Seg 28 Ago 2006
AMÉLIA, EMÍLIA E O DISCURSO MACHISTA
Categoria: Prosa | Por Jorge Rocha
Amélia tem sido uma espécie de alvo das feministas, uma espécie de chacota, o símbolo do ridículo, da submissão da mulher ao homem. Ridículo porque tida como prazerosa e grata. Isto, no discurso feminista. Entretanto, uma leitura mais cuidadosa da composição de Ataulfo Alves e Mário Lago pode levar a uma compreensão bem diferente da usual. Vejamos:
“Nunca vi fazer tanta exigência,
nem fazer o que você me faz.
Você não sabe o que é consciência,
Não vê que eu sou um pobre rapaz?
Você só pensa em luxo e riqueza
e tudo o que você vê você quer.
Ai, meu Deus, que saudade da Amélia,
Amélia sim é que era mulher:
Às vezes passava fome ao meu lado
e achava bonito não ter o que comer.
E quando me via contrariado
dizia: ‘meu filho, o que se há de fazer?’
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era a mulher de verdade”.
O companheiro de Amélia cobra o que dela? Submissão? Trabalho? O companheiro de Amélia a explora? Alega que lhe davia o sustento, e que em troca ela se submetia? Não. Ele lembra dela com saudade menos por sua submissão e mais por sua solidariedade, seu companheirismo. Ele não fala de seus atributos como boneca de cama, como empregada de copa e cozinha, como governanta. Ele fala dela como companheira. A composição foi feita em uma época cuja realidade da família era a de o homem trabalhar fora de casa e dividir o ganho com a mulher. Uma relação de dependência, de fato, mas possível de ser transformada em uma relação solidária e amorosa. Em troca, digamos, da divisão de seu ganho, o que o companheiro de Amélia quer é sua solidariedade. Relação de dependência seria exatamente o contrário. Que em troca do pagamento, Amélia lhe prestasse os seus serviços, como governanta, amante ou o que fosse. Uma outra composição subseqüente, “Emília”, é tipicamente machista e não se pode em qualquer hipótese colocar na mesma perspectiva que “Amélia”:
“Eu quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar.
E de manhã cedo me acorde na hora de ir trabalhar.
Só existe uma e sem ela eu não vivo em paz:
Emília, Emília, Emília, eu não posso mais.
Ninguém sabe, igual a ela, preparar o meu café.
Não desfazendo das outras, Emília é mulher.
Papai do céu é quem sabe da falta que ela me faz,
Emília, Emília, Emília, eu não posso mais…”
Aqui há uma cobrança dos serviços de governanta, com todos os elogios a esta função. Um discurso machista, sim, pois enquanto ele paga (seja lá com o que for), ela cuida dele. Não é uma relação de companheirismo, mas uma relação serviçal.
Agora me ocorre uma outra modinha antiga, Malandrinha, também de discurso machista, porém evocando a figura da mulher, de outro ângulo: Após uma descrição da noite enluarada e do romantismo da serenata, o menestrel apela:
“Oh! linda imagem de mulher que me seduz,
se eu pudesse, tu estarias num altar!
És a rainha! Dos meus sonhos és a luz!
És malandrinha! Não precisas trabalhar!…”
Amor? Lembra o primeiro homem da ciranda “Terezinha”. Vejamos a versão de Chico Buarque:
“O primeiro me chegou, como quem vem do florista:
Trouxe um bicho de pelúcia, trouxe um broche de ametista.
Me contou sua viagens e as vantagens que ele tinha,
me mostrou o seu relógio e me chamava de rainha.
…
Mas não me negava nada e assustada eu disse ‘não’”.
O amor me parece o rompimento da dependência (dependência é uma relação de opressão/submissão, ora num sentido, ora noutro). O amor, uma prática ativa, um ato de vontade, uma escolha, implica a autonomia, implica o ser dono de si. Não há quem mantenha um prisioneiro sem que também a ele esteja cativo. Como um cão que temos preso pela corrente. No lado do cão, a coleira o mantém dependente. Do lado do dono, sua mão segurando a corrente o mantém dependente, prisioneiro. Por contraditório que pareça, a libertação passa pelo reconhecimento da interdependência. Uns precisamos dos outros. E a autonomia passa seguramente pela quebra da onipotência. Sente-se onipotente aquele que orgulhosamente não aceita a interdependência madura. A interdependência madura é o que ocorre na relação de Amélia com o seu companheiro (considerando todas as limitações e condicionamentos da sociedade em que viverem, em que a canção foi composta, digamos).
No homem, naturalmente interdependente, qualquer sentimento de onipotência levará fatalmente ao de impotência. Nada posso porque quero poder tudo. Admitir que não pode tudo é um passo fundamental para poder o possível. Só ama quem pode amar. É belo e sábio o poema de René Daumal:
“Estoy muerto porque no tengo deseos,
no tengo deseos porque creo poseer,
creo poseer porque no intento dar.
Quando se intenta dar,
se vé que no se tiene nada.
Al ver que no se tiene nada,
uno intenta darse a si mismo.
Al intentar darse a si mismo,
uno vé que no es nada.
Al ver que no se es nada,
se quisiera llegar a ser.
Deseando llegar a ser,
se vive”.
Data do artigo: Segunda-feira, 28 dAmerica/New_York Ago dAmerica/New_York 2006 às 6:12 pm | Categoria : Prosa | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.