Qua 5 Set 2007
Prosa & Verso 003 (PARTE 02) - ZÉ MOCÓ, SERVENTE DE PEDREIRO
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Músicas tocadas neste programa: |
Zé Mocó é o apelido dele. O nome, acho que ele nem se lembra mais. Também ninguém conhece ele pelo nome. Só por Zé Mocó. Ele passa a semana na cidade, trabalhando na construção civil. A família fica em casa, na roça. A mulher e duas filhinhas. Na cidade, ele fica no alojamento da firma e vai em casa de domingo em domingo. Pra trabalhar de carteira assinada, ele tem de ganhar uma diária menor do que normalmente ganharia se trabalhasse por conta própria. Acorda de madrugada, come na obra, vai dormir tarde.
Antes de ir pra casa, passa na venda de seu Justino e toma uma pra dar sono, pra alegrar um bocadinho esta vida dos diabos, pra esquecer um pouco a cara do miserável do encarregado, que está perseguindo ele na obra.
Mocó me falou outro dia que não entende esta vida. Trabalha como um desvalido e não vê melhora. O doutor da firma, o engenheiro, tinha ficado nervoso no outro dia com um carpinteiro que faltou ao serviço. Nervoso, ele gritou que essa laia de preguiçosos, é por isso que não sabe nada na vida… Gritou que o mundo ta aí pra quem quiser trabalhar, mas Zé Mocó não entende. O pai trabalhava como vaqueiro, dava duro de lua a lua e morreu na miséria, porque no fim da vida o patrão botou pra fora. E o pior, diz Zé Mocó, é que o velho morreu dizendo que o patrão era a melhor pessoa em cima da terra… Pois bem, Zé Mocó coçou a cabeça, coçou a barba, os olhos, brilhando à luz do fifo, um bruguelinho junto, com a barrigona cheia de farinha:
- Trabalho desde oito anos, desde moleque, ouvindo desaforo de todo mundo. Nunca respondi mal a ninguém. Dou duro. O trabalho é meu pão nosso. Dia de domingo, é bem verdade, tomo umas duas poça-zoio, que é barato, mas nun dá pra embebedar não.
Aí ainda decoto u’as mandioca, inda debúio uns feijãozinho de corda, inda dou um dijutorum a um vizinho. Sou preguiçoso não. Mas como é que não subo na vida? Lá na firma, onde Zé Mocó trabalha, tem um encarregado que está subindo aos bocadinhos. Ele costuma perseguir os companheiros e agora tem perseguido Zé Mocó também. Do patrão, o encarregado Nadinho é o maior puxa-saco. Então Mocó fica arruinado da vida, vendo que quem está subindo é porque é puxa-saco. Mocó continua sem compreender direito tudo isso. Ultimamente ele tem sabido que outros companheiros também estão se danando. Ainda anteontem de noite, Zé Mocó estava lá na varanda de seu Justino, comendo água e teve uma surpresa quando ouviu outros companheiros contarem ali que tinham em sua carne as mesmas dificuldades de Mocó. Ta aí: numa cachacinha de buteco, estavam uns seis ou sete caras e entre as conversas de futebol e cachaça ficaram enxergando como as dificuldades de um são parecidas com as dos outros.
Data do artigo: Quarta-feira, 5 dAmerica/New_York Set dAmerica/New_York 2007 às 4:40 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.