Dom 20 Ago 2006
canção para os desajustados
Categoria: Poesia | Por Jorge Rochaoh! meu fiel sancho pança,
companheiro de andança!
este errante cavaleiro sou eu,
que contigo os papéis inverteu
pois és tu o intrépido quixote,
que, de fato, viraste escudeiro
e eu, que me tornei cavaleiro,
este cavaleiro
sou mesmo é sancho pança
obeso, pançudo e velho,
tão desajeitado quanto foste,
no épico de cervantes,
em nossos dias de glória,
suposta glória,
na delirante e arrojada saga,
pelas planícies e desertos, itinerantes,
dos trigais da espanha,
salgada ibéria,
no silêncio e nas trevas medievais…
lá,
de castelo em castelo,
tão suntuosos quão belos,
nos quais jamais penetramos,
seguimos nosso destino,
que nós mesmos tracejamos,
a enfrentar os moinhos,
os ventos e as tempestades…
onde estavas, rocinante,
quando ,muito, muito antes,
noss’alma pairava então
sobre o patético cenário
e a voz do visionário
que pregava no deserto
à margem do rio jordão?
ali era a nossa voz,
também era nossa a voz,
quando a voz do velho louco
e desajustado joão,
não conseguia penetrar
as almas,
os castelos interiores,
os corações…
e clamava no deserto,
voz que clama no deserto,
como dizia de si mesmo.
e tu, então, thomas morus,
que pariste a utopia,
ao sonhar sonhos tão nobres?
em socorro, por ventura,
vieram, de ti, os pobres,
ou os ricos, desvalidos,
os cristãos, os abastados,
os fiéis ou infiéis
seja ao papa, seja ao rei?
e tu, sócrates, que a cicuta
acolheste no regaço,
entornaste a amara taça
e a fizeste tão doce,
tão doce tu a tornaste,
ao fazeres tua escolha
[crisis, na tua língua mãe]
de não vender tua alma!
assim também, ó moreno,
que, abraçando tua morte,
escolheste [crise] a sorte,
infelizmente u’a má sorte
da tortura que envilece,
pois terias, ao que parece,
escolhido só o morrer,
já que o morrer é sublime,
certo que a morte redime
o que nos faz padecer.
há bem pouco, tu, fernandes,
o professor florestan,
que recusaste a benesse
do ex-aluno famoso,
um poderoso estadista,
pra prolongar tua vida
e pra sedar tua dor,
na requintada inglaterra,
às custas, é bem verdade,
do famélico e gentil
trabalhador brasileiro.
só que o erário é gerido por eles,
que não o povo!
enfim, vós todos, exclusos,
tantos heróis obscuros
que morais fora dos muros
dos privilégios azuis
e passais despercebidos,
dos tratados da história,
cônscios de que a vossa glória
é não vos terdes vendido…
nós, os desajustados,
orgulhosamente ufanamos:
não vendemos mesmo
nossas almas ao diabo!
Data do artigo: Domingo, 20 dAmerica/New_York Ago dAmerica/New_York 2006 às 8:42 am | Categoria : Poesia | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.