Qui 19 Out 2006
doce amiga
Categoria: Poesia | Por Jorge Rocha
morro, porque os segundos passam,
passam os minutos, as horas, os dias,
e passam as semanas, os meses, os anos.
as décadas se vão
e, fluindo, a vida se esvai.
a cada termo, uma perda;
a cada perda, u’a morte
e, após morrer, ressurgir.
a aventura da morte
me faz dela confidente
e grato amigo.
esta dona de mil faces,
de íntima cumplicidade,
é-me tão familiar
que me faz bem-aventurado.
minha estreita convivência
com essa bela senhora
dissipou-me todo o medo
que o mundo me imprimiu:
benditos sejam os morreres
que fazem ressuscitar!
assim, ao morrer pela derradeira vez,
terei cumprido a vida enfim.
então, ao findar cada década,
ao terminar cada ano,
a cada mês que se vai,
ao esvair-se a semana,
quando dia após dia,
de hora em hora
os minutos passarem,
dançando louca, graciosa
ou serenamente,
mesmo que implacáveis,
restará o segundo,
um segundo,
cada segundo,
o último e único segundo.
é este o momento de viver.
de mãos dadas, viver,
afetuosamente,
com a leal companheira,
de todas a mais fiel,
a mais doce, a mais paciente,
tolerante, impassível.
a melhor das enfermeiras,
das amantes a mais terna
e duradoira.
e em seus braços adormecer enfim,
por toda a eternidade.
Data do artigo: Quinta-feira, 19 dAmerica/New_York Out dAmerica/New_York 2006 às 5:41 pm | Categoria : Poesia | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.