A respeito da solidão, tenho algumas considerações.

Primeiramente, que a solidão implica em um isolamento, em estar só. Isto é puramente subjetivo, porque ninguém no mundo está completamente só, mas isto é outra história. Ocorre que quando se está só, na verdade sente-se só. O desamparo acompanha a solidão. Ocorre também que, embora nada no mundo esteja completamente só, cada criatura está desamparada e é assim que é, na falta de um deus pessoal. Ao mesmo tempo ligado e desamparado. O sentimento de solidão nos acompanha a todos os lugares em que estivermos e não existe maior solidão do que estar no meio da multidão. É preciso experimentar a solidão de ânimo, no meio de um carnaval, quando invade a rua a multidão que segue o trio elétrico, como eu já experimentei. Não há pior solidão.

Por outro lado, estar desacompanhado, sozinho, não solitário, mas em seu solipsismo, como quando se medita, quando se está misticamente ligado é experimentar uma completude indizível, quase um êxtase, porque o sentimento do desamparo e do abandono, da carência quase desaparecem. Só resta a idéia de desamparo em nível da razão, porque afinal nossos pais comeram e nós também comemos do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Por isso sabemos que estamos desamparados, que a vida é fugaz e finita, que os ideais são ilusórios, benditas ilusões que nos permitem viver suportando a angústia da mortalidade e do desamparo.

O acaso e o tempo, implacáveis, são tudo para nós. Só a ligação, a re-ligação, a aliança com o acaso e com o tempo, a inspiração de que não estamos sós, embora inexoravelmente desamparados nos dá alento para viver. O resto é distração, “prevaricação”, orgia: o status social, o poder, a acumulação de bens, o trabalho compulsivo, o consumismo, as riquezas, as tentativas sexuais apaziguadoras, a droga, os ideais pelos ideais, a arte, a paixão e mesmo, digamos, o amor e até um deus pessoal. Vanidade! Tudo vanidade! [Porque a palavra vaidade já não expressa a mesma idéia].

Com isto nem de longe quero dizer que as ilusões, os ideais, a distração, a “prevaricação”, a orgia sejam abomináveis. Tudo isto nos faz menos angustiados. Mas penso que um pouco de angústia, já que isto é o que nos sobra de real, de verdadeiro, pode fazer bem. A reflexão, de que resulta a sabedoria, pode vir daí da angústia, da depressão. É para isto que deve servir a solidão. Não para nos fazer sair correndo e vender a alma ao diabo, em troca da orgia, de uma idéia ilusória de amparo, de segurança externa, que nos costumam dar a paixão, o poder e a riqueza.

Aqui, o trabalho compulsivo merece ser debulhado: além de servir apenas como passatempo, uma distração, serve como fonte de uma outra quimera: a de que o trabalho é o caminho para o enriquecimento. Como estamos desamparados e nos sentimos sós, os bens nos parecem provedores de segurança e por isso o trabalho, sendo o caminho para adquirir-se a riqueza, confunde-se com a própria riqueza futura e isto é a segurança externa. Quanto mais temos, mais precisamos, mesmo porque o medo de perder o que se tem reforça a necessidade de maior segurança externa e assim se fecha o círculo vicioso, duplamente ilusório: porque a segurança externa é uma ilusão, pois sempre estaremos desamparados e porque o trabalho não é e nunca foi fonte de riqueza para quem o executa. No afã de enriquecer mais, não há como não explorar o trabalho do outro. A ganância fecha um círculo vicioso maior, perfeitamente sintônico com o ideal do chamado sistema: Mais riqueza, mais poder, mais status. Ironicamente, mais ilusão de amparo, segurança. A solidão, entretanto persiste, porque é um dado puramente subjetivo, porque o que persiste mesmo é o desamparo e a finitude e fugacidade da vida, o tempo inexorável e o acaso misterioso. De fato, a solidão, mesmo, nunca existiu…

Pelo vício das palavras gastas, como acontece com o termo vaidade, solidão tem um sentido sofrido. Para mim, o sentimento de solidão é de fato um sentimento de desamparo. Estar só, livre dos ruídos externos, de fato é gozar de um privilégio que nosso mundo não costuma nos permitir. É gozar do solipsismo, que os iogues e os zen, os místicos e alguns sortudos, como às vezes me sinto, tanto prezam…