Qua 19 Set 2007
Prosa & Verso 005 (PARTE 02) - CANTA-SE EM MORRO DO CHAPÉU
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 005
Músicas tocadas neste programa: |
Segundo está publicado em BAHIA, SINGULAR E PLURAL, o terno de Reis, liderado por Antônio Marcolino dos Santos, conhecido como Antônio da Viola, é um dos grupos musicais populares mais antigos de que se tem conhecimento no interior da Bahia.
É um exemplo de música de artistas negros unidos por uma estreita linhagem familiar, do mesmo modo que o Reis dos Cassimiro de Vão das Palmeiras, em Seabra, o Reis das Devotas de São Sebastião, em Boninal, e a marujada do Prado.
Ao que se recorda Antônio da Viola, os chefes de reisado anteriores foram Ludegário de Jesus, seu bisavô Marcolino Bié de Jesus, o avô, os tios Pedro Olegário e Vital de Jesus, até chegar a seu pai, Alfredo Marcolino de Jesus, de quem herdou a liderança.
No salão onde foi gravada esta cantiga, além dos filhos de Antônio da Viola, um trio de netos de pouca idade já toca o pandeiro e samba com habilidade.
Esse tronco familiar é advindo do antigo quilombo chamado Barra dos Negros. Seus integrantes são lavradores [plantam milho, feijão e mamona]. O grupo orgulha-se de ter sido o preferido do coronel Dias Coelho, o notável estadista negro de Morro do Chapéu.
Além dos tipos convencionais de Reis [da porta, da lapinha e de agradecimento], os integrantes do grupo cultivam mais duas formas musicais, que chamam chula de viola e samba de roda, muito diferentes entretanto do seu homônimo do recôncavo.
Tocam anualmente no festival de música regional do Colégio Nossa Senhora das Graças, nas festas de Reis, Santo Antônio e São Cosme, além de outras datas festivas de Morro do Chapéu, usando viola, pandeiro, triângulo e tambor de reisado.
Afora a viola e o triângulo, os pandeiros e tambores são feitos artesanalmente pelos próprios componentes do grupo.
Dando continuidade à tradição, o grupo responsável pela gravação foi renovado com a entrada de jovens há dois anos e agora vem procurando incluir a presença de crianças.
Morro do Chapéu tem, sem dúvida, uma tradição artística especial.
Para uma cidade com menos de 20 mil habitantes, sem mercado de trabalho para a juventude, que tem de bater em retirada e migrar para centros economicamente mais acolhedores, chega a causar surpresa aos que aqui chegam o seu número de artistas.
Esta cidade tem escritores, poetas, atores, artistas plásticos, músicos, sem esquecer de mencionar os artesãos que aqui vivem e até os criativos polivalentes, como Nanáu, Elias do Araguaia, Cumeeira e Lozinho.
Os músicos, mesmo que não o sejam de formação, são instrumentistas e cantores, alguns até compositores.
O Prosa & Verso, entre outras propostas, tem também a de divulgar as produções artísticas locais, como aliás já tem feito aos poucos.
Hoje quero destacar uma figura daí de Fedegosos, Noédson Valois.
Mas o destaque não é para o Noédson brincalhão e irreverente. É para o artista lírico, o poeta, compositor e também intérprete de lindas canções como a que vamos mostrar a seguir.
Antes, porém, apreciem este poema de sua autoria:
Um ditado antigo diz que ninguém é profeta em sua terra.
É um preconceito.
E como todo preconceito, deve ser combatido.
Foi um preconceito desses que impediu Jesus de pregar em sua terra, Nazaré.
As pessoas torciam o nariz e diziam: Esse não é o filho do carpinteiro? Quem ele pensa que é, para falar na sinagoga?
E, impregnados de preconceito, ficamos a bajular os de fora, como em geral nós os brasileiros fazemos, prestigiando e valorizando os gringos, porque são estrangeiros.
Basta que falem uma outra língua ou até mesmo que tenham outro sotaque diferente dos nossos, pra que a gente logo valorizar demais, além da conta.
Puro preconceito!
Aqui no Morro, existem artistas sensíveis e não são raros.
Vamos ouvir uma composição de Jadson Gama.
Data do artigo: Quarta-feira, 19 dAmerica/New_York Set dAmerica/New_York 2007 às 4:23 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.