Dom 16 Jul 2006
Zidane, uma lição
Categoria: Filosofia do cotidiano | Por Jorge Rochamaniqueísmo
não devo reforçar mani
e dividir a humanidade
entre bons e maus,
entre joio e trigo.
mas devo admitir que ela,
podendo ter sido boa,
escolheu ser má
e com isto se divertiu
bastante.
No primeiro momento, como eu não estava assistindo à partida, quando Lucas me falou da cabeçada, achei que Zidane tinha perdido a cabeça. Pensei: tenha medo de quem é muito contido; quando perde a cabeça é pra valer. Entretanto, depois assisti ao vídeo-tape do lance e vi que Zidane não tinha mesmo era perdido a cabeça. O que aconteceu é que ele, com todo o controle zen que um homem pode desejar, tangenciou as provocações e saiu andando calmamente. O zagueiro italiano que o provocou caminhava um pouco atrás, falando o que ninguém conseguia escutar, exceto Zidane. Subitamente, este inverte o sentido de sua marcha, detém-se por um segundo e, à aproximação do italiano, desfere-lhe u’a marrada no peito. Incontinenti, cai o italiano enquanto que Zidane permanece de pé, sem um só músculo contraído, a julgar por suas mãos que nem sequer estão fechadas, como sói quando se é apossado de raiva e violência e a julgar também por sua postura descontraída, quase flácida, ali de pé. Não se aproveitou da queda do outro, não lhe deu chutes, não o esmurrou, como era de esperar de alguém que estivesse possuído de ímpetos agressivos e violentos. Logo vem o árbitro e lhe dá cartão vermelho. Posteriormente, ficamos todos sabendo que o árbitro não teria visto o lance e que usara meios eletrônicos, o que aliás lhe seria vedado fazer, para dar a falta.
Toda a carreira de Zidane, um gentleman do futebol, um craque equilibrado e sereno, cai por terra, sob a indignação da arbitragem, que o expulsa do campo. Que fez mesmo Zidane? Eu me coloco no lugar dele e, se conseguisse alguma vez na vida reagir daquela maneira, pelo menos dessa vez me orgulharia de ter sido um homem de verdade. Diógenes, pode descansar sua lanterna!
Estou trazendo para mim o que fez Zidane naquele momento. Eu me torturo há muitos anos, seguramente desde a infância ou início da adolescência, por conta de meu gênio explosivo, impetuoso. Tenho envidado os esforços possíveis para ser suave, mas firme. Ou firme, mas suave… Não suporto desaforos e não me calo diante deles. A despeito disto, reconheço que sou um covarde, que tenho medo e que muitas vezes tenho usado para mim mesmo o pretexto da prudência para camuflar minha covardia. E, malgrado este reconhecimento, reajo sempre com agressividade e violência verbal. Falo alto, jogo na cara das pessoas aquilo que elas não querem ouvir. Tenho consciência de que sou bom esgrimista da palavra, como dizia Ana Leal,. Só que tenho usado isto de forma violenta e chocante.
Não como Zidane usou sua cabeça, pois a usou literal e figurativamente, num golpe de mestre. Que mais teria cabido a Zidane fazer? Sair andando enquanto era agredido pelo provocador? Até quando? Deveria, por acaso, ter dado chutes e pontapés, ter feito uma cena teatral, como é costume no meio do futebol, como de resto é costume no meio da vida em geral? Ou deveria ter ido se queixar: Seu juiz, aquele cara está xingando minha mãe e minha irmã. Está me provocando!… Eu não respondo pelo que vier a acontecer a ele…?
Olhando novamente para mim e minha culpa por não conseguir ser cristão e dar a outra face… Tenho refletido sobre o ódio e a ira. Penso em Gandhi, mas não tenho muitas informações suficientes sobre sua vida pessoal. Só sei que o mundo inteiro manifesta sua suposta admiração por ele, mas não se lhe segue o exemplo.
Será que a marrada de Zidane não foi um golpe neste mundo hipócrita e escroto, um golpe seguro, firme e, paradoxalmente, não-violento, que não deixou equimoses, feridas, não tirou sangue nem humilhou o desafeto? Apenas um golpe. Não com os birros da chuteira nem sequer com os punhos, cujas mãos surpreendentemente permaneceram abertas, exibindo uma flagrante descontração corpórea.
Zidane, posteriormente, pede perdão às crianças do mundo todo que teriam visto aquela cena. Aos adultos não pede desculpas. Estes têm o dever de refletir, decifrar o ocorrido e aprender a lição, mas aqueles não têm ainda condições para discernir e compreender a bela atitude do craque gigante. Todavia, diz serena, mas firmemente, que não se arrependeu. Admite, pelo menos na tradução dos jornalistas, que perdeu a cabeça… Mas, Zidane não perdeu a cabeça. Zidane estava de posse de seu controle zen, estava de posse de sua vontade. A marrada foi consciente, firme, procedente, justa e, posso dizer porque vi, serena, suave. U’a marrada de verdade: bateu, caiu! Sem escamoteação piegas, sem selvageria vingativa.
