Qua 4 Jul 2007
um augusto brinde dos anjos
Categoria: Poesia | Por Jorge Rocha
que a felicidade existe, existe!
quem não a achou, que a procure mais!
pois não a encontra quem na busca insiste
do silêncio das noites hibernais.
não posso crer que a felicidade
more na calma das almas silentes,
se a vejo nos ruídos da cidade,
nas inquietações adolescentes.
carros de som invasivos, gritantes,
que vêm ferir meus tímpanos obtusos,
sambões, pagodes, rock’n roll berrantes
a mim, senecto, me parecem abusos.
entanto, entendo: minha otosclerose
me leva a reações intolerantes
conquanto a multidão aí fora goze
d’ estrépitos infernais de alto-falantes.
devo reconhecer minha vetustez
e intolerância frente à juventude:
passou minha hora! esta é sua vez!
o meu futuro está num ataúde!
talvez tenha mesmo é que me conformar
e não usar de argumento ou treta,
se sinto a existência definhar,
se sinto mesmo que a morte espreita.
certo, preciso rever o teor
desta construção da minha mente,
de que a felicidade é interior,
de que folia é coisa de demente.
se olho ao redor e vejo a macacada
a bater palmas, rir e gargalhar
pro futebol, novelas, batucada,
mesmo que o riso apenas seja esgar,
tenho que admitir que estão felizes
em sua azáfama, balbúrdia e berros.
tenho que admitir, as forças motrizes
estão no que só me parecem erros.
e que erros são esses, se a alegria
campeia, somente gargalhada e risos,
onde a excitação grassa e a euforia
dissimula as vergonhas e os sisos?
mas, se olho pr’outro lado também vejo
pessoas tranqüilas, a prosar, serenas,
ou a cantarolar suave arpejo
ou a, silenciosas, ler, apenas,
e se a felicidade é a euforia,
eu me pergunto: que sentido faz
renunciar aos momentos de orgia,
para abraçar uma introspecta paz?
talvez, enfim, seja a felicidade,
tesouro que se busca com ardor,
prazeres buliçosos da cidade
e não a sutil paz interior.
ao meu olhar doentio, óbvio parece
é que, ao contemplar a raça humana,
a grande maioria, o que acontece
é ser a humanidade u’a raça insana.
se é uma raça insana à qual pertenço,
por que insisto em rechaçar a alegria
estúpid’ e vulgar? e por que penso
assim contrariamente à maioria?
se sou uma exceção, até admito,
minoridade no humano universo,
só resta recolher-me então ao mito
e é o mito que povoa meu verso:
não há felicidade além, no mundo,
no vencer, no ganhar, no esplendor!
ela habita a alma, bem no fundo,
no âmago, na paz interior…
Data do artigo: Quarta-feira, 4 dAmerica/New_York Jul dAmerica/New_York 2007 às 2:34 pm | Categoria : Poesia | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.