Se, no teu aniversário, pensas no tempo, não deves dizer fiz tantos anos, pois só sabes mesmo é que acabas de gastar o último daqueles tantos anos e não podes saber quanto tempo ainda tens.

A cada aniversário, não ganhas mais um ano, mas te podes dar conta de que,
pelo contrário,
mais um se foi.

Olha o relógio em tua frente e vê o mostrador brilhante,
com os dois ponteiros desgarrados do eixo.
Bem que podes imaginá-los como que soltos no espaço, numa dança louca, randômica.

Em vão esperas que te falem do futuro.
Nem falam do futuro nem falam mais do passado os desarticulados ponteiros.

Se o tempo que passou é mensurável, datável, definitivo,
o porvir é aleatório, fortuito, casual.

E assim o tempo passa. E o que fica não é senão o que se viveu nele.

Mas, se tiveres teu olhar repleto de esperança e não de espera,
em vez de anelados estarão serenos os teus olhos
e o que virá, se vier, será sempre surpreendente e misterioso.

Se teu coração palpitar cheio das possibilidades da dúvida
e não dos fechamentos da convicção,
o porvir será sempre um convite à vida, a renasceres, a renovar-te,

Com os ponteiros à deriva, não terás leme, quadrante nem astrolábio
e, com tua bússola desimantada,
poderás aproveitar a chance de olhar o sorrir das estrelas
e não precisarás traçar mapas nem trajetórias,
pois o que te guiará não será sua posição, mas seu sorriso.

E, supondo que só a morte é certeza,
voarás leve e livremente,
ciente de que “viver não é preciso”,

Pois preciso é o relógio, com seus ponteiros articulados,
a marcar implacavelmente o tempo que passa.
E o que passa passou.

Longe de ser preciso é o mesmo relógio, com seus ponteiros à deriva,
anunciando que o tempo é inexorável,
mas que o porvir vaga por mares absolutamente incertos
e acerca do qual os portos nada podem assegurar.

Aproveita o aqui e agora.
O resto são quimeras.