Algumas reflexões acerca da arte de lidar com a raiva


 
Quase sempre somos exortados pelo senso comum a controlar a raiva, a reprimi-la. Isto não costuma dar certo e quando parece funcionar apenas desloca  a energia reprimida para outros setores da corporeidade, produzindo ansiedade, frustração ou mesmo achaques somáticos como dores no plexo solar, tiques, alterações na pele, dores de cabeça, entre outros. Quando persistem as tentativas de domar as manifestações da raiva, cria-se um círculo vicioso que vem a resultar em grande sofrimento e sentimento de impotência, pequenez, além de quedas constantes, acompanhadas de muita culpa e auto-depreciação. Empenhar-se em domar a raiva é lutar contra a natureza, é violentar-se, dirigir para si mesmo a agressividade supostamente contida. Em outras palavras, não se doma coisa nenhuma, apenas se aponta para outro alvo a violência impulsiva.


Em busca de outros recursos para neutralizar a raiva e suas manifestações como a truculência e a grosseria que sempre me acompanharam no decorrer da vida, encontrei, consultando meu oráculo, umas pistas: A raiva não existe sozinha, isolada do contexto. A raiva é sempre fruto de uma outra semente, embrionária em terrenos e climas propícios. Em minhas introspecções, percebi que reajo raivosamente sempre que me sinto ameaçado. Inicialmente não compreendi a natureza de tal ameaça, porém posteriormente comecei a enxergar que esta não era senão uma fachada de toda uma comitiva de sentimentos muito ruins que me surgiam a partir de estímulos externos reais ou imaginários. Minha reação, no estilo bateu, levou, tem sido racionalizada por mim como uma conseqüência por terem pisado em meus calos, isto é, terem violentado meus princípios, minha privacidade, meus direitos. Ora, inúmeras vezes me tenho comportado irracionalmente, em ímpetos de explosão absolutamente desproporcionais às provocações externas e isto me deixa muito mais culpado e triste. Como meu discernimento costuma ser fraco, razão pela qual não tolero desempenhar o papel de juiz nem de jurado, tenho passado muito tempo de minha vida atarantado, confundindo a indignação com a raiva ou com o ódio, de maneira a oscilar freqüentemente entre uma auto-complacência culpada e um auto-rigor cruel. Há pouco tempo, consultando meu oráculo, meu cumpade me alertou que uma vergonha não bem definida precede meus arroubos de truculência, minha raiva e a ameaça da qual me sinto uma espécie de vítima. No curso da prosa com meu cumpade, vi mais ainda que, antecedendo a vergonha, havia um medo nebuloso, que posteriormente identifiquei, ao menos por enquanto, como medo de ter minha imagem abalada e de ter meus defeitos e fraquezas denunciados. Em outras palavras, está certo quem fez estas formulações: Quem fica com raiva leva o outro para a cama e bateu, ressoou, leve que é seu!
 
A essa altura, caiu em minhas mãos um livro que se chama A Arte de Lidar com a Raiva, atribuído ao Dalai Lama, de cujo capítulo introdutório, escrito por um certo Geshe Thupten Ginpa que suponho tratar-se de um monge budista, retirei alguns retalhos:
 
Quase a cada passo, deparamos com situações que testam os limites de nossa paciência e tolerância. Seja na família, no ambiente de trabalho ou simplesmente quando interagimos com outros, muitas vezes nossos preconceitos são revelados, as convicções contestadas e a auto-imagem ameaçada. É num momento assim que nossos recursos interiores são mais necessários.
 
Ao defender a prática da paciência, Shantideva não está sugerindo que devemos simplesmente nos submeter aos abusos e explorações dos outros. Também não está recomendando uma política de aceitação simples e passiva do sofrimento e da dor. O que propõe é uma posição firme contra as adversidades. Em seu comentário, o Dalai Lama traça uma distinção entre docilidade e tolerância. Sugere que a tolerância genuína só pode surgir quando a pessoa conscientemente adotou uma posição de não retaliar contra um mal concreto ou percebido. O ponto central aqui é a posição adotada conscientemente.
 
É curioso e estimulante que o lidar com a raiva deva ser feito de uma forma amorosa, porém não piegas, mas amorosa em um sentido amadurecido, compreendendo o amor como um produto do respeito, do conhecimento, da admiração e da responsabilidade, como explanou Erich Fromm em A Arte de Amar. Tal diretriz, que deve estar presente na psicoterapia, está aí explicitada na ótica budista. Considerar que o agressor externo é um pobre coitado, digno de dó, a quem simplesmente se deve dar a outra face e permitir que continue a provocar os demais por aí a fora, é de fato uma atitude paternalista pseudo-amorosa e falsamente cristã, se for considerada sua origem na pessoa de Jesus. Isto é o mesmo que negar o mal concreto e percebido, enquanto que, na proposta budista e humanamente possível e adequada, o mal concreto e percebido, pelo contrário, tem que ser encarado conscientemente, único modo de ajudar seu autor a assumir a responsabilidade pelos seus atos. Perdoar é dar um voto de confiança de correção e não de cumplicidade no erro.
 
