Seg 19 Nov 2007
INTELIGÊNCIAS
Categoria: Prosa | Por Jorge RochaFala-se muito ultimamente da inteligência emocional.
Suponho que seja possível qualificar quatro tipos de inteligência:
a intuitiva, natural, básica, a emocional, a cultivada e, finalmente, a crítica.
Não saberia dizer se é ou não apenas uma questão de gradação, pois a faculdade cognitiva conhecida como inteligência é uma só, a natural, e provavelmente todas as outras sejam apenas qualificações desta, a depender do desenvolvimento frente a fatores culturais, circunstanciais ou mesmo subjetivos. Mas que há apenas uma faculdade, há.
Faz tempo que percebi que uma pessoa com inteligência fronteiriça não consegue uma elaboração crítica, o que implica uma lacuna ética no próprio caráter. A observação que fiz na década de 80 tem-se confirmado ao longo dos últimos vinte anos, ao acompanhar, mesmo sem qualquer sistematização, o comportamento de pessoas com limitação intelectiva borderline.
Por outro lado, pessoas inteligentes, talvez até superdotadas intelectualmente, ficam muitas vezes em nível intuitivo, sem qualquer acréscimo. São pessoas que se distinguem sobretudo na infância e adolescência, ganham medalhas, conseguem tirar notas altas em todas as matérias, mas que posteriormente, quando chegam à idade adulta, têm um comportamento emocionalmente imaturo ou pueril, são dependentes e incapazes de resolver minimamente suas ingresias afetivas, vocacionais e mesmo relacionadas com a vida prática.
Outras mais atingem um nível de erudição invejável, destacam-se como professores, fazem carreira universitária, mestrado, doutorado, pós-doutorado, mas não conseguem dar um salto qualitativo e todo o seu aprendizado, seu conhecimento, embora recheado de re-criações, permanecem estéreis, do ponto de vista social. Publicam, mas suas publicações vão apenas compor estantes e santuários de academia. Tornam-se flagrantemente tolas do ponto de vista social e político, sem condição de aplicar sua bagagem intelectiva, seu acervo de saberes às pequenas ocorrências do dia-a-dia da vida. Suas vidas não têm a qualidade desejável, apesar de todos os ricos instrumentos de que dispõem. Esta última plataforma da escada é a inteligência cultivada ou culta.
A inteligência crítica é aquela que concatena todas as informações que pôde colher, elaborar, transformar, re-criar e mesmo criar, articula-as entre si e se devolve a si mesma como qualidade de vida. A inteligência crítica pode ter consequências sociais e políticas.
Pafraseando Einstein, vale mais ser crítico do que informado. A criatividade e a crítica são mais importantes do que um mundo de informações desarticuladas.
Quem tem consciência crítica é persona non grata nos meios hipócritas.
Data do artigo: Segunda-feira, 19 dAmerica/New_York Nov dAmerica/New_York 2007 às 11:11 am | Categoria : Prosa | Deixe um comentário
Deixe um comentário
Efetue o login para escrever um comentário.
Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.