Escute o Prosa & Verso 011

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Músicas tocadas neste programa:
duda valverde - meu nome é cráudia
ney matogrosso - yes, nós temos banana, de braguinha
filarmônica lira morrense - delira, de jomarito guimarâes

Uma vez, faz alguns anos, estive na casa de dona Hermínia, lá na fonte dos pretos. Não sei se vocês conhecem alguma dona Hermínia, mas esta de quem estou falando é uma que é lavadeira. Tem sete filhos e mora pertinho da fonte dos pretos. Dona Hermínia é forte, acho que de tanto trabalhar como lavadeira, esfregando roupa grossa, uns cobertores de lã tão bonitos da patroa que ela nem nunca sonhou ter igual, a calça jeans de júnior, o filho da patroa, que tem u’a moto. De esfregar as cortinas lindas, os dedos e as mãos de dona Hermínia se ferem toda semana, mas os braços ficam fortes. Fortes pra dar de comer aos sete filhos. Fortes para tomar conta da casinha, quase um barraco, que o companheiro abandonou faz quase um ano, quando dona Hermínia engravidou a vez caçula.

E agora ela está só, com os filhos, o marido está no mundo, talvez com outra mais nova por aí, nem dá notícia, nem pede notícia. Isto eu já estava sabendo, mas dona Hermínia tornou a falar. Também ela já tava avisada de que homem é assim mesmo, nada pega em homem. Mulher é diferente. Dona Hermínia acha que afinal quem tem de ficar cuidando dos meninos é ela, que é mãe e é mulher.

- Home num pega barriga. Home nun sofre dor de parir. Home nun fica dende casa pra ouvir chororó de menino cum fome. Vai pra rua caçar trabalho ou pras venda beber e prosar com os amigos. Contar vantagem das muié que arranja e que engana. Nóis não. Nóis sofre seus maltratos e tem de calar, porque home é quem trabalha fora pra arranjar de comer. É quem resolve os problemas. É quem sabe onde arranjar um dia pra dar. Abaixo de Deus e dos doutor, é o home quem dá o remédio se um filho adoece… Num vê assim? – continuava dona Hermínia, mostrando os dentes alvos, tão próprios de sua forte raça – Num vê assim? Tem quase um ano que ele foi simbora, né? Apois, se ele vortá, o que é que eu posso fazer? Abrir a porta e mandar entrar… Eu tenho uma vizinha ali – apontou para a baixada lamacenta perto do casebre. Ela chama Tereza. Tem doze anos que o marido deixou ela com os filhos. Ela nunca mais quis saber dele. Eu acho que ela faz bem de não querer mais ele. Mas, eu mesma não tenho coragem de fazer isso não, porque meus filhos é tudo pequeno e se ele estivesse aqui, era quatro braços pra dar de comer à filharada. Com ele fora, é só meus dois braços. E o pior é que trabalho de home vale mais. Num vê? Uma trouxa de roupas só me dá 10 reais e a patroa ainda acha caro. No dia da feira, dá vontade de chorar. No começo, eu chorava. Chorava eu e os meninos. Chorava tudo. Agora, não. Os menino chora ainda, mas os meus olhos secou…

De repente, como que se acordasse, como que se percebesse que afinal eu nada tinha com aquilo tudo, dona Hermínia desconversou. Creio que na verdade, ela se achou fraca de ter aberto o peito, de ter desabafado tanto, logo comigo. Dona Hermínia desconcertou, fingiu que ia olhar a água do feijão e passou a falar do comício que teve perto de sua rua. O comício era a festa ali. Ela falou – e eu sorri – que aqueles homens todos, não satisfeitos, prometendo tanta coisa, donos do mundo, donos da vida, dono da sina, tinham tanta certeza das coisas, sabiam de tantas coisas… Ela perguntou se eu era político, se estava fazendo campanha para alguém. Ela me olhou desconfiada. Suspeitou. Dona Hermínia estava escaldada dos homens.
O companheiro que a oprime e abandona, o político que lhe promete e estimula vãs esperanças, que também a oprime e abandona após as eleições para voltar daí a dói anos… Arrisquei a perguntar:

- E a senhora, dona Hermínia? Já tem candidato? Eu, por enquanto, não estou com ninguém. A senhora me indica um?

Ela me olhou grave, sorriu discretamente, deu um muxoxo, mostrou os dentes e deu uma risada. Sorriu com vontade. Deu uma gargalhada tão gostosa e ficou dobrando a gargalhada, até me encabular…