitada pela grande maioria de índios. Uma vez que os invasores vieram aos montes e passaram a explorá-la, foram-na domesticando e submetendo, acharam por bem trocar mais uma vez de nome e desde então ficou conhecida como Brasil.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 134

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
chico buarque - quem te viu quem te vê
orlando silva - aos pés da santa cruz
altamiro carrilho – chorinho didático nº7

É uma espécie de pressuposto da Psicanálise que o conhecimento que nós temos de nós mesmos nos é possibilitado pelo olhar do outro. De fato, nós tendemos a ter u’a auto-imagem, quer dizer, u’a imagem de nós mesmos bem distante do que somos de fato. O inferno é o outro, o culpado é sempre o outro, o mau, o ruim nunca sou eu. É assim que fazemos nosso julgamento. A partir de como o outro nos vê, temos então muita chance de corrigir nossas distorções e, se formos humildes, podemos aprender com o outro a nos olhar com menos complacência. O pai da nossa filosofia e talvez o maior filósofo que já existiu, Sócrates da Grécia, nunca quis usar sua capacidade de pensar e de filosofar para estudar o universo, a natureza, a física nem a matemática. E isto é curioso porque os filósofos mais proeminentes, mais destacados, também eram grandes matemáticos, físicos, astrônomos… Sócrates dizia que, sendo um ignorante de si mesmo, que não se conhecendo suficientemente, não podia gastar seu tempo tentando compreender o mundo fora dele. E lembrava constantemente da frase que estava lá escrita no portal do oráculo de Delfos, frase que dizia ser a essência do conselho dos sábios: Conhece-te a ti mesmo.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 133

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
altamiro carrilho - atraente
pedro luis e a parede – verdadeiro canalha
chico buarque – quem te viu, quem te vê
jomarito guimarães - reverência
ângela maria – gente humilde
altamiro carrilho – hora staccato

[Este Prosa & Verso #133 é uma gravação modificada da que foi ao ar, por conta de um defeito na sonoplastia e da consequente baixa qualidade técnica da edição original. Mas o conteúdo é o mesmo.]

A gente pensa que são os grandes homens que fazem o mundo e a História. E pensa, pior, que os grandes homens são aqueles que ficam conhecidos e famosos. A gente pensa que os grandes homens são aqueles cujos nomes passam a ser nomes de ruas, de praças, de cidades, de aeroportos, de escolas, enfim que deixam seu nome gravado. Mas grandes homens também estão no anonimato. Muitos grandes homens passam despercebidos até mesmo pelos seus vizinhos. Não precisam ser doutores, ser ricos, ser poderosos, ser ilustres. Grandes homens podem ser simples e até iletrados, analfabetos. Conheci uns grandes homens, para os quais tiro sempre meu chapéu, para os quais meu espírito presta sempre homenagem. São homens desconhecidos, que não deixaram fama alguma, a não ser na lembrança dos que os conheceram. Eram homens de caráter, eram homens direitos, que viveram dignamente suas vidas. Outros, por ricos e poderosos que fossem, apesar de toda a fama que têm, de seus nomes estarem gravados em pedras e placas, não tiveram dignidade. Foram naturalmente ricos, poderosos, inteligentes e uns deles políticos de mão cheia. Cheia de esperteza, cheia de malícia e cheia de dinheiro e de puxa-saco. Mas, dignidade, hein?… Onde estava a dignidade?
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 132

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
haendel – tochter zion freue dich
beethoven – ode à alegria
vivaldi - primavera
johann straus – vozes da primavera
bach – jesus, alegria dos homens
haendel - hallelluja
elgar – terra de esperança e glória