Alguém tinha de calar aquele sujeito, o outro, e não seria Deus, que parecia estar lá na dele, em seu celestial camarote, saboreando a partida, isento e insondável. Não seria a Natureza, que não tem o mínimo senso de justiça, mesmo porque não tem senso algum. Não seria a opinião pública, os torcedores, a sociedade, que com todas as suas leis e normas, está imersa num mar de mentiras e hipocrisia, vivendo, perversa polimorfa que é, a sua primeira infância, engatinhando ainda, se é que a humanidade ainda terá tempo e condições para desenvolver-se, para amadurecer e um dia tornar-se civilizada de fato… Aqui e acolá alguém sempre volta a desabafar, com estas ou com outras palavras, que acabam significando sempre a mesma coisa: este mundo é dos espertos!… O que pode ser muito bem traduzido por: este mundo é dos perversos, dos psicopatas, dos sociopatas. Ou, dito de outro modo, o mal está aí, à disposição; basta estender a mão, pegá-lo e usá-lo, enquanto que o bem está à mercê do esforço e só do esforço. A expressão é dicotômica, mas não necessariamente maniqueísta. Entendo que o bem e o mal são imiscuídos, mas o que quero dizer é que não é preciso empenho para se ser mau. Para se ser bom, sim. Embora naturalmente não tenhamos o discernimento necessário, nem a coragem para fazer a escolha. Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero, escreveu Paulo de Tarso, em um dos quiçá poucos momentos de lucidez.
Aprendi a lição. Posso e devo reagir com firmeza, mas com suavidade, como reagiu Zidane. Para minha grande surpresa, do futebol, de onde nunca esperei que nada que prestasse poderia sair, é que me vem esta lição tão grata. A atitude magistral de Zidane bateu em minha porta, ressoou em minh’alma. Abri e estou fazendo dela meu aprendizado: posso e devo também reagir com firmeza, porém serenamente.
Tenho tentado por muitos anos reagir com serenidade, mas sempre que pensei estar fazendo, estava era perdendo a firmeza e a dignidade. A fórmula era cristã, não a ensinada pelo moreno, que também deu marradas, designadas hipocritamente de ira santa, mas pelos seus seguidores farisaicos. Dar a outra face correspondia a submeter-se… Mentira! Pura mentira! A passividade preconizada pelos hipócritas e aproveitadores, pelos discursos dos espertos, dos exploradores e dos psicopatas da política e da religião, é o mesmo argumento utilizado pelos poderosos do futebol e, enfim, pelos torcedores, pela imprensa e por seja lá quem for, acríticos, crédulos, ingênuos ou simplesmente com preguiça de pensar, de refletir.
Não é preciso, e esta é a grande lição, ser arrogante, truculento, violento, sanguinário, raivoso. Não é preciso torturar, humilhar, massacrar, mutilar, matar, para ser serena e suavemente enérgico. Basta u’a marrada. Basta usar a cabeça. Figurativa ou mesmo que seja literalmente, mas como Zidane usou. Basta usar a cabeça. Assim não é preciso usar as mãos nem os pés, nem as palavras, nem a calúnia, nem a humilhação…
Apenas um golpe seguro, claro, transparente e, sobretudo, honesto, como é uma crítica. Foi esta a lição que, com sutil pedagogia, Zidane deu ao mundo. Pena que talvez só uns poucos possam absorvê-la!…
jorge rocha
Tibidabo
13.jul.2006
DEDICADO A LUCAS QUE, DEPOIS DE AMANHÃ, COMPLETA SEU XVI° ANO DE VIDA.
Data do artigo: Domingo, 16 dAmerica/New_York Jul dAmerica/New_York 2006 às 7:00 pm | Categoria : Filosofia do cotidiano | Deixe um comentário
5 comentários para o artigo “Zidane, uma lição”
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Agosto 5th, 2006 at 7:27 am
Perfeito.
Torci para a França naquele jogo.
Abração!
Agosto 5th, 2006 at 11:00 am
Depois que vi a cena do Zidane, fiquei com medo de mim, de meu gênio explosivo, impetuoso e até violento. Diferente de Jorge, ou melhor, mais agressiva que ele, eu não só agrido com palavras, como tenho vontade de encher a pessoa de porrada. Claro que nunca fiz isto e aí abrem os herpes, as gastrites e aí por diante. Parece ser coisa de família,pois eu também não suporto desaforos e não me calo diante deles Entretanto o pior volta pra mim, que é a culpa insuportável que tenho que carregar depois. Mil promessas me faço, mas não cumpro nunca. Será que vou aprender a lição do Zidane?
Beijos para todos.
reca
culpa p
Agosto 11th, 2006 at 3:43 pm
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O que Zidane me deixa de lição é isso: o seu estupendo futebol!
Abraço!
Agosto 16th, 2006 at 9:48 am
Engraçado, ao assistir o jogo eu me lembro que a primeira coisa que pensei ao ver a cena: - que bom finalmente alguem que nao aceita as regras do “jogo”… muitos se aproveitam e se escudam diante da proteçao das “normas” acuando os outros que teoricamente estariam impedidos de responder com medo de infrigir as normas e sofrer as penalidades…. de uma forma magistral Zidane rompeu isto
Janeiro 10th, 2012 at 1:45 am
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