O mundo certamente existe como matéria e como mistério.

O chamado mundo real, o mundo exterior, mundo da concretude não passa de uma grande confusão, pois meus sentidos não são suficientes para captar a realidade. E se captam, meu cérebro não é suficiente para reconhecer e decodificar o que captam, ao menos na totalidade.

Imagino que com todos os humanos, em graus diferentes, aconteça o mesmo que acontece comigo. Assim, o que chamo de conhecimento não passa de uma fração ínfima do que ocorre e o que ocorre não é necessariamente só o que existe, pois estou entendendo por sujeito do existir apenas a matéria. Ocorrências como a vida, as idéias, os sentimentos, podem até ser matéria, como são as ondas, as vibrações, mas até hoje o humano parece não ter podido comprovar isto, a ponto de transmitir uns aos outros como conhecimento. São meras suposições, nada mais… Cremos ou não cremos. Se cremos, são dogmas; se não cremos, são hipóteses, são teorias, diferentemente do objeto do conhecimento, que pode ser observado, experimentado, provocado, produzido, reproduzido, transmitido. Talvez para mim, para meu gasto, deva pensar que o mundo não é o mundo: são os mundos. Isto não é minha crença, isto é minha hipótese. Assim:

1. Mundo concreto: O mundo concreto talvez deva ser considerado como o mundo que é objeto do conhecimento: isto que estou chamando de mundo exterior, mundo lá fora e que é captado pelos meus sentidos. É o mundo da concretude, que basta sentir para admitir, mas precisa passar pela percepção crítica além do sensório.
2. Mundo abstrato: O outro mundo, das suposições, das hipóteses, das teorias, já não será tão real assim, pois não pode necessariamente ser captado pelos meus sentidos, mas pode ser percebido pela minha razão. É o mundo abstrato, racional: preciso raciocinar e abstrair para admitir.
3. Mundo miraginal: Um terceiro é o  mundo miraginal, que se confunde com o da concretude, porque é sentido através dos órgãos do sensório, porém por meros estímulos sem objetos. São quiméricos, como o onirismo, a alucinação ou os truques de mágica. Puro sentido, com uma confirmação senso-perceptiva patológica ou absolutamente acrítica. Um mundo virtual.
4. Mundo sobrenatural: Este mundo é meramente uma crendice, fruto de uma imposição dogmática dos scripts que recebemos, dos nossos medos, anseios, desejos ou angústias, de que é um mundo do além morte, um mundo igualmente real, exterior, paralelo, existente, como existem deus e o espírito, acima e à parte da natureza.
5. Mundo exterior: Já o mundo exterior é o mundo da realidade, da existência, o mundo da matéria, o único mundo de fato, mas, suponho agnosticamente, que jamais será sentido, captado, percebido, reconhecido, compreendido ou imaginado in totum por quem quer que seja. Aquilo que a gente interpreta como mundo real é apenas parte dele, referido no primeiro item como o mundo concreto.
6. Mundo interior: Finalmente o mundo interior, solipsista, egotista, egocêntrico. É o mundo reflexivo, uma interação entre o eu e os demais mundos [concreto, abstrato, miraginal, sobrenatural e real]. Neste universo estão as idéias que fazemos das coisas, dos seres animados, do cosmos, os pensamentos, os sentimentos, as crenças, as ilusões, as representações, a partir do olhar central do self. É o mundo da filosofia. É o universo do espírito da pessoa. Nele convivem e interagem as imagens, a senso-percepção, as representações, as idéias, os mistérios e todas as abstrações. É estritamente pessoal, terra onde ninguém anda, exceto seu ego central e que certamente deu origem à antiga e sábia expressão popular: cada cabeça é um mundo.

O que nos alimenta o mundo exterior são os bens de consumo, o dinheiro, o trabalho para consegui-los, a ganância, a acumulação de riqueza e a libido. O desejo de ter e poder.
O mundo abstrato, a assunção da dúvida, a procura de respostas, a filosofia.
O mundo miraginal, o escapismo, a distração, a fuga da condição humana.
O mundo sobrenatural, o medo, a busca da certeza, a crença, a insustentável convivência com a dúvida.
O mundo interior, o enfrentamento da angústia existencial, a reflexão, a meditação, a busca da paz egotista, a procura da felicidade, da bem-aventurança. 

Deste modo, lidamos com pelo menos seis mundos, um dos quais é exclusivo de cada pessoa, como indica o próprio nome, o mundo interior. Isto significa que aqui na terra a humanidade lida mesmo é com alguns bilhões de mundos, tantos quantos forem seus habitantes, mais cinco…

O solipsismo é o mais completo de todos os mundos porque os engloba. Desde o mundo concreto até o miraginal, do mais terreno ao mais lunático, do mais palpável ao mais ilusório, todos estão compondo o mundo solipsista

Acho que Pasárgada é o universo interior. É só ler o poema, para ver. Vou tomar emprestado o nome a Manoel Bandeira. Meu mundo solipsista apelidarei de Pasárgada e o mundo real, exterior, de Babilônia. Em resumo, são os dois mundos que provavelmente Platão concebeu. Os outros mundos [concreto, abstrato, miraginal e sobrenatural] não são propriamente mundos, são partes dos mundos, são semi-mundos.
Certamente, um devaneio bobo e sem qualquer utilidade, exceto para mim mesmo, como alimento para meu solipsismo…