Qua 22 Ago 2007
Prosa & Verso 001 - PEDRO GAZO
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 001
Músicas tocadas neste programa: |
Pedro Gazo andava ultimamente pelos cantos, calado. A todo mundo que falava com ele, uma resposta bruta, um xingamento. Pedro Gazo tava de saco cheio, tava com ódio de todo mundo. Lá no alojamento, tinha mato crescendo na portada e todos os colegas da construção se revezavam para manter limpa a entrada. Pedro Gazo sempre ajudou também e continuava ajudando, até aquele dia.
Mas andava acabrunhado, caladão, desconfiado, só. Ficava pelos cantos, pensando amargo, a cara franzida, preocupado. Quem sabe com que? Tinha deixado mulher e filhos lá no interior da Bahia, em sua terra que nunca foi sua. Crueira e carne de bode seca ainda davam pra eles irem vivendo, aturando. Mas Pedro Gazo tava longe; Não podia ter luxo de sentir saudade.
Sentia outra coisa que ainda não inventaram palavra para descrever. E ódio. Ódio de estar ali dando o maior murro, pra ganhar porqueira. Vontade de gritar, sair gritando, correndo, puxando os cabelos. E Pedro Gazo, cada vez mais sozinho, hostil, já estava passando a ser uma ameaça para todos, pros colegas, pros encarregados, só não pro patrão. Ele nem conhecia o patrão e o patrão nem conhecia ele. Mas entre os dois havia uma dependência tão estreita, como a dependência que há entre a barriga e a comida de que ela precisa. Foi assim, nesse clima, que aconteceu o pior para Pedro Gazo.
De repente, sem mesmo se perceber como, todos estavam amedrontados com sua presença na obra. Disseram ao encarregado que Pedro tava juntando pedaços de vergalhão, como armas, lá no alojamento. O encarregado chamou Pedro Gazo e mandou arrumar seus trecos, deu a conta… e foi a conta… Pedro endoidou. Ameaçou quebrar tudo, botar fogo na obra. Chamaram a polícia. Não ficou mesa, não ficou vidraça… No meio do aruê, chegaram os policiais. Lá se foi o nordestino, longe de casa, arrastado pra dentro da viatura, curtir xadrez. Lá se foi aprender outras artes, lá se foi começar nova vida…
Pro pessoal da construção, Foi um suspiro de alívio se ver livre de Pedro Gazo e todo mundo voltou ao seu trabalho, a fazer suas tarefas, a dar sua produção, a fazer edifícios em que nunca vão morar. Daqui a pouco tá todo mundo esquecido de Pedro Gazo. Ninguém sabe de sua mulher, ninguém sabe dos buchudos, nem das mulheres dos outros Pedros Gazos nem dos filhos deles. E, sobretudo, ninguém parece ter compreendido o que ocorreu com ele, Pedro Bispo dos Santos, apelido Pedro Gazo.
Data do artigo: Quarta-feira, 22 dAmerica/New_York Ago dAmerica/New_York 2007 às 4:47 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
1 comentário para o artigo “Prosa & Verso 001 - PEDRO GAZO”
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Junho 29th, 2010 at 11:22 pm
Tive o prazer de escutar este primeiro programa ao vivo quando morava em Morro. Logo ví que se tratava de uma programa diferenciado e de MUITO bom gosto. Jorge deixou saudades e ótimos ensinamentos. Uma vez tinha que comprar um presente para minha esposa e encontrei-o. Comentei a respeito de minha árdua tarefa então ele me deu uma aula a respeito de como escolher um presente, coisa que sempre que vou escolher um, lembro-me dele.