Músicas tocadas neste programa:
duda valverde - meu nome é cráudia
ney matogrosso - yes, nós temos banana, de braguinha
filarmônica lira morrense - delira, de jomarito guimarâes
Uma vez, faz alguns anos, estive na casa de dona Hermínia, lá na fonte dos pretos. Não sei se vocês conhecem alguma dona Hermínia, mas esta de quem estou falando é uma que é lavadeira. Tem sete filhos e mora pertinho da fonte dos pretos. Dona Hermínia é forte, acho que de tanto trabalhar como lavadeira, esfregando roupa grossa, uns cobertores de lã tão bonitos da patroa que ela nem nunca sonhou ter igual, a calça jeans de júnior, o filho da patroa, que tem u’a moto. De esfregar as cortinas lindas, os dedos e as mãos de dona Hermínia se ferem toda semana, mas os braços ficam fortes. Fortes pra dar de comer aos sete filhos. Fortes para tomar conta da casinha, quase um barraco, que o companheiro abandonou faz quase um ano, quando dona Hermínia engravidou a vez caçula.
E agora ela está só, com os filhos, o marido está no mundo, talvez com outra mais nova por aí, nem dá notícia, nem pede notícia. Isto eu já estava sabendo, mas dona Hermínia tornou a falar. Também ela já tava avisada de que homem é assim mesmo, nada pega em homem. Mulher é diferente. Dona Hermínia acha que afinal quem tem de ficar cuidando dos meninos é ela, que é mãe e é mulher. Leia mais…
Músicas tocadas neste programa:
djarunami – galo bedjo
elis regina, o rancho da goiabada
ari cléber, toda manhã, de jadson gama
lira morrense & minerva, dois corações, dobrado composto por pedro salgado
Pessoas que moram em nossa mesma cidade, às vezes em nossa vizinhança, passam despercebidas. Cada um de nós está cuidando de sua vidinha. Farinha pouca, meu pirão primeiro. É o que dizemos para nós mesmos e para os outros. E assim, cada um defende seu próprio espaço e até aí, não vejo problema.
O problema começa quando cada um defende apenas e tão somente o que imagina ser seu próprio espaço. Acontece que existem interesses que não são limitados a uma pessoa, ou a uma família, mas que são coletivos, interesses comunitários, interesses sociais.
A gente pensa e age como se o que acontece com um vizinho, com um conhecido, com um outro morador da mesma cidade, nada tivesse a ver com a gente. Leia mais…
As amizades podem ser representadas graficamente como uma imagem estelar, cujas pontas são desiguais, e muito desiguais. Em certos momentos da vida, temos a impressão de que as amizades são algo uníssono, niveladas, iguais, eqüidistantes do núcleo daquele gráfico estelar, cujo centro representa o sujeito da amizade e cujas pontas representam seus objetos. Então, promovemos um encontro e convidamos todos os amigos do nosso círculo, uma festa povoada, animada, mas superficial, em que caberia seguramente qualquer pessoa, conhecida ou desconhecida, que tivesse um mínimo ponto de contato com mais alguém ali presente. Não é preciso que haja uma espécie de mmc que interligue e aglutine a totalidade dos presentes. Ao final, entretanto, a frustração daquele suposto, desejável, mas inexistente mmc, que interligasse e aglutinasse a totalidade dos presentes, será maior do que a satisfação do encontro. De fato, o encontro não terá ocorrido, senão em caráter superficial e fragmentário. Isto provavelmente porque os amigos convidados para o encontro não seriam pontas eqüidistantes, da estrela gráfica, umas das outras e mesmo do sujeito nuclear que teria promovido o encontro. É o tipo do evento que em si não favorece a comunicação dos mundos interiores, comunicação esta que caracteriza, possibilita e alimenta as amizades.
Músicas tocadas neste programa: lenon e rian - há tempos não chove
luiz gonzaga - vozes da seca
denize - a fada e o juazeiro.
lira & minerva - obedece a quem sabe
Dona Maria tem 29 anos. Ela mora na roça e trabalha ajudando o marido que também tem 29 anos, trabalha de enxada. O marido de dona Maria se chama Crispim ou Manuel ou Mané ou Silvino ou Antônio Pereira dos Santos. Ele tem um nome, mas a gente não sabe. A gente só sabe que ele não tem terra, mas que seu trabalho é de lavrador. Dona Maria também lava roupa porque o ganha-pão é muito pouco e não dá pra viver. Ela tem 29 anos. Ele também tem 29 anos. No ano passado, um vizinho arranjou meia tarefa de terra e deu a ele para plantar.
Arranjaram umas manivas e semearam a mandioca. A seca e as lagartas ficaram com mais da metade. A terra também é fraca e eles não tinham dinheiro para comprar adubo. Compraram lixo porque um caminhão de lixo custa 30 reais. Dona Maria tem dez filhos. Teve treze barrigas, mas três morreram com pouco tempo de nascidos. Ela está grávida, vai ter uma criança para o mês. Com o lixo que compraram, vieram as moscas e as imundícies. E com as moscas e as imundícies, as doenças. Dos dez filhos de dona Maria, sete já foram se receitar no posto. Para quase todos, o doutor arranjou remédio de graça. Pra quase todos, foi o mesmo remédio. Quase todos estão no mesmo. Um piorou. Leia mais…
Músicas tocadas neste programa:
ivaldo garcia - entra em beco, sai em beco
simone - a formiga e a cigarra
cleová - lute
Dizem que o mundo foi criado por Deus. O fato é que a criação do mundo não está definitivamente terminada. Dizem que nós viventes devemos ser co-criadores. Então viver é também criar ou recriar. Alguma coisa que aprendemos e gostamos pode servir de modelo para a criação de algo novo, sem que seja cópia do antigo, sem que seja plágio. Há uma fábula antiga, A formiga e a cigarra, que foi escrita na velha Grécia por um escravo inteligente e sábio chamado Esopo. Alguns séculos depois, um outro escravo chamado Fedro, reescreveu a mesma fábula, inspirado na anterior, de Esopo. Passaram-se mais alguns séculos e um poeta francês chamado La Fontaine, retomou a fábula da formiga e da cigarra e com ela fez uma poesia.
Aliás, tanto Fedro como La Fontaine se inspiraram nas fábulas de Esopo para fazer suas criações e recriações. Leia mais…
Músicas tocadas neste programa:
luiz gonzaga - o xote das meninas
alonso dantas e musa lopes - filhos de gandhi
orlando silva - errei… erramos
chico buarque - mil perdões
Coincidência ou não, o dia 2 de outubro, aniversário de Gandhi, também é comemorado como o dia do perdão.
Pois, ontem foi o dia do perdão.
Mas o que significa mesmo perdão?
Que significa perdoar?
O perdão supõe que se cometeu um pecado, um crime, uma transgressão, um erro.
Ora, pecado, crime, transgressão e erro são o mesmo fenômeno, têm a mesma natureza. A diferença é de gradação, de gravidade.
Só que o pecado é o agravo ao que há de mais misterioso e, digamos sagrado. Pode-se dizer que, na opinião geral, é o agravo a Deus.
Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.