No próximo domingo se festeja a Páscoa, a grande festa que a cristandade adotou como seu dia maior. O apóstolo Paulo teria escrito nos primórdios do cristianismo que se não tivessem a crença de que Jesus teria ressuscitado, toda a fé cristã seria nula, seria vã. Por isto é que a Páscoa é a festa maior, maior que o Natal, maior que ceia da quinta feira santa, maior do que qualquer festa de padroeiro que as igrejas tanto cultuam. Mas a páscoa tem sua comemoração iniciada bem antes, muito antes do que o surgimento do cristianismo. O que Paulo e os primeiros cristão fizeram não foi senão uma releitura. O termo Páscoa significa passagem e não parece indicar somente mudança de estação, mas passagem de uma vida acomodada e rotineira para uma vida renovada. Assim começa o teólogo e monge beneditino, Dom Marcelo Barros, de Olinda, Pernambuco, sua palestra, feita em 9 de abril do ano passado, para um grupo de amigos, entre os quais estava Eloy Barreto e sua companheira Áurea Mercês, coincidentemente também meus amigos. Foram eles que me passaram a cópia da palestra. E agora repasso para os ouvintes do Prosa & Verso, logo depois da música que vão ouvir.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 131

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
elis regina – dois pra lá, dois pra cá
bienvenido granda – perfume de gardenia
andy williams - born free
cleová – alguém me disse
blue star orchestra – tema do lago dos cisnes
trio irakitan – aqueles olhos verdes
ney matogrosso - besame mucho
armandinho – bolero de ravel

Ritmo dos mais agradáveis e sempre atual, volta e meia escutamos os boleros e parece que nunca nos cansamos de ouvi-los. Dança das mais populares e apreciadas em toda a América, de norte a sul, é ainda muito praticada nos bailes em geral e certamente a preferida das danças de salão. Passam-se os anos, vão os movimentos da moda e fica aí o bolero, sempre muito agradável e talvez mais fácil de se dançar. São dois pra lá, dois pra cá.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 130

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
the beatles – any time at all
banda de boca – eu só quero um xodó
silas, cremilson, elsione e zito - chalana
almir sater - benzinho
altamiro carrilho - margarida
antúlio madureira – caldo de cana
jacob do bandolim - remelexo

Um acidente ou mesmo uma doença não costuma avisar quando chega. Assim, é possível que você se depare com uma situação em que alguém de sua família esteja precisando de cuidados, mas que não seja possível encontrar imediatamente um médico. Por isso aqui vão algumas dicas para lhe ajudar a fazer alguma coisa, até que disponha de um serviço de atendimento médico.
Envenenamentos. São muitas as drogas que hoje em dia invadem a casa da gente. Pra qualquer coisinha, é um remédio, é um veneno. De tanto ouvir propaganda, a gente acaba comprando esses produtos, para usar na agricultura, nos animais domésticos e até em nós mesmos. Muitos inseticidas por aí prejudicam muito mais do que ajudam. Venenos para combater moscas e que podem provocar câncer na gente. Os chamados defensivos agrícolas, que também podem fazer mal a quem trabalha na lavoura ou a quem se alimenta com os produtos tratados com eles, os agrotóxicos. Até mesmo remédios, que podem servir para uma coisa mas que são prejudiciais para outras. Tive um professor que dizia que um remédio que não faz mal também não faz bem nenhum. Tudo isto está por aí à venda, muitas vezes só para aumentar o lucro e a riqueza dos donos das indústrias. Há também aqueles produtos que são necessários e que temos de ter em casa. Nestes casos, é preciso ter o maior cuidado para manter bem guardados os venenos e as substâncias tóxicas, que a gente tem em casa. Do mesmo modo é com os remédios. Devem ser guardados no alto, onde as crianças não possam alcançar. Se alguém vier a engolir algum dos venenos ou substâncias tóxicas, é preciso saber o que foi que engoliu, para tomar as providências. Em geral, o melhor é botar para vomitar, dando água morna com um pouco de sal e depois dar bem líquido, como chá e água de côco. Entretanto, se se tratar de querosene ou água sanitária, não se deve botar para vomitar, porque pode prejudicar mais. Deve-se, neste caso, dar bastante água filtrada. De qualquer maneira, logo a pessoa deverá ser levada a um posto para ser examinada, tendo-se o cuidado de levar junto a caixa ou vidro do veneno ou remédio que a pessoa engoliu, a fim de facilitar o trabalho do médico que atender.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 129

