Sáb 24 Mar 2007
Na sala de espera
Categoria: Comportamento | Por Jorge RochaNa sala de espera, três pessoas aguardando a hora de ser atendidas. Chamo a primeira delas. Das duas seguintes, uma está totalmente louca e acompanhada da prima; a outra, uma jovem, sentada calmamente, está desacompanhada.
Não há tempo para atender as duas que esperam e só poderei atender uma. Dos funcionários aos usuários, todos olham para mim, esperando que eu faça a discriminação. A jovem calma mora distante, na área rural. A louca mora com a prima, dentro da cidade, numa rua da periferia diametralmente oposta ao centro de saúde onde nós estamos. Como escolher? Não assumo o papel de juiz em qualquer que seja a causa. Não exerço um poder que não me é legítimo, o de definir a sorte de quem quer que seja. Entrego a tarefa para elas mesmas, as interessadas. Proponho que conversem, negociem e que, dentro de um minuto, escolham quem deverá ser atendida. Passado um minuto, não há resposta nem escolha: cada uma julga que o direito de ser atendida é seu e nem uma das duas arreda o pé um centímetro. Penso em pegar minha valise e simplesmente ir embora, porque acho que ambas são mesquinhas, nem sequer se dão o trabalho de ponderar o respectivo interesse. Apenas seu interesse fala alto. Ficam ambas emburradas e estou-me referindo à mocinha calma e à prima da louca, porque esta propriamente dita louca cede sem hesitação seu lugar para a rival. Neste pequeno universo, nesta amostragem insólita de nosso mundo social, apenas a louca tem a nobreza de abrir mão de seu privilégio. As outras sequer levam em conta a disposição solidária da insana. Em mim, tais atitudes provocam indignação e não me contendo pergunto à mocinha calma se ela não se sente envergonhada em proceder assim, não arredando o pé um milímetro em sua disputa.
A prima da louca puxa-a então pelo braço e a conduz ao ambulatório, ignorando completamente o incidente que ocorre na sala de espera. Não visto a toga de juiz nem uso seu malhete. A definição vem então de quem mais alto grita ou de quem como um trator passa por cima do outro, implacavelmente.
Atendo a louca. Pondero com a prima acompanhante acerca do ocorrido lá fora, critico as atitudes, alerto para a miséria das relações humanas com seu egoísmo e competitividade.
Enquanto estou na consulta, ouvimos os gritos espalhafatosos de alguém lá fora que suponho tratar-se da mocinha calma. Já não está mais calma. Já dá um espetáculo de histrionismo, joga-se ao chão e é conduzida ao pronto socorro, no hospital vizinho, em uma flagrante crise dissociativa que é própria da neurose histérica. Tomo seu prontuário, ainda virgem, para fazer a anotação da ocorrência e encontro então um sucinto relato do médico que a encaminhou para o serviço de psiquiatria, onde consta que a mocinha calma, ou melhor, antes calma, teria sido vítima de um estupro…
Eu me ponho a pensar neste mundo de competição e egoísmo, de total desconsideração do outro, o mundo de Dogville, onde cada um só quer para si, incapaz de ceder espaço para o outro!…
Data do artigo: Sábado, 24 dAmerica/New_York Mar dAmerica/New_York 2007 às 4:37 pm | Categoria : Comportamento | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.