Elas precisam ser tiradas. Nosce te ipsum! Conhecer-se é retirar as máscaras. Muito bem. Uma coisa é eu mesmo retirar minhas máscaras e para isto até ser ajudado por outros. Outra coisa é alguém vir retirar minha máscara, violentamente, humilhantemente, pois as máscaras servem também para nos proteger. As máscaras nos dão mimetismo e cada um tem o direito de escolher tirar ou não suas máscaras.

Eu preciso retirar minhas máscaras, perante o espelho. Eu preciso me ver, conhecer-me como eu sou. Nem sempre preciso retirar minhas máscaras perante os outros, principalmente se estes outros forem meus inimigos.

Retirar as máscaras é como retirar a roupa. Hora de retirar as máscaras é aquela em que estamos prontos para não sentir mais vergonha. Igualzinho como tirar as roupas. Não posso retirar minhas roupas, se me sinto envergonhado. Às vezes preciso de ajuda para retirar minhas roupas, diante de um médico ou diante de uma mulher e isto deve ser feito suavemente, delicadamente, amorosamente ou pelo menos gentilmente.

O desejo de estuprar ou de ser estuprada pode ser um desejo comum, próprio dos homens e das mulheres. Mas não passa de desejo, do âmbito da fantasia. A realização da fantasia, a passagem ao ato, isto é anti-cultural, é animalesco. O desejo de retirar as máscaras alheias corresponde ao desejo de espiar a nudez alheia. Pode ser natural, pode fazer parte da natureza humana, mas só como desejo. E o desejo é como um animal selvagem que deve ser domado e conduzido.

Um desejo que se torna vontade e que posteriormente se torna um ato pode ser uma violência, pode ter o caráter destruidor, se não for ético, se não for socialmente permitido. Aqui, socialmente tem o sentido de compartilhado por mais uma pessoa. Há desejos que ficam restritos à própria pessoa, unicamente ao self. Neste caso sai do campo da ética e permanece no campo da consciência, do foro íntimo, apenas subordinado ao superego. Tirar as máscaras do outro implica em desnudá-lo e, se isto ocorrer contra a sua vontade, corresponde a um estupro, a uma violação.

Há certos desejos que são a priori anti-sociais, se a passagem ao ato for uma definição exclusivamente unilateral. Para sua realização ser legítima é indispensável o consentimento externo, isto é, do outro ou dos outros. Retirar as máscaras alheias é um deles. Senão, será uma arrogância, nada mais que uma arrogância, com violência explícita ou não. Assim é tentar interpretar uma parapraxia, um sonho, um lapsus e, pior ainda, publicar a interpretação. Há um espaço legítimo para se fazer isto: é o set psicoterápico, onde há um prévio contrato, uma permissão a priori e um público restrito e bem definido, se em grupo ou no âmbito bipessoal, tanto faz. Mas é imprescindível que assim seja. Não posso me dar o direito de interpretar o comportamento e as idéias alheias, sem sua permissão, e muito menos de publicar a interpretação, usando dos instrumentos com os quais fui agraciado no curso de minha vida profissional, por exigência aliás da própria ocupação.

Frequentemente retiramos a máscara do outro, sob a justificativa de estarmos sendo sinceros, francos, honestos. Durante a vida inteira, carreguei a convicção de que estava me portando corretamente, agindo de maneira crítica e, portanto, construtiva. Quando retirei as máscaras alheias agressivamente, julgava que estava fazendo um favor ao outro, que estava sendo crítico, sincero e amoroso. Não conseguia olhar para mim mesmo e ver que, por trás de minha ação pretensamente amorosa, estava solta e atuante toda a minha arrogância. Toda a minha vida, acreditei que era honesto e sincero. Não consegui distinguir, no curso destes 60 anos, minha sinceridade de minha arrogância. Que sou sincero, sei que sou, mas minha franqueza tem estado por toda a minha vida, contaminada por minha arrogância. Minha arrogância, mesmo que às vezes tenha vindo travestida de sinceridade, foi sempre arrogância. Assim, esta dupla de atributos, franqueza e arrogância, imiscuíram-se de tal forma que se tornaram uma espécie de amálgama.

Ocorre que minha auto-imagem é de que sou sincero. Mas, por muito tempo, por todo o meu tempo, não me dei conta de que estava sendo arrogante, e muito arrogante. E enquanto pensava que estava sendo sincero e corajoso, minha conduta não estava passando de arrogância.

Pode ser que a sinceridade maltrate as pessoas, muitas pessoas. Mas certamente o que as maltrata mais é a arrogância que nós próprios não discernimos. Se viermos a aprender a separar o joio do trigo, a arrogância da sinceridade ou, em outras palavras, a superar nossa arrogância e passar a ser sinceros, sinceros, mas serenos, teremos conseguido um avanço que só pode fazer o bem a nós mesmos.

Agora percebo que desnudar alguém pública ou privadamente é injustificável, sobretudo a pretexto de ajudá-lo. Não passa de uma farsa, de uma escaramuça. Retirar a máscara alheia, como retirar suas roupas, é um gesto violento e sobretudo arrogante.

Uma outra confusão que costumamos fazer é a respeito do silêncio. Quando silencio, o que raras vezes acontece, minha intenção costuma ser permitir ao outro expressar-se, evitar o confronto e não parecer petulante e teimoso. Um grande blefe, porque o que estou conseguindo mesmo é apenas ser arrogante. O silêncio pode muito bem ser o cúmulo da arrogância. É quando o silêncio não é propriamente de ouro, mas de pirita: o silêncio que magoa, que humilha, tal qual o riso de escárnio… Fazemos uso muitas vezes, do escárnio, do sarcasmo, da gozação, pretextando estar fazendo ironia, a ironia que Sócrates utilizou. Grande engano. O sarcasmo, a gozação, o escárnio não passam de um a antítese da ironia, esta sim, construtiva como é a própria crítica. A título de criticar, muitas vezes depreciamos, difamamos, queimamos o outro. A título de ser irônico, muitas vezes estamos sendo sarcásticos. A ironia é construtiva porque é crítica. O sarcasmo é destrutivo porque é depreciativo.

Apontar o erro alheio, utilizando tais formas, é tornar-se muito mais arrogante do que espirituoso, crítico, respeitoso ou sincero.

Talvez a sabedoria não consista do conhecimento, mas da capacidade de discernimento. Conhecimento é saber, mas discernimento é sabedoria.