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
dona ivone lara e nilze carvalho - acreditar
adoniran barbosa – samba do arnesto
ivan lins – desesperar, jamais
marcos sacramento - cansei
altamiro carrilho – chorinho didático nº 6

Quando eu era criança, ouvia rádio através do serviço de alto-falantes que havia na praça de minha terra. Naquele tempo não existiam computadores, internets, televisão, CDs, nem mesmo gravadores em fitas. Só discos de vinil, aqueles bolachões, que somente os mais abonados podiam ter, mesmo porque os toca-discos, as velhas vitrolas, só os que tinham dinheiro podiam comprar. Mesmo os rádios, estes eram a válvulas, daqueles que só podiam ser ligados nas tomadas das casas, porque rádio a pilhas também não existiam. Como vocês vêem, era um tempo em que a gente tinha que curtir o luar, as noites estreladas, as cadeiras e as esteiras nas calçadas, os passeios em volta da praça, as brincadeiras de esconde-esconde ou de boca-de-forno, cirandas ou mesmo ouvir e contar estórias, geralmente de assombração, que tanto nos excitavam a imaginação de crianças… Era nessa época que eu só podia escutar rádio através dos alto-falantes da praça, que retransmitiam as emissões radiofônicas em ondas curtas. Assim, eu escutei músicas que me encantavam e escutei também curiosas vinhetas de propaganda, como uma que dizia assim:
“Pílulas de Vida do Dr. Ross
Fazem bem ao fígado de todos nós”, ao que a molecada deturpava em uma paródia que cantavam assim:
“Pílula de vida do dr bode
Entra pela boca e sai por onde pode”.
Gozações e molecagem à parte, a propaganda terminava dizendo, numa voz grave de locutor bem treinado: “Pílulas de Vida do Dr Ross, pequeninas, mas resolvem!…
Pois bem, o escritor, cineasta e jornalista Arnaldo Jabor, deixou publicado um texto pequeno, que me lembrou a tal propaganda da minha infância, pequenino, mas resolve! O texto se chama Paciência. E, como eu disse, é da autoria de Arnaldo Jabor:
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 128

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
moreira da silva – amigo urso
maria bethânia e chico buarque – sinal fechado
antonio carlos e jocafi – você abusou
hebe camargo – naquela mesa
mpb4 – amigo é pra essas coisas
nora ney – ninguém me ama
grupo vou vivendo – noites cariocas

Tudo o que se faz entre duas ou mais pessoas deve decorrer dentro de um contrato. Dito assim, parece um exagero, mas prestem atenção: Na escola, espera-se que o professor dê as instruções, mas também se espera que o aluno preste atenção e apreenda o que lhe foi ensinado. Isto é um contrato. Na feira, espera-se que o comprador pague pelo que vai levar, mas também se espera que o feirante lhe forneça a mercadoria em boas condições. Isto é um contrato.Quando se vai consultar um médico, espera-se que o médico tenha um conhecimento satisfatório do que está fazendo ou que tenha a honestidade para reorientar o paciente para outro médico, caso não se sinta habilitado a tratá-lo. Mas, por outro lado, espera-se que o paciente remunere o médico pelo atendimento. Ou o paciente ou quem quer que seja responsável por ele, como por exemplo o poder público, cumpra este outro lado do contrato. Porque isto também é um contrato. São contratos chamados de tácitos, porque necessariamente não precisam ser escritos e assinados por ambas as partes para que sejam cumpridos. A palavra tácito significa silencioso, que não é preciso falar a respeito ou explicar. Assim também acontece com todas as relações humanas, o que significa que cada um de nós desempenha papéis diferentes durante o dia e durante a vida. São os papéis sociais, como o papel de pai, papel de filho, papel de vendedor, papel de comprador, de pastor e de crente, e assim por diante.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 127

