Escute o Prosa & Verso 010

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Músicas tocadas neste programa:
djarunami – galo bedjo
elis regina, o rancho da goiabada
ari cléber, toda manhã, de jadson gama
lira morrense & minerva, dois corações, dobrado composto por pedro salgado

Pessoas que moram em nossa mesma cidade, às vezes em nossa vizinhança, passam despercebidas. Cada um de nós está cuidando de sua vidinha. Farinha pouca, meu pirão primeiro. É o que dizemos para nós mesmos e para os outros. E assim, cada um defende seu próprio espaço e até aí, não vejo problema.

O problema começa quando cada um defende apenas e tão somente o que imagina ser seu próprio espaço. Acontece que existem interesses que não são limitados a uma pessoa, ou a uma família, mas que são coletivos, interesses comunitários, interesses sociais.

A gente pensa e age como se o que acontece com um vizinho, com um conhecido, com um outro morador da mesma cidade, nada tivesse a ver com a gente.

De certo modo, as estórias de cada pessoa são diferentes das nossas, mas diferentes em uns aspectos, porque em outros são iguaizinhas. Aliás, há quem tenha feito amplas observações das histórias dos homens e que chegue a dizer que existem apenas algumas histórias humanas que se repetem e se repetem sempre. Acredito até que seja assim mesmo. Suponho que as estórias sejam até muito parecidas, não são as mesmas, mas são iguais. O que realmente diferencia é o modo como cada um vive, sente e reflete a sua própria experiência. Por exemplo, uma gravidez é uma estória que ocorre com um sem-número de mulheres. Entretanto, a vivência da gravidez, para cada uma, varia tanto que chega a constituir-se desde uma imensa alegria até um terrível desgosto, com toda a graduação que possa existir entre os dois extremos.

Pois, estou falando de uma estória entre mil, a estória que ocorreu a Sandoval, que é morador de Morro do Chapéu. Vou chamar as pessoas com nomes diferentes, para que não possam ser identificadas.

Sandoval nasceu e se criou por aqui. Conheço bem o irmão de Sandoval, que se chama Bruno. Por isto, sei deste caso que aconteceu com ele. É um rapaz solteiro, de seus vinte e seis, vinte e sete anos de idade.

No mês de maio, Sandoval estava sem trabalho e soube de um ônibus, que estava aqui na região, recrutando gente para ir trabalhar na colheita do café em Minas Gerais.

O transporte, por conta da própria empresa agrícola, uma grande fazenda que exporta café para os Estados Unidos, foi lotado de gente, incluindo Sandoval, até o sudoeste de Minas. Chegando lá, sua carteira foi assinada com base num contrato que estipulava o pagamento de um salário mínimo e mais uma comissão pelo que colhesse no mês.

Pelo contrato, devia trabalhar também domingos e feriados, e por isso deveria receber horas extras. Sandoval ficou no alojamento na própria fazenda, juntamente com os outros contratados e as refeições foram fornecidas pelo empregador ou alguém por ele autorizado. Segundo me contou o próprio Sandoval, a bóia era precária e o feijão continha salitre, diz ele que para inchar e render. Acha que era salitre, mas não tem certeza. Um rumor entre os trabalhadores dizia que também era adicionada alguma coisa à comida pra diminuir o desejo sexual, pois não era permitido, de jeito nenhum, ter contato com mulheres.

Depois de se instalarem, os peões foram informados de que teriam que pagar o transporte, a comida, uma taxa de luz e de água, além de pagar pelo rastelo, uma ferramenta agrícola usada na colheita do café.

Deste modo, cumprido o primeiro mês, Sandoval fez os cálculos do seu ganho, que, somados o salário e a produtividade, ficou em 500 reais, porém quando recebeu o cheque, este veio no valor de 7 reais e 50 centavos.

Não era pra menos que Sandoval e vários outros ficassem na pior e pensaram em voltar, mas o encarregado alegou que eles estavam presos ao contrato e que o contrato só terminava no momento em que a colheita acabasse, durasse quanto durasse.

Um peão quis engrossar, mas levou uma surra dos homens que estavam a serviço do empregador e se diziam policiais.

Finalmente, após o término da colheita que durou três meses, Sandoval não tinha saldo suficiente para voltar pra casa. Para isto, teve que vender um aparelho de som que tinha comprado aqui, antes de viajar. O tal aparelho de som ainda está sendo pago até hoje, pois foi comprado a prestação.