Qua 28 Nov 2007
Prosa & Verso 015 (PARTE 01) - DIA DE QUASE TUDO
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Músicas tocadas neste programa: |
Você sabia que hoje é o dia do soldado desconhecido?
O soldado desconhecido é todo aquele que morreu lutando em campo de batalha, mas que não foi identificado para que se lhe rendessem as homenagens de um enterro cívico, como convém a quem presta serviços à Pátria. Esta parece uma homenagem justa, embora a guerra não seja, em geral, algo que se possa chamar de justo.
Entretanto, como a folhinha está cheia de datas dedicadas a isto e àquilo, vou tecer algumas considerações a respeito.
A começar pelo dia 1º de janeiro, o dia da confraternização universal. Um blefe, porque confraternização universal mesmo só existe no fingimento ou na ilusão dos crédulos. Suponho até que a existência de um dia de confraternização universal só tenha por objetivo lembrar às pessoas de todo o mundo que a humanidade deveria ser, repito DEVERIA SER, porque não é, uma grande família de irmãos, tendo deus por pai. Isto é o que significa a palavra CONFRATERNIZAÇÃO. Vendo e ouvindo os noticiários, estou convencido de que é portanto um blefe. Que irmãos são esses que se comportam como lobos, como feras uns com os outros?
Só no mês de novembro, que já está terminando, existem dias de finados, de todos os santos, dia do inventor, da ciência, da cultura e do cinema nacional, do manequim, dia do supermercado, dia do diretor de escola, da proclamação da república, dia da bandeira, da homeopatia, do músico, dia do doador de sangue, do soldado desconhecido que é hoje e dia do migrante, que é amanhã.
De vez em quando um magote de pessoas vai às ruas protestar contra a carestia ou contra a violência ou contra a corrupção, contra a dengue, contra a hipertensão, o câncer, o diabetes.
Acho curiosos esses dias dedicados a protestos contra fantasmas.
Imagino que deve haver dia dedicado à luta contra o mau agouro, contra as tentações do diabo, contra o roubo e a roubalheira , contra o pecado, contra o sexo e contra a virgindade, dia dedicado ao protesto contra o ateísmo, contra a superstição, contra o comunismo, o capitalismo, o democratismo, o psicologismo… Tudo fantasma.
Provavelmente daqui a um tempo teremos o dia dedicado à luta contra a sem-vergonhice, contra a sujeira, contra a doença indistintamente, seja ela qual for, contra a avareza, a ganância, a arrogância e um dia contra a vaidade, outro dia contra a feiúra, outro contra o desemprego.
E pode continuar sem fim a lista de fantasmas.
Eu me refiro a tudo isto como fantasmas, porque em si são abstrações, portanto intocáveis. Por exemplo, lutar contra doenças.
Isto é uma coisa abstrata. Não se pode lutar contra doenças. Não se pode lutar contra fantasmas.
E todo mundo é, aqui e ali, convocado a lutar contra eles.
Lutar mesmo, só se pode é contra os fatos, os atos, as coisas e as pessoas. Pode-se protestar contra comerciantes especuladores, mas não contra a carestia. Contra os contrabandistas, mas não contra o contrabando. Contra os corruptos, mas não contra a corrupção. Contra os traficantes de drogas e também os lobistas, os traficantes de influência, mas não contra o tráfico. Contra os profissionais negligentes, policiais autoritários, juízes venais e tudo o que de fato existe e por aí vai.
Pensem no caso da doença e da saúde. Ambas são situações, mas não são coisas. Não se pode pegar uma doença e encaixotar, prender numa jaula, numa cadeia, para que ninguém mais adoeça.
O que se pode fazer e se deve fazer é lutar por aquelas coisas, atos e fatos, que tornam possível o gozo da saúde: água apropriada para beber e usar, alimentos, roupas, casa pra morar, eletricidade para todos, saneamento básico, higiene nos mercados, nas feiras, nos açougues, nas lanchonetes, geração de emprego e oportunidades de trabalho e de laser para todos e para que todas as pessoas tenham igual acesso à assistência médica e ao saneamento, que aliás, como a educação e a segurança, são atribuição do estado, do poder público, representados pelo governo federal, estadual e municipal. É assim que está na Constituição que rege o funcionamento do país. Isto significa lutar contra ou a favor do que de fato existe, coisas, pessoas, condições materiais, porque essas coisas, pessoas ou condições materiais é que estão impedindo ou propiciando nosso bem-estar
Protestar contra aquilo que não é real é perda de tempo, é enganar-se a si e aos outros. É gastar energia para nada e ficar na ilusão. É como ficar deitado em uma rede, pensando em construir uma casinha ou fazer uma roça. Por menor que seja a casinha ou a roça, vai precisar do movimento das mãos, do trabalho, da ação de quem quer construir ou plantar. Se alguém ficar deitado na rede, achando que o querer construir a casa é suficiente para que a casa saia do chão, e se realize, vai ficar chupando dedo, a não ser que bote os outros para fazer por ele, para trabalhar por ele e, neste caso, certamente terá de pagar. Só a ação constrói. Este negócio de querer é poder é uma balela, se não passarmos do pensamento, da abstração à prática.
Não me recuso a admitir que o pensamento realimenta a ação, mas também não posso negar que a ação é que constrói tudo o que for material.
Eu sei que há pessoas, pessoas em geral simplórias, que acreditam no pensamento positivo, acreditam que de tanto desejar alguma coisa a obtêm, sem precisar mover uma palha.
A essas pessoas é que se destinam os dias consagrados aos protestos ocos, quando os protestos, os movimentos, as reivindicações deveriam dirigir-se às coisas, às pessoas e aos fatos reais. Quero dizer, em vez de manifestações contra a violência, tais manifestações deveriam ser feitas por melhor policiamento, por melhores condições de trabalho, por melhor desempenho das escolas, seja da parte dos alunos, seja da parte dos professores, seja da parte do poder público que mantém as tais escolas.
Data do artigo: Quarta-feira, 28 dAmerica/New_York Nov dAmerica/New_York 2007 às 4:16 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.