Ter 14 Ago 2007
aletiofilia
Categoria: Prosa | Por Jorge Rocha“Vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz”.
Disse-lhe Pilatos: “O que é a verdade?”
E, dizendo isto, saiu de novo ao encontro dos judeus… [Jo. 18, 37-38]
Um mal-estar freqüentemente me ocorre nas relações inter-pessoais. Um mal-estar provocado pela penumbra da desconfiança. Ora, a confiança, que significa lealdade ou fidelidade mútua, comunhão de fé, implica uma transparência recíproca. Desconfia quem mente; desconfia quem não acredita. Como o mundo interior de cada um é insondável, a não ser mediante a devida permissão, o acesso de fora é praticamente impossível. Quando, porém, se vislumbra a possibilidade, surge um outro obstáculo, o obstáculo da linguagem. A linguagem é sempre metafórica e a linguagem verbal o é por excelência.
Por ser metafórica, mas, sobretudo por ser personalíssima, a fala não garante por si só a sondagem da alma de quem a profere. Pode, ao contrário, ser uma fonte de mentiras. Ou, talvez, no eufemismo de Éxupery, uma fonte de mal-entendidos.
Faz seis meses, debrucei-me sobre a questão da mentira e deixei registradas minhas reflexões sob o título Por que alguém mente. Fui levado a isto pela minha obstinação pela verdade. Agora, parto do meu desconhecimento do que seja a verdade. Afinal, quando Pilatos fez a indagação a Jesus do que seria a verdade, João, que relata o episódio com exclusividade, conta que, incontinenti, retirou-se sem escutar qual resposta poderia advir. Assim, ficamos todos nós também sem saber o que seria a verdade, no conceito de Jesus. Uma pista: Curiosamente, Jesus ter-lhe-ia dito, pouco antes, que seu reino não era deste mundo, que veio ao mundo para dar testemunho da verdade e que todo aquele que fosse da verdade ouviria sua voz.
Assim, mesmo sem o conhecimento do que seja a verdade, posso experimentá-la e intuir o conceito que dela tinha Jesus. E é neste âmbito que tento ser verdadeiro e amar a verdade.
Pretendo ser amigo da verdade. Mas, que é a verdade? Que é que considero a verdade? Para mim, a verdade é a expressão da alma. O que ocorre em meu mundo interior, minhas idéias, meus sentimentos, minha ótica. Isto é a verdade. Não há a verdade externa. A verdade está interna, é interior a cada um de nós. Por isso não existe a verdade. Nem mesmo existem as verdades. Verdade faz parte do mundo solipsista, interior, faz parte da alma, cuja comunicação com o exterior só é possível a partir de dentro. Portas, cujas fechaduras só se abrem por dentro. Assim é a alma. A verdade é a porta aberta da alma. Procurar no mundo exterior a verdade é procurar em vão, é coisificar a verdade, é concretizar a metáfora. E metáforas não podem ser concretizadas. Podem ser decodificadas, traduzidas e, aí sim, as idéias podem ser reificadas, concretizadas, pela ação, pelo trabalho. Assim, faz todo sentido, pleno sentido, a exortação bíblica: A verdade vos libertará!… Quem tem olhos para ver, veja; quem tem ouvidos para ouvir, ouça, disse o parabólico moreno, o rei das metáforas.
o ceguinho do plano-inclinado
[16.nov.64]
vivendo a langorosa e triste sina,
vivendo a sina triste que é sua,
cantando, ora em voz alta, ora à surdina,
cantando seu infortúnio à noite, à lua,
lamenta e chora, a um a esmola pede,
a outro ele agradece e a deus bendiz.
sua dor, seu sofrimento ninguém mede.
não! não se sabe a dor desse infeliz…
e diz o cego em seu triste cantar
que só quem para isso foi talhado
pode essa vil desgraça suportar.
há muitos que não enxergam embora vejam
e os que mesmo da visão privados,
pela fé vêem, embora cegos sejam…
Agora me dou conta de uma expressão popular, para jurar que se viu alguma coisa, mesmo que pareça inverossímil: eu vi com estes olhos que a terra há de comer. Isto é, não vi com os olhos da terceira visão, com os olhos da imaginação, com os olhos do desejo ou do medo, em suma, com o meu olhar. Vi com os próprios olhos materiais, concretos. O que vi estava fora de mim. Há que se diferençar olhos de olhar. Os primeiros são concretos, fazem parte do mundo da concretude; o segundo, abstrato, faz parte do mundo solipsista. Todos temos olhos que podem ser transplantados. Porém, não pode ser transplantado nosso olhar. O olhar é individual, pessoal, intra-psíquico… É, portanto, no olhar que reside a verdade, a verdade de cada um.
O olhar está na subjetividade, no mundo interior. Cada um tem o seu. O filósofo pré-socrático Empédocles ousou romper o véu da familiaridade e inquiriu seriamente sobre o que acontece quando enxergamos as coisas. A essência de sua conjectura original era a tese de que, quando vemos algo, são os olhos que atuam e iluminam os objetos vistos. A sensação de estar vendo resulta do fato de, na visão, jatos de luz ou algo equivalente serem emitidos pelos olhos, incidindo sobre as coisas e tornando-as visíveis. A cegueira significa que a luz irradiada pelos olhos cessou. Acaso não se poderia estar usando a mesma formulação para falar do mundo interior?
