Dom 29 Out 2006
CONTINÊNCIA, O NÃO AMOROSO
Categoria: Prosa | Por Jorge Rocha
[Algumas consideraçöes sobre os limites]
1. Conflito & crescimento – a crise
Os humanos vivem toda a sua vida submetidos a trações e pressões externas, mas sobretudo sujeitos a conflitos e contendas interiores. Essa condição última, específica dos humanos, provoca um inevitável estado de angústia, mas paradoxalmente lhes dá as oportunidades de crescer, de diferenciar-se, de realizar sua existência com a satisfação dos que arriscaram e por isso conseguiram trocar a ingenuidade pela experiência.
Se por um lado, no curso da vida, temos que deixar de ser infantis para nos tornarmos adultos, por outro lado, pagamos um preço significativo por deixarmos de ser crianças e passarmos a ser gente grande. Parece contraditório, mas o que de fato ocorre é que carregamos a criança que fomos pela vida afora. Tornar-se gente grande pode simplesmente significar o aprisionamento cruel dessa criança, o tolhimento da espontaneidade, da inocência que ela encerra e conseqüentemente a perda da capacidade criativa, a graça de viver. A criança traz em si codificados todos os atributos da espécie. Estudando a sexualidade, Freud concluiu que a criança é um ser perverso polimorfo. De fato, ao lado da ingenuidade convive a perversão. A criança é um ser completo, porém potencial, do ponto de vista psicológico e sobretudo social. Amadurecer não é, portanto, sufocar a criança e sim domar as tendências perversas, nutrindo porém a criatividade, a capacidade de admirar-se, o desejo de descobrir e sobretudo a vocação pela liberdade.
O tremendo preço que pagamos para nos tornar adultos é a perda da ingenuidade. Trocamos a experiência doída que vamos adquirindo pela ingenuidade feliz que trazemos. De certo modo repetimos implacavelmente a estória de Adão e Eva, no jardim do Éden.
Todos nós, conscientemente ou não, somos vítimas da nostalgia da infância, da saudade do colo e do seio da mamãe, do amor incondicional, da segurança. A idéia de um paraíso terrestre, perfeito, que combinava maravilhosamente liberdade com segurança, provavelmente nasceu de tal saudade. A palavra nostalgia significa literalmente dor pelo desejo ardente de retornar.
2. Liberdade & segurança – a escolha
Dos muitos conflitos e contendas interiores que travamos no percurso da existência, quero salientar a questão da liberdade e da segurança. Como os braços de uma gangorra, estando nas extremidades diferentes liberdade e segurança, quanto maior a primeira, menor será a outra e vice-versa. Um alerta de Juscelino Kubitscheck, gravado em uma parede externa na Praça dos Três Poderes, diz que o preço da liberdade é a eterna vigilância. Isto é, o preço da liberdade é a insegurança. Mutuamente, o preço da segurança é a perda da liberdade. Como boas crianças que somos, nem sempre nos damos conta de que temos que sacrificar parte da nossa liberdade, se quisermos estar seguros ou parte da nossa segurança, se quisermos estar livres.
Ora, somos animais gregários, procuramos estar próximos uns dos outros, teimamos em viver em sociedade, porque disto precisamos para estarmos seguros. Impossível viver em sociedade, sem que haja acordos mútuos, que de início são costumes, mas que evoluem para se transformarem em normas, em leis. As leis são praticamente deveres. Entretanto, o seu cumprimento é que vai possibilitar o gozo dos direitos comuns, previamente convencionados.
Pois bem, os costumes, as regras, as normas, as leis é que vão, em determinado lugar, em determinado tempo e para determinadas pessoas, fornecer a informação mais ou menos precisa, as coordenadas, digamos assim, de como se pode e se deve proceder, para que seja segura a convivência social. Embora a aspiração primeira e mais importante de cada um de nós seja a felicidade, em determinado lugar, repito, em determinado tempo e para determinadas pessoas, seu sacrifício é imposto em prol da segurança, principalmente a coletiva. Estou enfatizando o adjetivo determinado [determinado lugar, determinado tempo, determinadas pessoas], porque a vigência das convenções, das normas e das leis deve suceder aos costumes. Em outras palavras, a Ética antecede a Lei e sobre ela deve pairar. Mudando as circunstâncias, o lugar, o tempo e as pessoas, se são outros os costumes, as leis, conseqüentemente, deverão ser outras.
3. Lei & ética –a letra e o espírito
Neste ponto são necessárias algumas considerações sobre o regime político chamado democracia, tido como a melhor forma de governo para a boa convivência social, lembrando que na Grécia antiga, onde foi inventada, segundo nos ensinaram e ensinam ainda, só os patrícios do sexo masculino eram considerados cidadãos. Nem as mulheres, nem os escravos. Em outras palavras, gozavam dos privilégios da chamada democracia apenas os homens, que não trabalhavam, exatamente porque tinham quem trabalhasse para eles.
