Sáb 14 Out 2006
Joga Pedra na Geni, bendita Geni
Categoria: Prosa | Por Jorge RochaNão me sai da cabeça a música Geni, de Chico Buarque. Logo me dou conta da semelhança de Geni com o filme Dogville, com apenas uma diferença fundamental nos finais: Na poesia de Chico Buarque, Geni acaba abandonada à própria sorte, pelo emblemático homem poderoso do zepelim prateado, e, em sua aparente e absoluta impotência, volta à servidão, a ser seviciada por com toda a cidade, hipócrita, cruel e indigna. Em Dogville, Grace tem o completo apoio de um enigmático e poderoso gângster e, com sua cumplicidade, extermina toda a cidade também hipócrita, cruel e indigna. Ambas as estórias me remetem ao espírito judeu-cristão. No Antigo Testamento, o ser onipotente extermina todo o mundo anímico, através de um dilúvio universal, complacente apenas com Noé e os seus. Extermina Sodoma e Gomorra, com uma chuva de fogo, complacente também com Lot e os seus. Em Dogville, a complacência é tão somente com um cão que, de resto, vive acorrentado à porta da cidade.
Tudo isto me reporta às raízes do cristianismo, na figura de Jesus que, misterioso e emblemático, virtualmente todo-poderoso por ser o filho de deus, entrega-se total e espontaneamente não só à morte, mas à infâmia, às humilhações e torturas, justamente para redimir uma humanidade que o vilipendiara, humilhara, torturara e matara. À beira da morte, suspira dizendo: Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem. Nisto há de fato um escândalo, um mistério, um absurdo, que pode ser lido como um convite à transcendência, o que provavelmente alimentou os místicos. Por outro lado, pode ser lido como uma expressão de suprema arrogância. Tocam-se os dois extremos.
Agora, volto ao cinema, relembro o Festim Diabólico, de Hitchcock e encontro ali a magistral indagação acerca do mesmo tema, isto é, do bem e do mal, culminando com uma contradição irresoluta: a questão da dicotomia entre o bem e o mal, tão buscada e crida. De um lado, um professor que é livre em seu pensar, mas cuja maturidade e senso ético fazem com que não atue; de outro, dois jovens estudantes, escravos do seu pensamento concreto, cuja imaturidade e falta do senso ético acabam por lhes permitir que passem ao ato. Essa dicotomia, tão flagrantemente falsa e, portanto, igualmente hipócrita, cruel e indigna, é a que pretende a cidade onde vive Geni. Em Dogville, que alegoricamente é nada menos que o universo humano, o escamoteio da dicotomia é corajosamente desmascarado no final insólito, onde vence o poder, nem bem nem mal. O autor de Geni conclui com o abandono da protagonista à própria sorte, deixando bem claro que o bem e o mal estão em função do poder que os define. Há algo de novo na antiguidade dos tempos pré-diluvianos, em Sodoma e Gomorra, na Grécia de Sócrates, nos tempos de Jesus, nos tempos atuais e, finalmente, em todos os tempos?
Data do artigo: Sábado, 14 dAmerica/New_York Out dAmerica/New_York 2006 às 10:13 am | Categoria : Prosa | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.