Qui 21 Dez 2006
Do fato e do porvir
Categoria: Prosa | Por Jorge RochaTodo feito é fato e todo porvir, provisório. Algumas vezes tenho pensado nisto e vejo, cada dia, que assim é, que o passado se consolidou e que o futuro é sempre quimérico, é sempre possibilidade, num leque que vai do nada ao tudo. Hão de me dizer: mas isto é angustiante demais!…
Suponho que sim, é angustiante demais, como angustiante demais é conceber que a vida começa e encerra em si mesma, que não há outras vidas, que não temos nada de especiais que justifique a vida após a morte, prêmio ou castigo, senão no próprio bem-estar interior, aqui e agora. Já escutei também: mas não pode ser somente isto! Seria pouco demais!… Não consigo compartilhar de tal sentimento de que é pouco demais. Nem consigo admitir tão prepotentemente que o fato de me angustiar seja um argumento ou mesmo um indício de que as coisas não devem ser como são [só para eu não me angustiar]. O universo não é antropocêntrico. Tudo o que é porvir é possibilidade pura, é hipótese, é de juízo provisório. E esta mera possibilidade, repito, vai do nada ao tudo. Mas o já passado, vivido, testemunhado, isto já se tornou definitivo, não pode ser repassado, revivido, renegado ou denegado. Então, a priori, qualquer que seja a afirmação que se fizer acerca do futuro deve ser encarada como provisória. Quando muito, deve ser considerada como possível, como a manifestação de um desejo e nenhum desejo é definitivo, pois o definitivo é o feito, o factum, o fato, o realizado, acontecido, passado…
Ouvir não te suporto ou eu te amo eternamente na verdade não deveria provocar sentimentos distintos. Se podemos ser suficientemente serenos, devemos encarar como perspectivas apenas prováveis. Se digo nunca mais vou comer carne ou nunca mais vou à Babilônia, só posso estar me referindo ao aqui, agora ou ontem. Nunca ao porvir, senão como quimera, como desejo, enfim, como possibilidade. E já que nossa necessidade muda, nosso empenho muda, nossa vontade muda, nosso poder muda… E já que o acaso, sempre misterioso e incognoscível, inefável, define bem mais fortemente o somatório de todos os movimentos cósmicos, preocupar-se não é o mesmo que ocupar-se previamente com algo que é apenas uma possibilidade? Ocupar-se previamente é o mesmo que envidar esforços vãos [vãos, cujo substantivo em latim é vanitate, que por sua vez forneceu à língua portuguesa a nossa tão conhecida vaidade]. Usando o recurso da lógica formal, podemos concluir que preocupar-se não passa de uma atitude vaidosa, já que se refere ao desejo de interferir com o futuro. E sobre o futuro não existe a menor garantia. Só possibilidades!
É claro que todas estas considerações são exercícios de ídeo-esgrima [meu neologismo para poupar esgrima ideológica]. É claro que também aqui não há qualquer verdade, qualquer definição, mas tão somente possibilidades. Posso dizer que, até o momento em que escrevo, está definida e definitiva a minha não ida à Babilônia, como está definido e definitivo que já gastei 54 anos de minha vida, mas que doravante nada se pode afirmar do quanto ainda tenho disponível… Não há minimamente qualquer garantia de que eu continue sendo o que tenho sido, fazendo o que tenho feito. Só possibilidades.
Então, tanto faz eu dizer que irei à Babilônia todos os meses ver os amigos que tanto amo, quanto dizer que nunca mais irei à Babilônia. Serão sempre palavras vazias, que o tempo, como o vento, tratarão de dissolver. São planos ou desejos que o acaso virá ratificar ou retificar. Mais uma vez, só possibilidades…
Data do artigo: Quinta-feira, 21 dAmerica/New_York Dez dAmerica/New_York 2006 às 4:29 pm | Categoria : Prosa | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.