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
juca chaves – que saudade
dick farney - a saudade mata a gente
funeral de um rei nagô
djarumami – galo bedjo
nilo amaro e os cantores de ébano – azulão
miltinho - lembranças
amália rodrigues – ai mouraria
nelson gonçalves e maria bethânia - caminhemos
altamiro carrilho e maria teresa madeira – meu primeiro amor

Saudade… É apenas uma palavra. Mas ela expressa um sentimento lá de dentro, um sentimento sofrido, melancólico, dolorido e tristonho. É incrível que a palavra para dar nome a este sentimento, misto de solidão, de falta, de ausência, só exista em apenas três línguas: português, gallego e romeno, três línguas irmãs, todas filhas do latim. Você sabia disto? Pois, saudade, na língua portuguesa, morrinha, em gallego, língua da Galícia no noroeste da Espanha e durere, na língua romena.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 126

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
quatro ases e um coringa – o dinheiro que ganho
chico buarque – deus lhe pague
beth carvalho – velho ateu
gabriel o pensador e fundo de quintal - boca sem dente
ataulfo alves - amélia
altamiro carrilho – cinco companheiros

As crianças, e também muitos adultos, ainda pensam que os humanos sempre foram como são hoje. Que sua maneira de se relacionar, de comer, de vestir, de morar, de se organizar vem assim desde que o mundo é mundo. Desde que o homem deixou de ser macaco, e isto demorou mais tempo do que estes milhares de anos em que o homem se reconhece como humano. Mas nem sempre fomos como somos hoje. Nem mesmo, como dizia, é a mesma nossa maneira de nos relacionarmos uns com os outros, não é o mesmo o modo como nos alimentamos, como vestimos, como moramos e também como nos organizamos em grupos. Antes de aprenderem a pensar, nossos antepassados já tinham descoberto, pelo próprio instinto, que não seria possível os homens viverem sozinhos, isolados uns dos outros. Que precisavam se unir, uns aos outros, para sobreviver diante de tantas ameaças externas, inclusive a ameaça de outros humanos. Ao se organizar em grupo, a espécie humana passou a caçar, a ter sua moradia, a plantar, quase sempre em mutirão, produzindo assim tudo o necessitavam para sobreviver. Um dia, as famílias e os pequenos grupos humanos não foram mais capazes de produzir tudo o que precisavam para sobreviver e os homens aprendeu a trocar aquilo que produziam e que lhes sobrava. Assim, muito tempo depois, e bota tempo nisto, passaram ver que não conseguiam produzir tudo o que precisavam. Então, foi assim que surgiram as trocas. Digamos que uma tribo tinha mais habilidade na caça e que outra tinha mais habilidade em fazer agasalhos. Naturalmente, a troca surgiu e, com ela, a divisão do trabalho. Isto foi evoluindo, portanto, até os nossos dias, com toda a complexidade em que vivemos hoje. Mas houve um momento em que os objetos de troca eram grandes e pesados demais para ser carregados e alguém teve a brilhante idéia de inventar a moeda, o dinheiro. A moeda, o dinheiro, por si só, não vale nada. Ele vale pelo que representa. E o que representa é o poder de compra. É isto que voga até hoje.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 125

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
jorge veiga – café soçaite
maria bethânia – último desejo
chico buarque – geni e o zepelim
nora ney – ninguém me ama
yamandu e dominguinhos - molambo

