A chegada da Primavera é um bom dia para refletir sobre direito, merecimento, graça e privilégio. Nunca me tinha debruçado sobre isto, mas em meu solipsismo eles me têm estado perturbando faz tempo. Por que me irritavam tanto os privilégios? Como nunca tinha refletido sobre o tema, não conseguia clareza suficiente para discernir.

Quando voltei de Toronto, encontrei uma Veja na casa de meu irmão Enock, em cujas páginas amarelas li a entrevista de Robert Redford à repórter Isabela Boscov. Última pergunta:

Veja – Certa vez um repórter perguntou por que o senhor tinha tanto senso de responsabilidade, e o senhor respondeu: culpa. Culpa pelo quê?
Redford – Culpa é a herança de qualquer família irlandesa católica, acho eu. Prefiro não analisar muito essa resposta porque não sei se, a esta altura da minha vida, esse tipo de auto-análise seria uma boa idéia. Mas acredito em fazer por merecer os privilégios que se tenha recebido.

A entrevista foi publicada com o título Privilégio se conquista

O título da entrevista é uma flagrante deturpação da fala do ator. Este diz literalmente acreditar que se deve fazer por merecer os privilégios, frisando ainda que  privilégio é algo que se recebe e não que se conquiste. Esta ligação entre responsabilidade, culpa e privilégio feita pelo binômio jornalista-ator foi o que me chamou a atenção e me provocou e me fez refletir.

Em primeiro lugar, é sobejamente sabido que a responsabilidade faz parte de um complexo mecanismo que inclui a culpa em sua engrenagem. O senso de responsabilidade não nasce com o indivíduo, mas é apreendido concomitantemente à formação do superego, onde o sentimento de culpa está sempre presente. Responsabilidade é uma condição que implica em dever dar resposta ou, melhor dizendo, responsar a um fato. O exagero do senso de responsabilidade é um forte indício de culpa, de superego poderoso. Em segundo lugar, a relação entre ter privilégios e sentir-se culpado pode ser patente em algumas pessoas, mas não em sua maioria. Isto porque, para dar-se conta de que privilégio é algo injusto, discriminatório, que só existe em detrimento da maioria, é preciso refletir. E refletir custa. Temos todos nós uma tendência natural de jogar para debaixo do tapete, isto é, recalcar, tudo o que pode constituir-se em conflito intra-psíquico. É suposto que o recalque gera a neurose, entendida aqui como doença, como manifestação de sintomas. A reflexão assistida pode levar ao auto-conhecimento e portanto à detecção de tais conflitos sob o tapete, de modo análogo à varredura que um programa anti-vírus faz no computador. Supõe-se que a detecção de tais vírus, conflitos inconscientes, levaria à cura da neurose. Ledo engano. Primeiro, a simples detecção dos vírus por si só não leva à cura. É preciso deletá-los e o mesmo ocorre com os conflitos inconscientes tornados conscientes: é preciso elaborá-los, isto significa digeri-los e exonerá-los. Segundo, a neurose sensu stricto, aqui referida como uma doença, como manifestação de sintomas, pode ser debelada, sim, mas a neurose sensu lato não é uma doença, senão uma condição inerente do humano, por conta de sua racionalidade, sua gregabilidade, sua cultura e portanto não pode ser curada. É como a adolescência. O que não tem remédio remediado está.

Em pessoas ditas normais, o superego impõe o senso de responsabilidade via culpa e isto é imprescindível para a convivência social. Se assim não fosse, seria inevitável o retorno à barbárie, aos imperativos instintivos, à irracionalidade. O entendimento claro do caráter do privilégio como algo injusto e discriminatório só vem com a maturidade e com a suplantação do narcisismo. Neste caso, tem-se o que se chama sentimento de culpa. Enquanto isto não ocorre, o narcisista reconhece a si mesmo como merecedor do privilégio e por esta razão não sente culpa de usufruí-lo. Sua culpa de fato permanece em nível inconsciente e pode manifestar-se como sintoma, quando se dá o nome de complexo de culpa. A fala de Redford nos induz a supor que seja um homem maduro, reflexivo, que discerne claramente a respeito do caráter do privilégio. Suponho que por isto ele declare, apropriadamente que acredita em fazer por merecer os privilégios que se tenha recebido, já que, não podendo declinar dos privilégios que tem recebido [e não que tem conquistado], é fazendo por merecê-los que virá a redimir sua consciência e devolver-se a paz interior.

Então, além dos conceitos de complexo de culpa, sentimento de culpa e responsabilidade, passo a visitar os conceitos de direito, merecimento, privilégio, e graça, termos que suponho denotativos, aparentados. Entendo por direito aquilo que socialmente se atribui a alguém, a partir assim do reconhecimento dos outros. O direito pode ser natural ou adquirido, mas sempre implica na atribuição e reconhecimento sociais. Por merecimento, aquilo que, incontestavelmente, possa e deva caber a alguém, como fruto do seu trabalho, entendido aqui como qualquer esforço e não apenas como atividade produtiva. Por exemplo, merece credibilidade aquele que se esforça por cumprir seus contratos. Merece confiança aquele que, por esforço próprio, não mente, não logra. Merece a posse de seu produto aquele que o produziu. Ou o pagamento por ele, quando tal produto é apoderado por outrem [que deve então pagar por ele]. Já o privilégio, este não pode ser conquistado ou merecido por ninguém, porque nada lhe custa; recebe-o gratuitamente e sempre em detrimento dos outros. É sempre injusto e execrável. Finalmente, a graça. A graça é um dom, algo que se recebe sem direito, sem merecimento, sem privilégio. Abusando do pleonasmo, a graça é gratuita e portanto nada custa, absolutamente gratuita. Não é um direito, não é um merecimento, não é um privilégio. É um talento, é um presente, às vezes certo por linhas tortas, às vezes como o cavalo de Tróia, presente de grego. O neurótico sensu stricto sente culpa por tê-la recebido. A pessoa amadurecida reconhece-a e pode fazer de tudo para merecê-la, mas nunca terá feito o suficiente, porque a graça é impagável. É absolutamente gratuita. Gratuita e misteriosa, não como o privilégio que reflete relações de poder, nem como o direito, que reflete a interação humana, nem como o merecimento, que depende do próprio empenho, esforço e trabalho. A bem da dignidade, o direito é para ser correspondido pelo dever; o merecimento, usufruído com galhardia; o privilégio, para ser recusado e combatido; e a graça, para ser admirada e reconhecida com humildade.