Qua 3 Jan 2007
SONS RUIDOSOS DEMAIS
Categoria: Comportamento | Por Jorge Rocha
O gosto do mostrar-se é uma característica tipicamente feminina, como o gosto pelo olhar é masculino. Isto é, nos jogos de sedução e no aquecimento sexual, homens e mulheres se comportam mais ou menos dentro desses padrões.
No dizer de Freud, o exibicionismo é uma perversão sexual, uma tara, na linguagem vulgar, que consiste em retirar o prazer sexual preponderante ou exclusivamente da auto-exibição. Na passagem ao ato, acting out, o exibicionista mostra sua genitália com o propósito de gozar com isto. Uma extensão do comportamento exibicionista é publicar outras partes do seu corpo mesmo que os outros nem estejam interessados. Como os objetos têm um significado real ou imaginário de prolongamento do corpo, são também exibidos como se fossem atributos a ele inerentes. É assim que acontece com a riqueza acumulada e com o poder externo [econômico, social ou político]. Um carro novo e potente, uma casa ostensivamente grande e luxuosa, enfim, a pose, a simples pose, podem ser mais geradores de gozo como objeto de exibição do que como bem de consumo prazeroso em si mesmo. Não é nenhuma raridade que homens exibam suas mulheres, como uma manifestação de exibicionismo à deux.
Que isto tem a ver com a poluição sonora?
A bem da verdade a poluição sonora, que atinge a todos os cidadãos, parece que lhes causa pouco incômodo, pelo menos à maioria. É o que me parece que ocorra aqui em Morro do Chapéu, onde carros de som, mas também vários carros particulares, não têm a menor cerimônia em abrir totalmente seus volumes sem qualquer preocupação, consideração ou respeito para com os transeuntes, que têm seus tímpanos e seus nervos perturbados pelos sons ruidosos, inconvenientes e enervantes. Todavia a prática persiste e não tenho notícias de que alguém proteste ou que as autoridades tenham tomado providências para coibi-la.
De qualquer modo, tudo indica que os chamados carros de som, carros de propaganda, que circulam às vezes operando em volume muito alto, tão competitivos entre si, baseiam-se certamente na crença de quem tem maior poder é quem gritar mais alto. Ganhar no grito, já que na qualidade não têm o que melhor oferecer. Este comportamento, como também o de instalar um aparelho de som potente no carro, estacionar em via pública, abrir a tampa do porta-malas e ligar o aparelho, com músicas de flagrante mau gosto e a todo volume possível, talvez não passe de exibicionismo travestido.
É bem verdade que a questão freudiana é de foro interno, desde que não se passe ao ato e fira o que se convencionou chamar de bons costumes. Entretanto, no caso específico dos sons ruidosos e abusivos, há um caráter de agressão à saúde pública, uma vez que é um fato sobejamente conhecido que a exposição freqüente a ruídos de alto volume pode levar a lesões auditivas, com prejuízos até irreversíveis, como também a perturbações nervosas. Por esta razão existem leis que regulamentam o uso de emissão de sons ou ruídos de grande intensidade, determinando locais e horários para sua permissão.
Um preceito básico da ética nos diz que não devemos fazer aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem a nós. Infelizmente, como sabemos, a ética hoje em dia está em baixa e por esta razão seria ingenuidade esperar que os autores da poluição sonora tivessem seu próprio desconfiômetro e maneirassem mais. Por que, pois, aqueles que são incomodados pela poluição sonora não reagem e repudiam tal prática? A falta de resposta a esta indagação é que me faz desconfiar que os cidadãos e cidadãs e também os jovens desta cidade, futuros cidadãos, ainda em formação, de fato não se sentem incomodados. Neste caso, eu reconheço que me situo entre uma insignificante minoria.
Pode ser que esta opinião não passe de uma voz que clama no deserto, que não venha a se somar a qualquer outra, não tenha nenhuma repercussão ou nem sequer seja partilhada pelos compatrícios. Mas tinha que ser dita.
Data do artigo: Quarta-feira, 3 dAmerica/New_York Jan dAmerica/New_York 2007 às 9:38 pm | Categoria : Comportamento | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.