Nas últimas duas semanas, temos tratado aqui no Prosa & Verso de questões ligadas basicamente aos adolescentes e na semana passada fizemos alguns comentários sobre a preocupação que os jovens têm com a imagem que passam para os outros. Sua necessidade de afirmação, como se costumava dizer faz algumas décadas. Mas não somente os jovens. Quase todos nós nos preocupamos com a imagem, com a opinião dos outros. E a imagem que tentamos passar para as pessoas em redor da gente quase sempre é u’a imagem falsa, enganosa e faz parte do mundo em que a gente vive, cheio de hipocrisia e falta de amor à verdade. Assim é com os pais, assim é com os professores, assim é que frequentemente ensinamos aos nossos jovens, assim é com a sociedade em geral. Vocês já se deram conta de que quando vamos à igreja vestimos nossas melhores roupas? Que tem isto a ver, afinal, com o espírito religioso? Tem muito mais a ver, creio eu, com a impressão que queremos passar aos outros, com a imagem social que pretendemos impor aos outros. Vocês me dirão: Mas é o costume!… Certamente que é o costume. Porque nos acostumamos a um mundo que não preza a verdade, mas preza a pose, a aparência. Nós vivemos representando, como se o mundo fosse um teatro. Então desempenhamos papéis. Mas isto não significa nem justifica que nossos desempenhos, nos desempenhos de nossos papéis, sejamos impostores e enganosos para com os outros. Por causa da hipocrisia em que vivemos mergulhados é que escondemos nossos defeitos, tentamos encobrir nossos erros, ao invés de os admitirmos e de nos empenharmos em corrigi-los. As regras de convivência social nos obrigam a proceder de modo diferente, conforme estejamos dentro de nossas casas ou nos lugares públicos. Conheci u’a mulher que desprezava a vida privada, a ponto de jamais tirar os sapatos de salto alto, mesmo quando estava sozinha dentro de sua casa. Só os tirava para dormir, dizia ela. No dizer dela, não queria ficar desacostumada dos sapatos altos. Entrou na política e foi até prefeita de uma cidade baiana. Nunca se casou nem sequer se relacionou amorosamente com alguém. Vivia para manter sua imagem social. Era apenas um exagero daquilo que nós costumamos fazer.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 124

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
chico buarque e moreira da silva – doze anos
roberto silva - escurinho
maria bethânia - uma canção desnaturada
onésimo gomes - pierrot
aracy de almeida – rapaz folgado
altamiro carrilho – chorinho didático nº 5

Os adolescentes, como já tenho mencionado aqui algumas vezes, vivem a contestar tudo e todos. Muitos deles são rebeldes sem causa, como bem define o título no Brasil do filme de Beth Schacter. Pois bem, convivemos com adolescentes há tanto tempo, inclusive com nossa própria adolescência, que já era de esperar termos aprendido e até prevermos como eles se comportam. Aliás, o nome do filme, no original americano, pode ser traduzido como Comportamento Normal dos Adolescentes. Acontece, porém, que os adolescentes são mesmo imprevisíveis, como são imprevidentes, ou talvez por isso mesmo: são imprevisíveis porque são imprevidentes. Carregam a curiosidade natural da infância, só que suas experiências se tornam bem mais arriscadas e perigosas. E acabam cometendo erros aberrantes e algumas vezes desastrosos e fatais. Dizem que Deus protege de modo especial as crianças e os loucos. E também na certa os adolescentes. Tem gente que chama os adolescentes de aborrecentes. Como vamos ficando mais susceptíveis e irritadiços com o passar do tempo, temos a impressão de que os adolescentes que estão por perto são piores do que nós mesmos fomos e piores do que os outros que conhecemos no decorrer de nossas vidas. Mas isto é só impressão, porque nossa memória é curta e seletiva. E nos esquecemos do que aprontamos em nosso tempo. Apesar de estar atento para este fato, minha tendência é dizer que agora é pior do que foi antes. O pavio vai ficando curto. A rebeldia incomoda, a irreverência incomoda, a barulheira incomoda… É verdade… Mas isto tudo não justifica que os pais se voltem contra seus filhos adolescentes, porque parecem indomáveis, incorrigíveis e definitivamente perdidos. Não é bem assim. O que os pais têm que fazer é não perder sua estribeira e estar por perto e disponíveis para quando eles, os abomináveis adolescentes, escorregarem, tropeçarem, caírem e quebrarem a cara. Nessa hora é que podemos ajudá-los e, como diz Rubem Alves, juntar os cacos. É o que podemos fazer, lembrando com amargura o que tantas vezes nos disseram nossos pais: quem não ouve conselho, ouve lamento…
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 123

