Sáb 14 Abr 2007
Conversa para dentro e para fora
Categoria: Comportamento | Por Jorge Rocha
Uma noite, conversei com dois dos meus filhos, até uma da manhã, trocando idéias sobre ética. Fiquei cheio de receio de estar completamente iludido acerca da ética no mundo.
Ambos os dois expressaram sua desconfiança em todas as pessoas, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Disseram ambos que alguém nos lesar é sempre uma probabilidade. De repente, eu me dei conta de que, por mais que eu ande afirmando para mim e para os outros que a essência nos faz semelhantes a toda a humanidade e portanto potencialmente bons e maus, por mais que eu ande afirmando para mim e para os outros que sinto desprezo pela humanidade, não passo de um romântico sonhador, equivocado, vivendo meu auto-engano. Fiquei baqueado, não propriamente em tomar conhecimento das idéias deles dois, mas em perceber que eu é que sou talvez um ingênuo travestido de cínico. O cinismo deveria estar lá dentro, mas o meu está da boca pra fora. Lá dentro, sou mesmo um romântico. Uma distância abissal separa minha cabeça de minhas entranhas e assim minhas mãos são tão contraditórias. Às vezes, o que penso não corresponde ao que sinto e o que faço oscila entre o que penso e o que sinto. E minhas ações sempre estão gerando conflitos internos. Ressurge das cinzas meu trígono psicanalítico: Vadinho, Orígenes e Jorge, três instâncias distintas em uma só pessoa: Vadinho e Orígenes torturando Jorge, que é fraco, incompetente e covarde… E, no entanto, é justamente Jorge a instância que se relaciona com o mundo exterior. Curiosamente, quando se deparam Vadinho e Orígenes enquanto Jorge não passa de um expectador, isto é, quando me volto para meu mundo solipsista, posso ter paz. Entretanto, quando volto para o mundo externo, Jorge, que começa a atuar, fica em pandarecos. Concluindo, não me conheço e estou longe, muito longe de me conhecer. Ego sou um fracasso. Superego sou um tolo e Id sou uma criança, com minha espontaneidade e criatividade que para nada servem no mundo externo, onde apenas Ego sou levado em conta. E Ego sou covarde, inseguro, imaturo, fraco, equivocado, um fracasso. Sabe de uma coisa? Quem vem refletindo, mesmo que levando em conta e dialogando com Id, sou Superego. Quem elabora sou Superego, quem determina minha conduta responsável sou Orígenes, quando quem determina minha criatividade e minha franqueza sou Vadinho. Ego sou apenas um palhaço inconsistente, pequeno, antipático, arrogante e neurótico. Jorge sou por isto um medroso deprimido. Orígenes, por refletir, sou organizado, responsável e ético. Vadinho, por ser espontâneo, sou franco e crítico. Mas Jorge, por conflitado e incompetente, sou medroso, truculento, fraco e inconveniente, um elefante numa sala cheia de cristais…
Orígenes reflito, Vadinho sou espontâneo e criativo, mas Jorge sou um fracasso.
Razão e sensibilidade não bastam. É preciso ação. A razão está em Orígenes; a sensibilidade está em Vadinho, mas a ação está em Jorge. Uma árvore se conhece pelos seus frutos. A razão e a sensibilidade se limitam à intenção. Um homem é o que faz, pouco importa o que pense, pouco importa o que sinta… Não sei mais se o mundo interior é tão incompatível com o externo. A incompatibilidade reside no Ego, quando não é capaz de fazê-los compatíveis. Provavelmente o Superego e o Id não dariam conta de um ente humano, se não fosse o Ego.
Data do artigo: Sábado, 14 dAmerica/New_York Abr dAmerica/New_York 2007 às 4:52 pm | Categoria : Comportamento | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.