que saudades das batatas do egito!
das cebolas e dos bifes do egito!

que saudade dos outros tempos,
quando a vidinha corria bitolada,
como o riacho dentro de suas margens
e sem variações,
em sua monótona paisagem…
sequer um murmúrio,
sequer um desvio…
águas mansas, ajustadas ao seu leito.
nada de rebeldia!

que saudades desse tempo!
havia segurança [segurança externa].
é bem verdade que não se gozava.
mas também parece ser verdade
que não se sofria…

naquele tempo se falava em liberdade.
em liberdade e em autonomia.
pensava-se também
em felicidade [mas às ocultas].
rebeldia, não!

a liberdade, a felicidade
e também a autonomia
eram metas a alcançar,
tesouros a desenterrar…
[estavam fora da gente].

ter liberdade,
ter autonomia,
ter felicidade…
um, dia, ter [talvez]!

o riozinho correndo, medíocre,
o riozinho sem turbulências…
e sem alegrias… [jamais se entusiasma!]
procurando o mar [já não será mais rio].
procurando ter [felicidade, liberdade, autonomia]…
e, como rio, sem nunca chegar a ser…

que saudades desse tempo!
porque dói ser!…
ser livre,
ser autônomo,
ser feliz!