Escute o Prosa & Verso 001

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
quarteto em cy - pedro pedreiro
zé ramalho - cidadão
beethoven - para elisa
noédson valois - a letra é rê e não erre
luiz gonzaga - abc do sertão, com luiz gonzaga

Pedro Gazo andava ultimamente pelos cantos, calado. A todo mundo que falava com ele, uma resposta bruta, um xingamento. Pedro Gazo tava de saco cheio, tava com ódio de todo mundo. Lá no alojamento, tinha mato crescendo na portada e todos os colegas da construção se revezavam para manter limpa a entrada. Pedro Gazo sempre ajudou também e continuava ajudando, até aquele dia.

Mas andava acabrunhado, caladão, desconfiado, só. Ficava pelos cantos, pensando amargo, a cara franzida, preocupado. Quem sabe com que? Tinha deixado mulher e filhos lá no interior da Bahia, em sua terra que nunca foi sua. Crueira e carne de bode seca ainda davam pra eles irem vivendo, aturando. Mas Pedro Gazo tava longe; Não podia ter luxo de sentir saudade.


Sentia outra coisa que ainda não inventaram palavra para descrever. E ódio. Ódio de estar ali dando o maior murro, pra ganhar porqueira. Vontade de gritar, sair gritando, correndo, puxando os cabelos. E Pedro Gazo, cada vez mais sozinho, hostil, já estava passando a ser uma ameaça para todos, pros colegas, pros encarregados, só não pro patrão. Ele nem conhecia o patrão e o patrão nem conhecia ele. Mas entre os dois havia uma dependência tão estreita, como a dependência que há entre a barriga e a comida de que ela precisa. Foi assim, nesse clima, que aconteceu o pior para Pedro Gazo.

De repente, sem mesmo se perceber como, todos estavam amedrontados com sua presença na obra. Disseram ao encarregado que Pedro tava juntando pedaços de vergalhão, como armas, lá no alojamento. O encarregado chamou Pedro Gazo e mandou arrumar seus trecos, deu a conta… e foi a conta… Pedro endoidou. Ameaçou quebrar tudo, botar fogo na obra. Chamaram a polícia. Não ficou mesa, não ficou vidraça… No meio do aruê, chegaram os policiais. Lá se foi o nordestino, longe de casa, arrastado pra dentro da viatura, curtir xadrez. Lá se foi aprender outras artes, lá se foi começar nova vida…

Pro pessoal da construção, Foi um suspiro de alívio se ver livre de Pedro Gazo e todo mundo voltou ao seu trabalho, a fazer suas tarefas, a dar sua produção, a fazer edifícios em que nunca vão morar. Daqui a pouco tá todo mundo esquecido de Pedro Gazo. Ninguém sabe de sua mulher, ninguém sabe dos buchudos, nem das mulheres dos outros Pedros Gazos nem dos filhos deles. E, sobretudo, ninguém parece ter compreendido o que ocorreu com ele, Pedro Bispo dos Santos, apelido Pedro Gazo.