Qui 8 Mar 2007
AMBIÇÃO E SOFRIMENTO
Categoria: Prosa | Por Jorge RochaEste artigo, já publicado na imprensa, é de autoria do jornalista Paulo Nogueira.
“O aristocrata romano Boécio (480-524) tinha tudo para ser feliz, segundo os parâmetros habituais. Era rico, poderoso, influente. Tinha uma inteligência excepcional: verteu para o latim toda a obra de Aristóteles e Platão. A decadente Roma, em sua época, estava sob o domínio bárbaro dos godos. Boécio era intensamente admirado pelo imperador godo, Teodorico. Dele ganhou uma função de destaque na administração pública. Tudo corria pelo melhor para Boécio até que a roda da fortuna se movimentou. Acusado de traição, algo que com o tempo se viu ser uma falácia criminosa, foi condenado à morte. Enfrentou suplícios antes da execução: por exemplo, uma correia de couro apertada em seu crânio. Boécio recebeu a marca dos condenados à morte: a letra grega Theta queimada na carne. Era assim que os presos destinados a morrer eram distinguidos dos demais.
Do martírio de Boécio nasceu um clássico entre os clássicos da literatura ocidental: o livro A Consolação da Filosofia, escrito por ele no curto e tumultuado período entre a sentença e a morte. Tudo de que Boécio dispunha materialmente para escrever suas reflexões eram pequenas tábuas e estiletes. Isso lhe fora passado por amigos solidários. Mas ele tinha, acima de tudo, uma cultura e memória prodigiosas. Em seus dias, a elite intelectual costumava guardar na memória os textos clássicos, lidos em voz alta desde a infância e arquivados nos cérebros privilegiados como o de Boécio como uma espécie de “biblioteca invisível’: Foi com a ajuda dessa biblioteca nada convencional que Boécio escreveu um comovente, sublime, duradouro testemunho de como a filosofia pode ajudar as pessoas a enfrentar situações cruéis como a que ele experimentou.
Trata-se de um espetacular triunfo do espírito sobre a força, e isso logo foi reconhecido. A Consolação da Filosofia foi uma das três obras mais lidas na Idade Média, ao lado da Bíblia e de A Regra Monástica, de São Bento. Há, no Brasil, uma fina edição da Martins Fontes, na qual a tradução competente direta do latim se combina com um prefácio primoroso. Boécio cria, no livro, uma conversa entre ele, perturbado por sua queda, e uma musa, que representa a filosofia. Ele está prestes a morrer e no entanto tem uma espécie de renascimento espiritual nos diálogos com a musa.
A filosofia lhe mostra que os bens cuja perda ele tanto lamenta, das propriedades à vida mesma, se têm o brilho do vidro também têm sua fragilidade. O único bem que não nos pode ser tirado é aquilo que temos dentro de nós, uma “musculatura interior” que nos faz aceitar com graça e dignidade os reveses do destino. “A felicidade pode entrar em toda parte se suportarmos tudo sem queixas”; escreveu Boécio. Há em nós uma tendência deletéria à insatisfação que impede a felicidade. Mesmo quando a sorte nos é favorável achamos razões para queixas. Queremos mais, sempre mais, em apaixonadas manobras da ambição que terminam em frustração. Sem o controle das paixões, e a mais perversa delas é a ambição, simplesmente não existe chance de ser feliz. Foi o que ensinou Boécio.”
Paulo Nogueira, 48 anos, jornalista, cuja maior ambição é exatamente não ter ambição.
sabios@abril.com.br
Data do artigo: Quinta-feira, 8 dAmerica/New_York Mar dAmerica/New_York 2007 às 5:24 pm | Categoria : Prosa | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.