Escute o Prosa & Verso 09

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Músicas tocadas neste programa:
lenon e rian - há tempos não chove
luiz gonzaga - vozes da seca
denize - a fada e o juazeiro.
lira & minerva - obedece a quem sabe

Dona Maria tem 29 anos. Ela mora na roça e trabalha ajudando o marido que também tem 29 anos, trabalha de enxada. O marido de dona Maria se chama Crispim ou Manuel ou Mané ou Silvino ou Antônio Pereira dos Santos. Ele tem um nome, mas a gente não sabe. A gente só sabe que ele não tem terra, mas que seu trabalho é de lavrador. Dona Maria também lava roupa porque o ganha-pão é muito pouco e não dá pra viver. Ela tem 29 anos. Ele também tem 29 anos. No ano passado, um vizinho arranjou meia tarefa de terra e deu a ele para plantar.
Arranjaram umas manivas e semearam a mandioca. A seca e as lagartas ficaram com mais da metade. A terra também é fraca e eles não tinham dinheiro para comprar adubo. Compraram lixo porque um caminhão de lixo custa 30 reais. Dona Maria tem dez filhos. Teve treze barrigas, mas três morreram com pouco tempo de nascidos. Ela está grávida, vai ter uma criança para o mês. Com o lixo que compraram, vieram as moscas e as imundícies. E com as moscas e as imundícies, as doenças. Dos dez filhos de dona Maria, sete já foram se receitar no posto. Para quase todos, o doutor arranjou remédio de graça. Pra quase todos, foi o mesmo remédio. Quase todos estão no mesmo. Um piorou.

Dona Maria, sem poder mais lavar de ganho nem ajudar o marido que está trabalhando a dia numa chácara do doutor Gedeão, ainda pra completar, apareceu uma infecção. Foi também se receitar. O médico ficou nervoso de tanto ver a cara de dona Maria. Ela foi umas quatro vezes lá, só esta semana. A infecção que ela tem não melhorou com o remédio que o médico passou. Duas vezes mais, outros remédios comprados com a fome dos filhos e nada de melhorar. Dona Maria foi avisada pelo doutor que sua doença era grave e que ela ia precisar tomar remédio caro. Ia precisar também fazer um exame de urina [uma urocultura]. O marido dela está trabalhando a dia na chácara do doutor Gedeão. Ganha 15 reais por dia duro de trabalho. O remédio custa 60 e o exame de urina, outros 60. Dona Maria está desesperada e tem chorado muito.

Agora, há uns vizinhos que têm visto dona Maria chorando dia e noite. Uns vizinhos ficaram preocupados com a situação deles. Dona Maria tem medo de morrer e deixar os filhos sem mãe. Dona Maria sabe que a vida que ela tem levado é ruim que nem a morte, mas tem esperança de seus filhos viverem de maneira melhor. E a esperança de dona Maria está renascendo, como o fogo de uma coivara na hora que o vento dá. Dona Maria, seu marido, seus filhos e seus vizinhos, os filhos de seus vizinhos, todos pobres como ela, não estão sabendo bem como é que vão fazer para melhorar as coisas. Eles já compreenderam que uma pessoa só, uma família só, pouco o nada pode fazer, mas que muito unidos, por mais fracos que sejam um por um, ficam fortes quando se juntam. Os problemas de dona Maria estão sem resultado ainda.

Mas quem passar amanhã à noite por um lugar chamado Assa-peixe, vai ver um terreiro onde um grupo de pessoas está reunido e conversando. Se for possível ouvir o que eles conversam, vai ser fácil saber que eles estão buscando o caminho da união, para juntos enfrentarem a luta de dona Maria, que também é a luta deles todos, de todos os pobres.