Estas considerações também me acrescentaram algo à descoberta anterior de que minha raiva decorria do medo antecipado da revelação de defeitos meus. Acrescentaram a informação vigorosa e indesejável de que meus preconceitos também fazem parte dos tais defeitos. A que defeitos, realmente, eu estava me referindo como vergonhosos? Posso fazer uma lista, mas certamente estarei esquecendo [leia-se ocultando, ignorando, trapaceando comigo mesmo] uma boa parte deles que não são apenas vergonhosos, mas talvez especialmente vergonhosos. Com a inclusão assumida dos meus preconceitos ao rol de minhas vergonhas, oxigena-se a  esperança de que muitas outras fraquezas ainda haverão de ser desmascaradas, tanto pelas consultas ao meu oráculo quanto pela sinalização, mesmo involuntária, das outras pessoas. Isto inclui pessoas que publicam suas idéias e pessoas que jogam meus defeitos na minha cara, direta ou indiretamente, muitas vezes às custas de uma tijolada, um coice, uma baixa, nos assomos de intolerância e raiva em que tenho sido mestre.
 
Shantideva faz a observação crucial de que o “combustível” da raiva é o que ele chama de “desconforto mental”. É uma noção muito interessante. A palavra tibetana éyi mi-dewa, que pode ser traduzida como “melancolia”, “infelicidade” ou simplesmente como “insatisfação”, é melhor compreendida como um senso profundo e latente de insatisfação, que não precisa ser sentido no nível da consciência. É aquele sentimento incômodo de que algo não está tão bem quanto deveria. Shantideva observa que é esse senso latente de insatisfação que gera a frustração. Se isso acontece, estão armadas as condições para uma súbita explosão de raiva quando as coisas não ocorrerem como desejamos. Uma vez compreendido esse nexo causal entre insatisfação, frustração e raiva, podemos apreciar a virtude do método de Shantideva de lidar com a raiva. Constatamos que visa a erradicar esse senso latente de insatisfação, em vez de se empenhar num confronto com a raiva concreta e manifesta.
 
Também encontrei, neste capítulo do citado livro do Dalai Lama, algo para clarear meu discernimento, que, como disse antes, é muito pobre. Isto no que diz respeito a vislumbrar com maior nitidez a diferença entre o que seja indignação e o que seja raiva e o que seja ódio. Deste modo fica mais possível ser menos conivente e também menos intolerante para comigo mesmo e conseqüentemente para com os outros. Pode ser que isto me faça mais sereno e menos cruel.
 
Shantideva não faz qualquer distinção entre raiva e ódio em sua análise. O comentário do Dalai Lama, no entanto, ressalta explicitamente essa distinção crítica. Ele observa que, em princípio, talvez seja possível aceitar o que se poderia chamar de “raiva positiva”. A raiva como indignação contra a injustiça cometida com outras pessoas pode muitas vezes ser um catalisador importante para poderosos feitos altruístas. Mas ele rejeita essa possibilidade em relação ao ódio.
 
Minhas reflexões até agora se limitaram à tentativa de identificar os mecanismos de produção da raiva.
 
Vou acrescentar algumas considerações acerca do que podemos fazemos com a raiva, que brota segundo os mecanismos acima, mas que uma vez brotada estará aí para ser feito dela o uso que cada um puder fazer. A raiva tem certamente que materializar-se, resultando assim na realização de um ato:
 
1.                          o ato de recalcar-se, de engolir a seco e neste caso a raiva não desaparece, fica apenas contida por um tempo e se desloca implacavelmente para outro tempo e outro lugar; geralmente encontra outro alvo para explodir, nem que seja o próprio raivoso que, numa clara auto agressão, transmuta-la-á em doença ou sintoma;
2.                          o ato de calar-se, apenas estrategicamente, mas que derivará em um comportamento indigno de tentar destruir maliciosamente o provocante ou seu objeto de afeto, falando na ausência, fazendo intrigas, caluniando, injuriando perante outras pessoas, enfim, difamando o desafeto, provocando-lhe danos mediatos; é muito provável que em ambos os casos a raiva se transforme em ódio;
3.                          o ato de atuar, agredir fisicamente, verbalmente, seja como for, mas infligindo danos imediatos não só ao provocador, mas a quem por perto estiver e até às coisas circunstanciais, aos bens, à Natureza, como um raio que acompanha o trovão;
4.                          o ato de falar, explodindo automaticamente com o aumento do volume da voz, com a veemência das afirmativas e até com um aporte gestual de aparência truculenta, explodir como um trovão, porém sem o respectivo raio que venha a causar danos;
5.                          o ato de conter não a raiva em si, mas a impulsividade ou a ansiedade de expressá-la e realizá-la, conter-se frente ao tempo, poder deixar para depois, esperar, jejuar e pensar, sem com isto recalcá-la, mas apenas domando e controlando a situação a fim de sublimá-la, isto é, transformá-la em algo criativo e produtivo, consumando sua materialização.
 