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
linda batista - vingança
maria bethânia – atiraste uma pedra
noite ilustrada – volta por cima
raul seixas – tente outra vez
porfírio costa - passou

Cada um de nós, individualmente, tem seus próprios limites. Não somos iguais, como os dedos da mão não são iguais. Cada pessoa tem sua capacidade de aprender, sua capacidade de realizar, sua capacidade de construir alguma coisa e também sua capacidade de enganar os outros, como tem sua capacidade de tolerar os erros dos outros. Na Bíblia, fonte quase inesgotável de sabedoria, aqui e ali a gente encontra sugestões, conselhos, caminhos por onde seguir. Existe um livro na Bíblia que se chama Eclesiastes, um dos textos de maior sabedoria que eu já conheci. Pois bem, contam os evangelhos que alguém perguntou ao moreno de Nazaré quantas vezes se devia perdoar uma pessoa que tenha errado. Está lá escrito que Jesus, o galileu, o moreno de Nazaré, respondeu que, de acordo com as leis religiosas do seu povo, uma pessoa deveria ser perdoada sete vezes, mas que, na opinião dele, o perdão deveria ser dado tantas vezes quantas fossem necessárias. Na sua maneira figurada de falar, ele disse: Não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete. De acordo com a linguagem e o costume da época, isto queria dizer não somente 490 vezes, que são sete vezes sete, mas a maior quantidade possível. É assim que os estudiosos daqueles escritos antigos interpretam.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 122

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
adoniran barbosa – despejo na favela
angela maria e cauby peixoto – ave maria do morro
wilson simonal – o morro não tem vez
ciro monteiro – chora, coração
dorival caymmi – eu não tenho onde morar
velha guarda da portela – onde a dor não tem razão
anjos do inferno – brasil pandeiro

Frequentemente nós ouvimos falar em saúde coletiva. Profissionais da saúde [ou da doença, se preferirem] estão muitas vezes voltadas para as chamadas ações de saúde, no sentido de evitar ou prevenir doenças geralmente contagiosas. Aqui em Morro do Chapéu, a Secretaria de Saúde mantém, em parceria com os governos estadual e federal, programas específicos de controle e prevenção de, por exemplo, diabetes, hipertensão, tuberculose e outros mais. Em alguns municípios, existem programas de planejamento familiar, de saúde mental, de controle de doenças infecciosas. Além disto, outras ações são exercidas, sem o caráter especial dos programas citados [e neste caso, com a supervisão quase que direta do próprio Ministério da Saúde, em que a vigilância sanitária, o controle ambiental, o controle da qualidade dos alimentos e dos medicamentos são exemplos]. Se algum ouvinte quiser conhecer maiores detalhes destas ações, pode dirigir-se à Secretaria de Saúde para se informar. Como vocês bem sabem, existe um conselho de saúde no município, que pode também esclarecer as pessoas, como também ouvir suas opiniões, críticas e sugestões.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 121

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
linda batista – vingança
guilherme arantes – planeta água
maria betânia – atiraste uma pedra
decadência
gabriel o pensador – até quando
fagner – quem viver chorará

