Tenho ouvido e lido, aqui e ali, que o homem se compõe de corpo, mente e alma. Tomando ao pé da letra, como se existissem as três instâncias, isto é uma ilusão, uma crendice.

Mas, considerando que, das três instâncias, apenas existe o corpo, pois que é matéria, mesmo um corpo funcionando, em atividade, a mente e a alma seriam abstrações, já que não fazem parte do mundo concreto. Suponho que um corpo em movimento existe enquanto matéria, mas que o movimento em si não sendo matéria não existe. Enquanto puro movimento, certamente que não existe, pois que o movimento só pode ser concebido como uma propriedade da matéria. Ora, a energia cinética existe e é a própria matéria transformada, pois que matéria é energia condensada. Não será então a mente o próprio funcionamento do corpo vivo? Não poderíamos dizer com certa segurança que a mente só existe condicionada a um corpo que a produz, do mesmo modo que o movimento só existe condicionado a um corpo que o produz? Ou, de outro modo, não poderemos afirmar que a mente seria uma energia produzida pelo corpo e que, em sendo uma energia, é matéria transformada e, portanto, que o corpo é energia condensada? [E o é, porque é matéria!]. Certamente que podemos, ainda mais se considerarmos que fazem parte deste grande complexo energético, que é a vida, outros tipos de energia como a energia elétrica, a energia térmica, a energia cinética, talvez a luminosa [efeito Kirlian?], a energia mental [quem sabe?] e, finalmente, aquela concebida desde a antiguidade com o nome de phisis ou energia vital, síntese de toda esta complexidade.

Assim, em suma, o corpo existe, faz parte do mundo da concretude. A mente e a vida existem como condição material dita energia, admitida como tal faz cem anos, desde que têm sido aceitas as teorias de Einstein e de Max Planck, respectivamente da Relatividade e Quântica.

Posso admitir que a mente e a vida existam de fato, mas que cessam quando cessa o funcionamento do corpo que as abriga. Que a matéria gera a energia, pois, em parte, nela se transforma. Só não posso admitir, talvez por enquanto, é que a energia se transforme em matéria, pois tal fato nunca foi observado, reproduzido, comprovado empiricamente. Sendo assim, como a cessação do funcionamento de u’a máquina faz cessar a energia por ela gerada, a cessação do funcionamento do corpo, que é sem dúvida u’a máquina especial, faz cessar todas as formas de energia por ela geradas.

Se matéria é energia condensada, energia é matéria expandida? Isto me parece obscuro, uma vez que empiricamente podemos constatar que a matéria altera seu estado físico, transforma-se em outra matéria e, em sua transformação, gera energia. Gera energia é o mesmo que transforma-se em energia. Energia, então, é matéria imponderável e não matéria expandida, pois sua mensuração é feita indiretamente, mediante os efeitos que lhe são observáveis. A matéria, ao expandir-se ou ao condensar-se, apenas altera seu estado físico. Pode também alterar sua substância, como o carvão submetido a alta pressão e temperatura resultará em diamante. Entretanto, submetida seja lá a que tratamento for, transformar-se-á a energia em matéria? Não sei e não tenho conhecimento de tal possibilidade, faltando assim um elo em minhas conjecturas.

Prossigo, mesmo com a falta deste elo.

Por suposto, a energia mental e a energia vital, como especificamente a térmica, a elétrica e a cinética, dependeriam em parte da qualidade da máquina corporal, em parte da qualidade do combustível utilizado e em parte do fator imponderável chamado de acaso. Isto é mais ou menos análogo ao funcionamento de qualquer máquina, sensu latu.

O que não se pode é reificar, concretizar o abstrato, afirmar que as abstrações são fatos, que existem, que fazem parte de um mundo semelhante ao mundo da concretude e que simplesmente estão em outro plano, em outra dimensão. Isto é confundir a máquina com seu funcionamento, o sujeito com a ação que exerce, a Lei com a ética que a precede e transcende.

Pode ser que a vida e a mente façam parte do mundo concreto. Mas não posso dizer o mesmo da alma, tomada aqui como sinônimo do mundo interior, solipsista que concebo.

Suponho ainda que a cada instância mencionada corresponde uma categoria de desvio ou transtorno, que são as doenças.

Arrisco uma classificação das naturezas das doenças:

1. doenças do corpo, as somáticas, que os médicos clínicos e cirurgiões encaram. Têm tratamento físico ou químico. Infecções, diabetes, neoplasias.
2. doenças da mente, as mentais, que são encaradas pelos médicos psiquiatras. São as psicoses e têm tratamento químico.
3. doenças da alma, as anímicas, que não são tratáveis quimicamente, senão pela comunicação entre as almas, isto é, entre os mundos interiores, ou pelo esforço próprio, pelo acaso [chamado no jargão cristão de graça]. São a vaidade, a ganância, a arrogância, o preconceito, a mediocridade… Tais doenças não são do âmbito específico da medicina, mas da filosofia, da religião, da ideologia, etc.
4. Enfim, as doenças de natureza mista e/ou fronteiriça: as psicossomáticas, psicodinâmicas, culturais, sociais, etc. São as neuroses e as perversões [psicopatias e sociopatias]. Algumas reagem ao trato psicoterápico e outras, quando muito, à ação judicial.

É de considerar ser esta classificação de caráter de ênfase. Como todos estes fenômenos têm lugar em um indivíduo, um ser enquanto vivo, um ente, isto é, composto de corpo, mente e alma além das condições circunstanciais, todas as suas perturbações envolvem ou atingem suas diversas facetas, porém preponderantemente uma delas, o que serviu de critério para a classificação acima.