O espírito da tentação consiste em fazer despertar um desejo preexistente e acenar-lhe com possibilidades de realização. Não há tentação em insinuar possibilidades cuja idéia não preexista em forma de desejo. Neste caso não é necessário o mínimo esforço para resistir ao apelo, simplesmente porque o objeto da insinuação não é objeto do desejo. O eunuco não pode ser tentado pela odalisca.

O desafio é uma tentação porque não é outra coisa senão o apelo para realizar um desejo preexistente, a ambição. A competição é outra forma de tentação, para satisfazer o desejo de ter ou poder.

Não me seduz uma oferta de algo que não desejo. Por isso a sedução é sempre uma tentação. Melhor sedutor é aquele que tem perspicácia para sacar o desejo do outro. Melhor ainda é o que conhece profundamente os desejos do outro. De que desejo estou eu falando, quando me refiro à tentação, uma vez que esta palavra tem uma conotação negativa, reprovável? Seriam os desejos potencialmente destrutivos, que são inibidos pelo superego, esta formação cultural de defesa da sobrevivência gregária, e que encerram em si ambigüidades, como os impulsos, por exemplo, de eros e/ou tânatos? O sexo é um desejo profundamente destrutivo, na medida em que visa à própria satisfação, a despeito da submissão real do outro. Tal submissão real, desconsideração pelo outro poderão ser sublimados [pode-se ler tornados sublimes] pelo afeto e pelo reconhecimento do desejo do outro, complementar ao próprio desejo. A prática sexual exercida à força ou permutada por outra coisa que não seja o desejo e o afeto do outro é sempre uma prática opressiva. No caso da prostituição, a prática sexual é uma relação reciprocamente opressiva.

Quando o desejo instigado pela tentação é um desejo de caráter construtivo, psicológica ou socialmente construtivo, ou simplesmente aceito ou tolerado, a tentação toma a forma de um desafio, mas não passa de uma tentação, instigação de um desejo preexistente. Por exemplo, a ambição é um valor mundano, secular, especialmente em nosso sistema atual. Isto é, ambição é confundida com coragem, com audácia e, para o sistema, quem não é ambicioso é covarde. Ela não é apenas tolerada, mas estimulada como o é seu instrumento mais pragmático, a competição, quer se trate de ambição pela riqueza, como ambição pelo poder. Assim acontece principalmente em suas formas mais racionalizadas pelos eufemismos do discurso político, religioso, publicitário etc, o que apenas evidencia e confirma a contradição entre a ética e o comportamento interesseiro do sistema, discurso este alimentado pela própria ambição de riquezas, isto é, a ganância e a própria ambição de poder, isto é, arrogância.

A semente do mal [o teológico pecado original?] está entranhado em cada um de nós e é portanto nosso próprio desejo. A passagem ao ato é um pulo. Um pulo que precisa apenas transpor a barreira do superego e da Lei. Não há bons nem maus, nem maus nem bons. Há aqueles cujo superego consegue conter o desejo, cujos princípios éticos e civis conseguem realçar a força da Lei e cuja humildade virtuosa consegue resistir à tentação.

O princípio zen de que o pai da dor é o desejo parece estar bem em consonância com a prece no final do Pai Nosso: não nos deixeis cair em tentação… Isto é, não nos deixeis ser escravos do desejo… Mas livrai-nos do mal… Ajudai-nos a ser virtuosamente humildes…