Julho 2006


maniqueísmo 

não devo reforçar mani
e dividir a humanidade
entre bons e maus,
entre joio e trigo.
mas devo admitir que ela,
podendo ter sido boa,
escolheu ser má
e com isto se divertiu
bastante.

No primeiro momento, como eu não estava assistindo à partida, quando Lucas me falou da cabeçada, achei que Zidane tinha perdido a cabeça. Pensei: tenha medo de quem é muito contido; quando perde a cabeça é pra valer. Entretanto, depois assisti ao vídeo-tape do lance e vi que Zidane não tinha mesmo era perdido a cabeça. O que aconteceu é que ele, com todo o controle zen que um homem pode desejar, tangenciou as provocações e saiu andando calmamente. O zagueiro italiano que o provocou caminhava um pouco atrás, falando o que ninguém conseguia escutar, exceto Zidane. Subitamente, este inverte o sentido de sua marcha, detém-se por um segundo e, à aproximação do italiano, desfere-lhe u’a marrada no peito. Incontinenti, cai o italiano enquanto que Zidane permanece de pé, sem um só músculo contraído, a julgar por suas mãos que nem sequer estão fechadas, como sói quando se é apossado de raiva e violência e a julgar também por sua postura descontraída, quase flácida, ali de pé. Não se aproveitou da queda do outro, não lhe deu chutes, não o esmurrou, como era de esperar de alguém que estivesse possuído de ímpetos agressivos e violentos. Logo vem o árbitro e lhe dá cartão vermelho. Posteriormente, ficamos todos sabendo que o árbitro não teria visto o lance e que usara meios eletrônicos, o que aliás lhe seria vedado fazer, para dar a falta.

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Num mundo de mesmice, encontrei um comentário surpreendente e digno acerca do affair Zidane. Escrevi para o autor, pedindo licença para transcrevê-lo neste site e mesmo antes de obter sua resposta, ousei fazer a transcrição. De certo modo, é um presente para todos nós.

Texto de Marcos Caetano ( marcos.caetano@nominimo.ibest.com.br )

Eu não vinha gostando da Copa de 2006. Não por causa do tombo da nossa seleção, numa derrota que causou mais raiva do que tristeza. O que estava me deixando frustrado na mais recente edição do maior evento esportivo do planeta era a ausência do fator humano. Nenhum craque de verdade havia brilhado na competição e os esquemas táticos conservadores vinham ofuscando o brilho dos jogadores, de forma que a defesa da Itália – assim, sem nomes, no sentido coletivo – obtinha mais destaque do que qualquer atleta.Foi quando a cabeçada de Zidane em Materazzi recolocou as coisas em seus devidos lugares. Em mim, pelo menos, aquela cabeçada teve o mesmo impacto que no peito do zagueiro italiano. “A dor não pode mais do que a surpresa” – escreveu Guimarães Rosa. A dor de ver Zidane abrindo mão de um fecho glorioso para a sua carreira só não foi maior do que a minha surpresa ao acompanhar seu gesto final. O ato de Zidane relembrou-me que o futebol, felizmente, é praticado por indivíduos, sempre sujeitos a falhas e destemperos.

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Algumas reflexões acerca da arte de lidar com a raiva


 
Quase sempre somos exortados pelo senso comum a controlar a raiva, a reprimi-la. Isto não costuma dar certo e quando parece funcionar apenas desloca  a energia reprimida para outros setores da corporeidade, produzindo ansiedade, frustração ou mesmo achaques somáticos como dores no plexo solar, tiques, alterações na pele, dores de cabeça, entre outros. Quando persistem as tentativas de domar as manifestações da raiva, cria-se um círculo vicioso que vem a resultar em grande sofrimento e sentimento de impotência, pequenez, além de quedas constantes, acompanhadas de muita culpa e auto-depreciação. Empenhar-se em domar a raiva é lutar contra a natureza, é violentar-se, dirigir para si mesmo a agressividade supostamente contida. Em outras palavras, não se doma coisa nenhuma, apenas se aponta para outro alvo a violência impulsiva.

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