 
Minha dupla experiência psicoterápica, como paciente e como terapeuta, acabaram por me conceder ferramentas importantes para a introspecção, esta minha viagem para o interior, que por sua vez me tem proporcionado alguns insights, verdadeiras bênçãos, responsáveis por mudanças em meu viver, para mim bastante significativas e gratificantes. 
Para minha surpresa, surpresa agradável, encontro nas páginas do livro citado, em seu capítulo inicial, pontos de vista francamente concordantes com o pensamento norteador da corrente de psicoterapia que tenho abraçado.
 
Quando os mestres apresentam meios de se lidar com emoções como a raiva, não estão afirmando que devemos reprimi-la. Tanto a psicologia budista quanto a moderna concordam sobre a perniciosidade da mera repressão. A técnica budista é chegar à raiz, a fim de que a própria base para a raiva seja cortada. Em outras palavras, Shantideva e Dalai Lama sugerem meios de reorientar nosso caráter, para que nos tornemos menos propensos a ter reações emotivas fortes como a raiva…
 
Finalmente, com uma beleza poética, encontrei os versos seguintes, que considero preciosidades de sabedoria e pragmatismo:
 
Onde eu poderia encontrar couro bastante
Para cobrir toda a superfície do mundo?
Mas [usar] couro apenas nas solas dos pés
É o mesmo que cobrir o mundo inteiro.
 
Da mesma forma, não me é possível
Controlar o curso externo das coisas;
Mas se eu controlasse minha mente,
Que necessidade teria de controlar o resto?
 
Por que ser infeliz com algo,
Se isso pode ser remediado?
E de que adianta ser infeliz com alguma coisa,
Se isso não pode ser remediado?
 
Não sei se tudo isto que pensei e tenho pensado é verdade. Como de praxe, duvido e desconfio do que falo, do que ouço e do que vejo. Posso estar racionalizando, para encobrir meu próprio comportamento, geralmente impulsivo e explosivo, nos moldes do 4º ato há pouco mencionado. De qualquer forma, não estou escrevendo para publicar, para que outras pessoas leiam e aprendam, como se pode equivocadamente supor. É escrevendo que costumo monologar, refletir, fazer meu solilóquio. Aqui estão meus prováveis insights, que servem para meu próprio gasto. Só que os quero dividir eventualmente com meus filhos e meus amigos.
 
Tudo o que foi escrito acima são meras reflexões e lembranças. Tudo no mundo das idéias. Na prática, ocorre muita coisa diferente, mas não contraditórias com o que expus. Diferente porque suponho que não basta refletir e descobrir a natureza das coisas. Há ainda uma grande distância entre o pensar e o agir. Freqüentemente desmorono de meu lugar idealizado e caio nas mesmas armadilhas de minha própria teia de imperfeições. A introspecção certamente é importante, mas o treinamento e a disciplina também devem ter seu lugar de destaque, na construção de uma nova pessoa, no polimento do caráter e na mudança do comportamento.
 
Uma história popular, que os mestres tibetanos gostam de contar a seus discípulos, narra o encontro de um eremita com um pastor. O eremita vivia sozinho nas montanhas. Certo dia um pastor passou perto de sua caverna. Intrigado, perguntou-lhe:
- O que está fazendo sozinho no meio do nada?
Ao que o eremita respondeu:
- Estou meditando.
- Meditando sobre o quê?
- Sobre a paciência.
Houve um momento de silêncio. Depois de algum tempo, o pastor resolveu ir embora. Ao se virar, olhou para trás e gritou:
- Antes que eu me esqueça, vai para o inferno!
- Como ousa me falar assim? Vá você para o inferno!
O pastor riu e lembrou ao eremita que ele deveria pôr em prática a paciência.
 
 
[Os trechos destacados são citações do livro A Arte de Lidar com a Raiva, do Dalai Lama]
  
 
jorge rocha
Tibidabo,
1º semestre de 2004.