Havia um velho camponês, que tinha um filho jovem, com quem morava e trabalhava no campo.

O velho possuía um belo cavalo de raça que causava inveja a todos, pobres e ricos, mas jamais quis vendê-lo, pois simplesmente aceitava e apreciava o animal. Que sorte a sua, ter um cavalo desses que causa inveja a todos! Poderia vendê-lo por um bom preço! Diziam os vizinhos e amigos. E o velho respondia: Por que? É um bom animal, eu e meu filho temos grande estima por ele. Há nisto sorte ou azar?

 Um dia, o cavalo desapareceu e ninguém conseguia encontrá-lo, por mais que se esforçassem os vizinhos e amigos em ajudar o velho e seu filho a procurá-lo. O garanhão fugira. E todos: Viu aí, velho? Se tivesse vendido o cavalo, não o teria perdido. Que azar, hein? E o velho: Azar ou sorte? Quem sabe? O cavalo se foi. Só isto! Uns dias depois, eis que aparece o cavalo na terra do velho, trazendo alguns outros consigo. Eram éguas e cavalos bravios, mas todos raçados e belos, tão belos quanto o garanhão. E logo os amigos e vizinhos vinham ver e se admirar. E diziam: Que sorte a do velho! Agora tem u’a manada de cavalos de raça de fazer inveja a todos. Deve estar muito feliz por isso! A que o velho respondia, sereno: Sorte ou azar? Azar ou sorte? Tinha um cavalo que sumiu. Agora trouxe outros com ele. Apenas isto. Meu filho vai domá-los. É só…

 Ao domar os cavalos, o rapaz, cansado e afoito, acabou caindo e fraturando a perna, pelo que teve que ficar em repouso. Lá vinham de novo todos a dizer: Vejam que azar! O filho que o ajuda caiu e quebrou a perna. Mas que velho azarado! E sempre de sua singeleza, o velho respondia: Azar? Azar ou sorte? Quem pode saber? Aconteceu que naqueles dias o reino entrou em guerra com o país vizinho e o rei mandou convocar todos os jovens para o serviço militar obrigatório, no front. Lá se foram todos os jovens da vizinhança, porém o filho do velho foi dispensado justamente porque tinha a perna fraturada. Logo acorreram os outros camponeses e diziam ao velho: Mas como você tem sorte, velho! Seu filho foi o único da região que foi poupado de se alistar! E mais uma vez o velho tinha sempre a expressão da dúvida: Sorte ou azar? Quem sabe? E todos se admiravam de como uma pessoa pudesse ser tão incrédula e ao mesmo tempo tão serena como aquele velho…

 Ao terminar a guerra, antes mesmo que voltassem para casa, o rei condecorou muitos dos jovens que foram lutar em seu exército. Que azar do velho, hein? O filho dele, forte e corajoso como é, bem que poderia estar também recebendo a condecoração! Impassível, a resposta era a mesma: Azar ou sorte? Quem saberá se é azar ou sorte, sorte ou azar?

 Ainda assim, os vizinhos murmuravam, até que os soldados voltaram para casa, quando então muitas das famílias ficaram sabendo que seus jovens filhos haviam morrido em campo de batalha. Pranteados, diziam, então: É verdade! O filho do velho não foi pra guerra por ter a perna quebrada e agora está vivo, forte e saudável e lhe faz companhia em sua labuta.. Que velho mais feliz! Que sorte que tem!…

 E assim a vida continuava misteriosamente nos campos, nos vales, nas montanhas. O sol nascendo, o sol se pondo… Nada de novo debaixo do sol… Está escrito no Livro do Coélet. Mas cada um queria sua resposta, sua certeza, sua conclusão. O velho, porém, com sua sabedoria, sempre, sempre pensava e respondia para os outros e para si mesmo: Sorte ou azar? Azar ou sorte? Quem sabe?..