Dom 13 Mai 2007
O aniversário do meu pai
Categoria: Prosa | Por Jorge Rocha
Drocha morreu num dia como este, 14 de maio.
Epa! Que lapso! Hoje seria aniversário dele, que morreu mesmo foi em 21 de setembro…
Teria valido a pena sua vida? Com que parâmetros medir, avaliar? Só muita petulância minha, para julgar isto.
O mistério que transcende nossa vã existência, vã enquanto existência em si, deixa rastros de dúvidas, como fogos-fátuos, como caudas de cometas. São os filhos e netos e quem sabe mais quem virá a partir dele, de sua passagem por aqui, mesmo que tenha sido por ele e por nós outros considerada vã e inútil, são as memórias que todos os que o conheceram carregam, seu nome de certa forma imortalizado nos escritos de Enock publicados como notas em um jornal, no livro de Adilson Machado, Amendoeiras de Outono, mesmo que apenas numa breve citação, breve mas tão fiel ao que lembramos dele: “Quem tudo come, tudo caga”, filosofava um tio avô desbocado, Dativo, gargalhando das digressões em sua tenda de seleiro. [página 41]… Afinal, é maior honra ser citado que de fato publicar de punho próprio…
Lembro freqüentemente das gargalhadas dele, não gargalhadas ruidosas, mas gargalhadas acompanhadas de lacrimejamento, como se fosse tão custoso rir. E era, parecia. O velho era sisudo, sempre alegando dor de cabeça. Mas quando ria, e ria sempre com aqueles olhos marejados, iluminava minha alma de criança, mesmo depois que cresci e vaidosamente passei a me julgar mais inteligente, mais culto, mais sabido, mais civilizado do que ele…
Como são tolos os filhos! Hoje, quando sou possuído destas lembranças, na data que seria seu aniversário, primeiro elas vêm discretas marejar meus olhos, depois eclode a profusão. É a nostalgia, a dor da ausência? Talvez não! É o eco do nunca mais! Queria que o tempo desse a volta, que Dativo estivesse aqui, que eu pudesse acariciar seus cabelos brancos e ralos, sua barba, queria poder dar-lhe um abraço demorado, se ele deixasse… Nenhuma palavra. Nenhum comentário, nenhum pedido de desculpas…
Agora que mudei de lado, já não sou mais filho, é que sei como dói ter filhos nos moldes do que fui… E, no entanto, é inevitável que pais e filhos cumpram seus destinos, reescrevendo implacavelmente a maldição da Esfinge retratada por Sófocles.
Se Édipo só consegue enxergar tardiamente e se sua dor é tão grande que ele mesmo se lhe fura os olhos, Laio tem que ser morto, já muito tempo depois, tempo suficiente para carregar sua culpa pelo que de fato nem consumara. Tem que ser morto pelo filho. Preciso lembrar que a morte de Laio, no mito, não é por envenenamento nem por crueldade, nem mesmo por disputa do amor de Jocasta, mas pela disputa de um direito de seguir o caminho barrado pelo pai.
Édipo, que sou, tendo matado meu pai, não preciso mais ter olhos para enxergar. Laio, que sou, preciso ser morto seis vezes, para que cada um dos meus filhos também cumpra seu destino.
Drocha não morreu num 14 de maio. Morreu num 21 de setembro. Tanto faz se dia da árvore ou se início da primavera. O significado é o mesmo…
Data do artigo: Domingo, 13 dAmerica/New_York Mai dAmerica/New_York 2007 às 8:29 pm | Categoria : Prosa | Deixe um comentário
2 comentários para o artigo “O aniversário do meu pai”
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Maio 14th, 2007 at 11:45 am
você me fazer chorar a esta hora?
Acho que não consigo dizer mais nada, principalmente pelo que descobri agora:não consigo “sorrir sem marejar os olhos”…é mole?
Até logo mais
Enock
Maio 14th, 2007 at 10:42 pm
O momento agora sempre parece menos importante do que o que vem mais na frente, e só lá na frente percebemos o quanto o agora (já passado) é (foi) valioso. Tentamos aproveitar o agora. Lembramos de meu avô e aproveitamos conectarmos novamente.
Pai,
Curto muito nossas conversas, viu? Tento aproveitar cada instante…
Abraços
Neill