Na sociedade moderna, não escravagista, mas de classes, o regime democrático parece beneficiar a todos com o chamado sufrágio universal: todo cidadão tem o direito de votar e ser votado, diz a Constituição Brasileira. Esta lei maior, também chamada de Carta Magna, tem um vasto capítulo que versa dos direitos individuais e coletivos. Nomeando os direitos e os deveres dos brasileiros, a Carta Magna fornece os parâmetros gerais dos limites interpessoais, intergrupais e sociais a serem obedecidos dentro do território nacional. A questão, neste caso, é ver se o que está escrito ali corresponde mesmo ao costume. Se a Lei corresponde à Ética, se a letra corresponde ao espírito.
Na relação entre as pessoas, existem linhas divisórias, às vezes visíveis, perfeitamente nítidas, às vezes tênues, invisíveis até, que delimitam os espaços sensu lato de cada um, bem como de cada grupo e até de cada nação. Tais linhas são apropriadamente chamadas de limites. Ocorre que os mais importantes e legítimos limites não têm suas respectivas linhas visíveis nem mesmo tangíveis. Alguns têm linhas presumíveis e outros ainda ambíguas, quando não equivocadas. Perguntas cujas respostas em geral podem nortear a quem estiver interessado em perceber os próprios limites são por exemplo:
• Onde termina meu direito e começa o dele ou dela?
• Como eu me sentiria, se estivesse no lugar dele ou dela?
• Como eu me sentiria, se ele ou ela agisse como eu estou agindo ou querendo agir ?
4. Infância & cidadania – a noção dos limites
São comentários ligados à noção de limites, mas aplicados aos adultos. Crianças não têm noção de limites, nem mesmo daqueles limites francamente visíveis e tangíveis. Crianças pequenas são livres e egocêntricas. Por serem livres, são espontâneas e criativas. Todavia, por serem egocêntricas, são tirânicas e anti-sociais. Podem não ser aptas a fazer tudo o que querem mas julgam que o são. O aprendizado dos limites é uma aquisição social, uma conquista, fruto das relações com o outro. Aqui, o outro de especial importância é a mãe, é o pai, são os irmãos e, mais tarde, os parentes próximos, os amigos da família, os vizinhos, os colegas, os professores e assim por diante, na medida em que se expandem seus horizontes sociais.
Hoje cidadãos plenos pois já podem votar aos 14 anos, os adolescentes têm nos seus concidadãos, sejam quais forem, o outro a indicar-lhes as linhas que demarcam os limites interpessoais e intergrupais. Mais do que isto, da adolescência em diante, até à morte, o outro, da mesma espécie, sem distinção de sexo, crença, cor ou classe social, será sempre o indicador dos seus limites, dentro da coletividade. É através do outro que nos reconhecemos.
Por representarem papéis de especial importância frente às crianças, pais e mestres são os principais responsáveis pelo desenvolvimento crítico do futuro cidadão; em outras palavras, pela sua introjeção das noções de limites e alcances. Como o nome sugere muito bem, limite é o ponto da continência.
Continência, que deriva do verbo conter, foi adotado no meio militar, para designar o gesto pelo qual um soldado assegura simbolicamente ao seu superior a contenção dos seus ímpetos de desobediência ou insubordinação. Continência também foi adotado, na linguagem catequética, como sendo a firmeza em não ceder aos desejos da carne, aos desejos sexuais; e assim aparece nos dicionários como sinônimo de castidade.
Aqui, continência traduz o ato ou a ação de conter-se, frente aos impulsos, desejos ou aspirações que porventura, mesmo que naturais sejam ou pareçam, venham de encontro aos interesses coletivos ou aos direitos do outro.
5. O não amoroso
Sendo o limite, como já disse, o ponto da continência, sua linha demarcadora põe de um lado o permitido e do outro lado o não permitido. Como também já disse, a criança é livre e egocêntrica. A criança, porém, não sabe conjugar inocentemente tal binômio, mesmo porque a idéia de segurança coletiva ou pessoal é abstrata demais para ela. A criança não tem, portanto, a menor idéia de limite. Não é difícil imaginar as conseqüências desastrosas, se não lhe fosse dada a noção crítica dos limites, dos seus limites e a ela fosse permitida a realização de todos desejos. É bem verdade que a criança traz em si uma surpreendente capacidade de autoregulação, atributo este que também tem que ser orientado, embora respeitado, pelos pais e educadores.
Finalmente, face às características expostas acima, é de fácil conclusão que as informações acerca dos alcances e dos limites devem andar juntas. Se os alcances são expressos pelo consentimento, o sim, pelos estímulos até, os limites são usualmente expressos pelo não, pela contenção e mesmo pela premiação da continência. É assim que se forma o caráter. É assim que o não é amoroso. É assim que se desmitifica a idéia de que amar é sempre permitir, sempre dizer sim. Muitas vezes é de fato dizer sim. Mas muitas outras vezes é exatamente dizer não.
Data do artigo: Domingo, 29 dAmerica/New_York Out dAmerica/New_York 2006 às 9:58 am | Categoria : Prosa | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.