Um ouvinte me disse que para entender o Prosa e Verso é preciso estar prestando atenção. Concordo, porque para fazer o programa eu também tenho que prestar atenção no que estou fazendo. Este programa não quer apenas divertir. Quer estimular as pessoas a pensar, a refletir e a conhecer melhor o mundo das idéias em que vivemos. Por isto eu reconheço que o que é falado aqui não é fácil de compreender, se o ouvinte não estiver prestando atenção. Por outro lado, estamos aqui sempre disposto a clarear alguma coisa que ficou obscura. Hoje vamos falar sobre a decadência.
O linguajar de cada ramo do conhecimento é um linguajar próprio que confunde aqueles que nele não foram iniciados. É tradicional a referência, quase com gozação ao linguajar dito economês. É como se fosse outra língua e só os que fizeram incursões por seus estudos é que o compreendem. Mas também o linguajar médico, cheio de ites e oses, não fica atrás. Quando na linguagem comum dizemos que alguém teve um êxito, estamos falando de como se saiu bem. No linguajar médico, se diz que o paciente teve êxito letal, justamente quando sucumbe à doença e morre. Aliás, aqui o linguajar médico segue à risca o sentido etimológico da palavra êxito, que significa saída. E que dizer então do linguajar jurídico, do jargão dos advogados, cheios de suas citações latinas? E os jornalistas, com suas gírias, falam em nariz de cera, em furos, focas e outros termos, cada um mais estranho. Pois bem, os estudiosos da homeopatia distinguem três formas ou fases de doentes, mesmo porque, acertadamente, não consideram a existência de doenças, mas de doentes. Estas três formas ou etapas são chamadas de fase psórica, fase sicósica e fase sifilítica. A primeira e mais branda fase, a psórica é a mais benigna e de tratamento relativamente fácil, de bom prognóstico como se diz. É uma fase de reação favorável, de caminho mais curto para o re-equilíbrio do organismo. A segunda fase, a sicósica, mais grave, é uma fase de decadência, de enfraquecimento, de tendência destrutiva, mas a terceira fase, a sifilítica, é a pior. É a proximidade do fim, a doença fria, degenerativa e que leva a grande sofrimento antes da morte.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 120

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
por uns dólares a mais
moreira da silva – o rei do gatilho
moreira da silva – o último dos moicanos
moreira da silva – o seqüestro de ringo
moreira da silva – os intocáveis
moreira da silva – morengueira contra 007
moreira da silva – a volta de chang lang

Os antigos já diziam que é rindo que se castigam os costumes. Os filmes americanos, principalmente os produzidos em Hollywood, chamada a capital ou a Meca do cinema, certamente são constituídos em sua maioria absoluta de trastes, de trash como em inglês eles mesmos chamam, quer dizer, de lixo, de porcaria, do que não presta. No meio do monturo, do lixo, da lama, podemos encontrar aqui e ali, plantas especiais que nos oferecem sombra, flores ou frutos que são muito bem vindos. Assim é com o cinema americano. Já tive oportunidade de falar aqui um pouco sobre os filmes de faroeste, de cowboy, de bang-bang, como preferirem. Um dia, já com a produção americana em decadência, os italianos começaram a fazer uma espécie de caricatura de faroestes, tudo exagerado, alguns até engraçados e outros francamente ridículos. Como isto pôde ser apreciado pelo mundo afora, eu não sei. Mas sei que os chamados jocosamente westerns-espaguetes tiveram seus dias de glória e renderam muito dinheiro. De qualquer modo, alguns dos faroestes italianos traziam alguma gozação, alguma crítica bem humorada aos americanos. Mais uma vez, o ditado: é rindo que se castigam os costumes. Belas músicas foram trilhas sonoras desses filmes. Por uns dólares a mais é um exemplo.
Leia mais…

Escute o Prosa & Verso 119

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
strauss – vozes da primavera
lehar – conde de luxemburgo
strauss – valsa do imperador
lehar – a viúva alegre
strauss – contos dos bosques de viena
strauss – danúbio azul
ernesto nazareth - odeon

Viena, capital da Áustria, foi também a capital da música alemã durante quase dois séculos. Não só de músicos austríacos veio sua fama, mas também de músicos alemães que lá viveram e atuaram. Beethoven e Brahms, ambos considerados entre os maiores compositores alemães, passaram praticamente toda a sua vida em Viena. A música vienense é, entretanto, geralmente identificada por nós com as valsas compostas principalmente por Johann Strauss jr e por Franz Lehár.
Leia mais…

Next Page »