Escute o Prosa & Verso 014

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Músicas tocadas neste programa:
gilberto gil - está na cara
chico buarque - construção
danúbio azul - uma valsa de strauss
chico buarque - valsinha
grupo cascata de saudades - saudades, de alvino valois

Antes dessa trovoada, tava tudo seco, tudo triste. Mas, quando a chuva começa a cair, os tanques a encher, a terra a molhar, logo, logo a gente esquece da seca que tava.

Pois, foi quando o sol torrou essas areias daqui do tabuleiro e a barra do natal não veio, como canta Luís Gonzaga, que o filho caçula de Virgínia teve que partir pra Salvador, trabalhar na construção civil. Servente. Com seus dezoito anos, acostumado a dar duro, foi com coragem levantar prédios e construir escolas, lá na Capital pra ajudar a família que na roça tava tudo feio.

O irmão, um ceguinho sanfoneiro, talvez tenha dedilhado a Triste Partida que Luiz Gonzaga canta, quando caçula foi embora. Foi embora, quer dizer, foi pra trabalhar na cidade enquanto as águas não chegavam, pra ele voltar pra roça.

Quarenta dias depois, voltou. Não caçula alegre como era, forte e trabalhador, brasileiro, bem brasileiro, brasileiro de raça. Este não voltou não. O que veio foi a notícia ruim. O andaime despencou e caçula já caiu sem vida, em mais um acidente de trabalho. Ele fazia parte de uma comunidade, perto daqui. Morreu, os amigos lamentaram, os familiares choraram… E, como a seca, daqui a uns dias, alguns acabam esquecendo sua morte, em um acidente de trabalho, que morreu na luta. Acabam esquecendo como esquecidos estão da morte de Dário, de uma outra comunidade vizinha, que curiosamente morreu há algum tempo, também de acidente de trabalho, também na mesma firma, também na mesma ocupação.

Lá se foi caçula, lá se foi Dário, lá se vão por este Brasil afora, muitos caçulas e muitos Dários, que entregam suas vidas, em troca de quê?

Enquanto isto, as condições de aperto e insegurança dominam as vidas do trabalhador, que é quem produz a riqueza deste país