Qui 26 Abr 2007
SÓ REMINISCÊNCIAS
Categoria: Poesia | Por Jorge RochaFaz tempo, quando nos reuníamos à noite nas comunidades rurais lá em Feira de Santana, Serrinha, Buritinga, Ichu, nós sonhávamos com novos tempos, com nova sociedade, onde os privilégios seriam superados pela justiça, onde a exploração seria substituída pela colaboração.
Pensávamos na formação de grupos e mais grupos, cada vez mais, de camponeses conscientes e corajosos, que um dia poderiam quem sabe pegar em armas ou que passassem a militar na vida política de suas pequenas associações e sindicatos, nas comunidades eclesiais de base. Pensávamos que estaríamos construindo um novo mundo. E quando alguém morria, como aconteceu com Joaquim da Matinha, sonhávamos com os novos joaquins que iriam brotar. Para cada um de nós que viesse a sofrer repressão ou maltrato, outros dez surgiriam.
Agora, tantos anos depois, não vejo nada de novo. Só a sociedade burguesa está melhor. Os excluídos continuam excluídos… “Os filhos de nossos patrões serão os patrões de nossos filhos”, vaticinaria Lula em um discurso para operários.
Acabei de assistir “Viva Zapata!” de Elia Kazan. A mesma história, a mesma estória: “Do sangue de um mártir brotarão muitos cristãos”… E de repente Zapata diz que só um povo fraco precisa de um líder forte: os povos fortes não precisam. E tenho vontade de chorar, de recolher-me, aposentar-me de vez, de morrer. E tenho uma enorme compaixão dos outros que ficam, dos filhos, dos amigos, dos entes humanos… Como os sonhos se desvanecem, como as quimeras se dissolvem! Só restam cinzas, só resta pó…
joaquim pereira dos santos
07.mai.76
ele era um pai
e como ele
havia muitos pais
e os seus ais subiam aos céus.
ele era um homem
e como ele
havia muitos homens
e sua fome a clamar!
ele era um ser,
um ser que pensa,
que junto aos seus
queria viver!
queria viver,
viver como um homem,
do seu trabalho,
não como gado.
ter liberdade, matar a fome,
sorrir do frio, poder morar.
ele era assim:
trabalhador, seus braços rijos
é que plantavam, é que colhiam
o que seus filhos não comiam.
e não comiam
porque os outros,
os outros, sim, eram os donos
da sua colheita
e do seu eito
e do seu leito,
da sua enxada, da sua foice.
e acharam os donos
que donos eram
também dos filhos,
que donos eram
do seu destino,
que gado era
e apenas gado.
e se enganaram…
e ao engano, juntou-se o ódio.
e ao seu ódio, o seu dinheiro.
e ao seu dinheiro, o fuzil de outrem.
e porque joaquim queria viver,
viver como homem,
não como gado,
ter liberdade, matar a fome,
vieram eles
e o mataram.
Data do artigo: Quinta-feira, 26 dAmerica/New_York Abr dAmerica/New_York 2007 às 7:34 pm | Categoria : Poesia | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.