As amizades podem ser representadas graficamente como uma imagem estelar, cujas pontas são desiguais, e muito desiguais. Em certos momentos da vida, temos a impressão de que as amizades são algo uníssono, niveladas, iguais, eqüidistantes do núcleo daquele gráfico estelar, cujo centro representa o sujeito da amizade e cujas pontas representam seus objetos. Então, promovemos um encontro e convidamos todos os amigos do nosso círculo, uma festa povoada, animada, mas superficial, em que caberia seguramente qualquer pessoa, conhecida ou desconhecida, que tivesse um mínimo ponto de contato com mais alguém ali presente. Não é preciso que haja uma espécie de mmc  que interligue e aglutine a totalidade dos presentes. Ao final, entretanto, a frustração daquele suposto, desejável, mas inexistente mmc, que interligasse e aglutinasse a totalidade dos presentes, será maior do que a satisfação do encontro. De fato, o encontro não terá ocorrido, senão em caráter superficial e fragmentário. Isto provavelmente porque os amigos convidados para o encontro não seriam pontas eqüidistantes, da estrela gráfica, umas das outras e mesmo do sujeito nuclear que teria promovido o encontro. É o tipo do evento que em si não favorece a comunicação dos mundos interiores, comunicação esta que caracteriza, possibilita e alimenta as amizades.

Assim, tenho para mim que as amizades podem ser graficamente representadas pela tal estrela de pontas irregulares. Em o núcleo estou eu, o sujeito das amizades. Em cada extremidade está cada um dos objetos das respectivas amizades.

Do mesmo modo como as pontas do gráfico são desiguais, não eqüidistantes ao núcleo e não eqüidistantes entre si, as amizades também o são. O nível de comunicação dos mundos interiores, a permissão mútua de penetração, o grau de compartilhamento, tudo isto varia, sem que propriamente descaracterize a amizade como tal.

Somos os papéis que desempenhamos, ou melhor e mais apropriadamente, somos o modo como desempenhamos nossos papéis, de tal forma que não podemos ter unissonância no desempenho de todos os papéis. Esta suposta perfeição não é humana. Pode até ser mecânica, pode até aplicar-se a u’a máquina ou mesmo a alguém adestrado, uma pessoa ou um animal por exemplo, cujo adestramento tenha inibido tanto a própria espontaneidade, que a pessoa, comportando-se tão padronizadamente como um animal adestrado, perca sua própria identidade.

É usual confundir-se uniformidade de reação, previsibilidade de comportamento, portanto, com aquilo que se diz de ter personalidade. Seria ter personalidade comportar-se sempre do mesmo jeito, em toda e qualquer circunstância? Isto me parece um equívoco ou uma falácia.

Nossa conduta, embora ditada por nosso senso crítico, ético, por nosso caráter, não pode nem deve ser a mesma conduta, sempre previsível, frente a cada circunstância, em sua multiplicidade e dessemelhança. Enfim, a reação humana adequada vai ter sua especificidade, a depender da circunstância e do papel ou dos papéis que estejam sendo, também adequadamente, desempenhado ou desempenhados.

As relações de amizade são desiguais, como desiguais são os mundos solipsistas de cada pessoa. Abrir-se com mais ou menos reserva para dar-se a conhecer pelo outro é mais difícil quanto mais difícil é o caminho para o auto conhecimento. E a amizade, tal como estou referindo, implica em avançar-se a mais e mais no auto e no hétero conhecimento, na medida em que cada uma das aprofunda e estreita os laços. Isto não é uma atividade enfaticamente intelectual, mas também o é, porque uma das vias do processo de conhecer-se é o uso da razão, embora a razão frequentemente nos pregue peças. E por que isto? A trilha do auto conhecimento passa pela resolução do enigma d’aquilo que nos vive e que nos surpreende tantas vezes, em nossos sonhos, em nossos lapsus e em nossas parapraxias.

Tirar as máscaras é algo fundamental na construção e no cultivo dos laços de amizade. Amigo é quem procura ser verdadeiro para o outro. E só sou verdadeiro para o outro, se sou verdadeiro para comigo mesmo. Necessariamente, não é amigo aquele que agrada, aquele que é complacente, aquele que é tolerante, aquele que elogia. Nem mesmo aquele que protege, que defende, que supre, que auxilia é necessariamente amigo. Mesmo quem sacrifica sua própria vida para salvar a vida de outrem necessariamente é amigo.

Não estou afirmando, nem o poderia fazer, que o amigo não é agradável, não é complacente, não é tolerante, não elogia. Nem estou dizendo que amigo não protege, nem  defende, não supre, nem auxilia. O que estou dizendo é que o amigo, faça o que fizer, seja verdadeiro. Mais amigo é o inimigo verdadeiro que o amigo falso, por mais paradoxal que pareça.