Os olhos, por outro lado, são órgãos do sentido, estruturas anatômicas, que fazem parte do mundo da objetividade, do mundo exterior. Se a tese de Empédocles fosse de fato verdadeira, de tal modo que os olhos projetassem fachos de luz sobre as coisas, então não haveria nenhum problema em enxergar no escuro! A não ser que a tese de Empédocles seja recriada, fazendo referência ao mundo solipsista e não ao mundo da concretude… O que torna uma teoria ou proposição mais objetiva que outra? O que merece crédito? Acreditar não basta. O ponto de partida na análise do conceito de objetividade é a constatação de que o ato de acreditar não se confunde com o ato de identificar e examinar criticamente as razões que nos levam a acreditar naquilo em que acreditamos. O impulso rumo a uma postura cognitiva mais objetiva está ligado à análise do que pode justificar ou não acreditarmos em algo. A tradição e a autoridade, por exemplo, não passam no teste. Uma teoria ou proposição não se torna mais ou menos objetiva em função de quem a afirma ou defende, mas sim em razão do que ela afirma ou defende. O sujeito do conhecimento pode ser mais ou menos objetivo no ato de conhecer. Suas idéias e resultados podem ser mais ou menos críveis. A objetividade, contudo, não é propriedade dele. Ela é um atributo daquilo que ele concebe, elabora, registra e oferece à apreciação pública dos demais. Está-se falando claramente do mundo exterior.
O conceito de verdade, se referida ao mundo exterior, é relativo, é sempre relativo, pois um mesmo fenômeno ou até u’a mesma coisa tem que passar pelo crivo do sensório ou da razão para ser apreendida pelo sujeito. Entretanto, se referida ao mundo interior, solipsista, será a sua verdade, seu discernimento de foro interno, que pode ser aguçado pelo auto-conhecimento. Do contrário, é má-fé… Por esta razão, o conceito de verdade, se referida ao mundo interior, é absoluto, mesmo que a verdade seja a dúvida, a não-certeza. Assim não podemos confundir certeza com verdade, pois, se objetiva, será sempre relativa; e, se subjetiva, será sempre de foro interno, inconteste. Só repetindo, do contrário, é má-fé.
Em grego, verdade se diz aletéia. Aletiófilo deve significar amigo da verdade. Conhecimento se diz gnosis e é objetivo. Sabedoria se diz Sofia e é subjetivo. Assim, suponho que sofia é algo diverso de gnose, pois sabedoria é algo mais que conhecimento. Os romanos usavam palavras também diferentes, para estas idéias diferentes: scientia, para conhecimento e sapientia para sabedoria. Que fazer com o conhecimento, com a gnose, com a scientia? O que vai definir seu bom uso certamente será a sabedoria, a sofia, a sapientia. O conhecimento pode ser enganoso, pode ser manipulado; é assim que agem os sofistas. A sabedoria, não. Não pode ser manipulada, não pode ser enganosa, a não ser que haja má-fé para consigo mesmo, como diriam os existencialistas. E, neste caso, estejam mentindo os sofistas para si mesmos… Mais modernamente, Eduardo Giannetti chama então de auto-engano, termo que usa para dar título ao seu livro. Embora Eduardo Giannetti não diga que o auto-engano seja propriamente má-fé, eu mesmo posso concebê-lo assim, uma ingenuidade que ocorre pela carência de reflexão. Infelizmente, a capacidade de refletir e auto-criticar-se só se consolida com o passar da idade. E aí já se viveu. Pelo menos comigo é assim que acontece e acho uma pena que assim tenha sido.
Não sei distinguir bem se sou mesmo um amigo da verdade ou um inimigo da mentira. Um aletiófilo ou um misopseudo. Será que dá no mesmo? Acho que não. Acho que a aletiofilia seria uma virtude, mas a misopseudose talvez seja mais u’a manifestação neurótica de cunho compulsivo do que uma virtude.
A leitura de Freud vem ao meu encontro para me dar alívio, para me ajudar a entender que nada é perfeito e onde penso que há virtude, o que pode haver mesmo é sublimação. Certo, que sou uma personalidade anancástica cheio de culpa. Mas é possível que minha anancasticidade possa ser utilizada, sublimada em meu senso de responsabilidade e em minha necessidade premente de ser verdadeiro. Isto só é demérito para meu narcisismo, que me pretende homem forte, digno e virtuoso, o que é mera vaidade. Ou aprendo a me querer bem com tais características e nestas circunstâncias ou vou ficar a vida inteira infeliz, marcando passo, sem sair do lugar.
Não importa que se possa ou não ser o melhor; tem-se que ser o melhor que se pode!
Data do artigo: Terça-feira, 14 dAmerica/New_York Ago dAmerica/New_York 2007 às 9:37 am | Categoria : Prosa | Deixe um comentário
1 comentário para o artigo “aletiofilia”
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Outubro 7th, 2007 at 10:42 pm
Achei ótimo esse texto,acho que a maioria das pessoas preferem viver no mundo da mentira. Uma vez ouvi uma pessoa dizendo para outra que se ela for uma amiga de verdade, que não a críticasse. E quanto ao poema do cego, acho que nós enxergamos de dois modos, com os olhos e com o pensamento. Muitas vezes o seu pensamento vê mais coisas que a sua própria visão. Você vê de um modo, mas seu pensamento vê de outro. Ao mesmo tempo você vê e sente, e muitas vezes, o que você viu não é a mesma coisa que você sentiu. E é aí que você muitas vezes confunde o real com o imaginário. Você não sabe se viu ou se imaginou.