Dom 6 Ago 2006
Reflexões acerca do “que fazer”
Categoria: Filosofia do cotidiano | Por Jorge RochaOlho uma categoria à qual pertenço: a dos médicos.
As reflexões que faço a partir desta mirada extrapolam para outras profissões.
Permeiam a ocupação, o que-fazer humano.
E todos os papéis sociais que desempenhamos.
Vejo técnicos, artesãos e artistas.
Vejo sacerdotes, espertos, doutores e peões.
E os híbridos, sem dúvida.
I- DAQUELE QUE FAZ E SUA RELAÇÃO COM OS OUTROS
OS SACERDOTES
Uma pequena fração de abnegados e idealistas.
Os que sonham [ainda] com a sua tarefa de salvar o mundo:
sedare dolorem opus divinum est
(sedar a dor é obra divina).
No seu afã missionário,
deixam suas famílias ao Deus dará.
Aqui e ali os seus filhos tratarão de desfazer, caprichosamente,
o que despojadamente seus pais acreditaram construir:
o mito do bom samaritano.
São médicos-sacerdotes, que vivem pobres,
morrem na miséria e
plantam nos corações de seus filhos
uma semente de indignação velada, de mágoa surda.
Vivem pobres e morrem na miséria.
Mas felizes e certamente convictos de que
[se outra chance tivessem]
seriam médicos de novo.
OS ESPERTOS
Outra fração irradia sucesso, com sua aparência
a um tempo
garbosa e asséptica: é a máfia de branco.
Afinados ao Sistema e seus legítimos rebentos, sabem
[com maestria]
apoderar-se da contraprestação dos serviços
que outros prestaram.
São empresários, são estrelas e
sobretudo
têm muita esperteza.
Isto é, são oportunistas e inescrupulosos.
Enriquecem sempre.
E seus filhos serão médicos.
OS DOUTORES
O terceiro recorte é numericamente insignificante.
Alguns deles tornam-se insignes, notáveis, importantes. Os medalhões.
São sempre privilegiados
ou pela herança ou pela abastança da família,
geralmente tradicional,
ou por uma oportunidade muito incomum.
Ganham bem, não pelo que fazem,
mas pelo que significam.
São os PhD da vida e fazem carreira na Universidade,
despreocupadamente,
porque a luta pela sobrevivência
não chega a importuná-los.
Têm o privilégio de tê-la garantida.
OS PEÕES
Finalmente, o último segmento, o maior de todos,
o grosso da população médica.
É a fração dos ingênuos, dos que crêem
[e muitos ainda crêem]
que seja a medicina uma profissão
como uma outra qualquer,
onde a técnica, o artesanato ou talvez a arte
pode ser exercida e recompensada;
os serviços,
prestados e contraprestados com justiça e dignidade.
São estes porém os que vivem sobre um carro
[u’a máquina dentro da outra]
correndo louca e descabeladamente
de um local para outro,
para cumprir a missão impossível
de responder a três, quatro subempregos
e poder comprar um carro usado.
Os que sonham esperançosos com um prêmio na loteria
e crédulos com um milagre que nunca chega,
enquanto assistem impotentes e sobressaltados
às avalanches de denúncias, notícias e novelas
sobre erro médico e punição.
É uma espécie de bode expiatório, angustiado e candidato forte a um breve infarto,
a quem se aplica, como uma luva,
a expressão farisaica:
médico, cura-te a ti mesmo!.
São os peões da medicina, com uma relação inevitavelmente ambivalente
para com aqueles a quem pretendem curar,
prestando seus serviços quase sempre apressados, superficiais
e sobretudo carregados de frustração.
II- DAQUELE QUE FAZ E SUA RELAÇÃO CONSIGO MESMO
O TÉCNICO
Um técnico é um executivo.
Êle faz o que lhe ensinaram.
Pode fazer obstinadamente, compulsivamente
e será um bom técnico.
Não sai da rotina. A rotina lhe é vital.
Caminha [e o faz bem, até de olhos vendados] por caminhos já percorridos.
É ótimo aluno.É um bom instrutor. Mas não um mestre.
Um computador, um robot pode substituir perfeitamente um técnico.
E isto não o desmerece: o que um robot faz é algo invejável.
Pode ter muito conhecimento
[e este quase sempre é bastante específico]
mas é pouco criativo.Ou nada criativo.
O ARTESÃO
Um artesão é um técnico cuidadoso, pessoal, esmerado. É um virtuose.
Pode ser um perfeccionista,
mas é sobretudo um técnico.
Ele segue leis, normas, reproduz o que aprendeu, esmera-se em aperfeiçoar,
mas sempre dentro dos padrões definidos a priori.
Pode ser criativo, adequando sua técnica,
seu aprendizado,
às necessidades circunstanciais.
Um artesão é um pontífice entre a técnica e a arte.
O ARTISTA
Um artista é solto, flexível.
Pode usar [e usa] a técnica a serviço da sua arte.
Mas pode prescindir totalmente dela.
Em geral é um mau aluno,
às vezes exasperante para quem lhe tenta ensinar,
mas pode ser um grande mestre.
Freqüentemente é incompreendido em seu tempo
e em seu lugar.
É um desalinhado.
Nele comanda a criatividade,
acima do conhecimento, das normas, das regras.
Sua arte brota da sua espontaneidade.
Ele pode lapidá-la com a razão, como faz o artesão.
Pode
[e isto faz crescer sua criatividade e sua arte]
adotar o método, mas nunca a rotina.
Um artista é um insatisfeito, um buscador,
uma interrogação.
É um mutante.
Às vezes, um profeta.
Freqüentemente um louco.
Pode ser um empedernido individualista,
como pode ser um militante político,
defendendo causas sociais.
O artista tem em sua arte o sentido e a possibilidade do seu viver.
Ars gratia artis.
*****
O técnico se realiza na utilidade de sua obra.
É um finalista. Um pragmático.
O artesão, na apreciação dela. É um romântico.
O artista, no seu obrar. Não é a obra que lhe importa.
É o obrar.
set.91
Data do artigo: Domingo, 6 dAmerica/New_York Ago dAmerica/New_York 2006 às 7:11 pm | Categoria : Filosofia do cotidiano | Deixe um comentário
1 comentário para o artigo “Reflexões acerca do “que fazer””
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Agosto 9th, 2006 at 5:11 pm
Está espetacular! Adorei a discriminação entre homem e homem no mundo.
Congratulações, belíssimo!