As palavras servem para nos poupar trabalho.

Mas não só para isto servem. Servem, se assim desejamos, para sermos verdadeiros, fiéis na publicação de nossas idéias. Para sermos honestos, transparentes, éticos. Através delas, damos permissão para o outro conhecer nosso mundo. Mas, se não é isso o que desejamos, servem também para simular, para dissimular, para enganar, para lesar e destruir. Alguns vocábulos, pelo menos na língua portuguesa, quando empregados inadvertidamente, prestam-se a mal-entendidos pelo desconhecimento mútuo ou unilateral de sua denotação, de sua história, de sua etimologia ou pela imprecisão do seu significado, devida ao desgaste ou vício em seu uso. Outros, que se costumam utilizar grosseiramente como sinônimos, carregam sutis singularidades cuja atenção nos permite maior fidelidade na expressão de nossas idéias e no entendimento das idéias alheias. Pela sutileza denotativa, prestam-se freqüentemente a mal-entendidos. Tem a linguagem ainda a serventia de nos aprimorarmos o espírito, na medida em que nos empenharmos, respeitando e considerando nosso interlocutor, em expressar do modo mais claro possível o que de fato estamos pretendendo dizer. A linguagem clara e precisa é, portanto, um sinal de respeito para com o receptor da mensagem.

Como somos néscios, temos de estar refletindo a respeito de nossas ações e reações, para não ruirmos ao nos julgar, julgar-nos para mais ou para menos, como tantas vezes temos feito, seja caindo nas malhas da nossa vaidade, seja caindo na auto-depreciação, o que, sinceramente, vem dar no mesmo, desde que vaidade e modéstia são duas faces de u’a mesma moeda. A propósito, nos dicionários de Aurélio e de Houaiss, modéstia aparece como sinônimo de humildade, mas com um pequeno mas significativo atributo de diferença: modesto é o comedido que dá a entender que não é vaidoso. Humilde é o que se reconhece de fato como pequeno e limitado. Modesto também vem como sinônimo de medíocre. Portanto, a bem considerar, toda modéstia é falsa, do mesmo modo como toda crítica é construtiva. Não há modéstia que não seja falsa, nem crítica que não seja construtiva. Dizer-se falsa modéstia é incorrer-se num pleonasmo, numa redundância, do mesmo modo como se dizer crítica construtiva. Dizer-se crítica destrutiva não passa de um eufemismo para depreciação. Talvez possamos considerar que a virtude tenha sempre seu arremedo, o que dá margem para que semanticamente seja considerado sinônimo, mas que nem por isso deixa de ser de certo modo um seu oposto. No senso comum, entre os vocábulos acima mencionados em destaque, pode-se com certa segurança considerar depreciação como um arremedo de crítica, do mesmo modo como se pode considerar modéstia como arremedo de humildade.

Há outras palavras e, sem dúvida, deve haver muitas outras, que podem ser arremedos. São como um dialeto dentro do outro, pois talvez a maioria das palavras do mundo abstrato tenha seu respectivo arremedo. Ocorre-me agora por exemplo que freqüentemente se usa o termo respeito como sinônimo de reverência. Ora, respeitar é admitir o outro como um não-eu, que pode pensar diferentemente de mim, sentir, julgar, crer e agir a seu próprio modo. Isto se aplica inclusive a pais e filhos e a cônjuges. A correligionários, compatrícios, irmãos de religião, etc. aplica-se em tudo o que não diz respeito aos compromissos ideológicos, inclusive ao arbítrio de, contradizendo-se, mudar de ideologia.

Quantas vezes, na linguagem coloquial, diz-se que se inveja alguém, mas sem cobiçar o que ele tem, o que ele pode ou o que ele é? Pois não é que a inveja é um sentimento sempre contaminado pelo desejo de tomar o que o outro tem, pode ou é? No caso, portanto, inveja é o arremedo de admiração; não seu sinônimo. Analogamente, pessoas há que nunca fazem um elogio, para não serem tomadas por bajuladoras. Ora, o elogio é a contemplação do admirável e a bajulação, longe de ser um sinônimo de elogio, é seu arremedo.

Pode-se julgar equivocadamente que a preocupação com a precisão da linguagem seja um preciosismo e que pouca importância prática terá no dia-a-dia. Afinal, de qualquer modo as pessoas não se entendem? Isto é um ledo engano. Não se entendem e os mundos pessoais tornam-se isolados pela falta de comunhão de idéias, pois as idéias precisam da linguagem para ser debatidas, trocadas, alimentadas, recriadas ou simplesmente recusadas. As idéias, por sua vez, alimentam a reflexão que nutre o espírito. A inteireza do espírito começa a se caracterizar pelo escrúpulo da linguagem.