Escute o Prosa & Verso 015

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Músicas tocadas neste programa:
beth carvalho - meu guri, de chico buarque
elis regina - romaria
rolando boldrin e chico buarque - minha história
engenheiros do hawai - 3º do plural
gabriel o pensador - até quando

Com certeza, vocês também conhecem Marlene.

Conhecem pelo menos com outros nome…

Ela me apareceu, vindo de Paulo Afonso, trouxa na mão, inocência na outra.

Nas mãos, tinha calos, aquelas mãos grossas, De quem trabalha, de quem produz; cabo de enxada é seu velho amigo, roupa pra espremer, companheira velha…

- Apois, tô aqui tão longe… Tão longe dos véio meus pai… Apois, meu branco, os véio ficou lá em Paulo Afonso, ficou pensando, cum toda certeza, que a fia deles ia miorá, pra ajudá eles…

Que aconteceu, enfim, com Marlene?

- Foi um patriço, seu moço, um patriço meu. Ele foi lá e me trouxe, pra servir na casa dele.

E assim foi: o conterrâneo de Marlene mora em Feira de Santana, tem fazenda em Paulo Afonso e viaja de quinze em quinze dias, para ver como anda o gado, para ver se os empregados estão aumentando a sua riqueza.

Foi numa dessas viagens que ele trouxe Marlene, filha de um velho vaqueiro.

Marlene, 17 anos incompletos, calos nas mãos, o rosto inocente, menina ainda, pra trabalhar de doméstica, em Feira de Santana, sem carteira assinada, sem direito a nada, ganhando 60 reais por mês.

Então perguntei: E a mulher dele?

- Moço, disse Marlene, a sinhá dona me maltratava, sim. Foi muito bruta comigo, sem paciênça, num sabia me insiná. Quando eu fazia quarqué coisa errada, ouvia o diabo, ouvia o diabo da patroa. Moded isso, só fiquei lá uma semana.

Na casa dos patrões, havia um pedreiro construindo um muro no jardim. Marlene falou com ele, pediu-lhe para arranjar um emprego pra ela, que já não agüentava mais. É o que ela contou.

- Falei cum ele. Nóis converso argu’as vez. Aí ele me jogou as palavra e me trouxe pra morá cum ele, qui a casa dele é pertim daqui da casa do sinhô.

Marlene ficou com o rapaz que era pedreiro, em sua companhia, durante quatro dias. No quinto dia, o pedreiro disse a Marlene que a natureza dele estava muito amarrada com ela e que por isso ela arrumasse sua trouxa e pegasse a pista.

Foi nestas circunstâncias que Marlene me apareceu, contando o que lhe tinha acontecido.

Então fiquei pensando. A questão agora é saber:

Afinal de contas, que é que vai acontecer com Marlene?

Que é que vai mesmo acontecer com ela?
17 anos incompletos, da roça, sem dinheiro, sem trabalho, sem ter pra quem apelar, numa cidade como Feira de Santana…

Ora, que importa que tenha acontecido em Feira de Santana? E se fosse em outra cidade, uma cidade como esta onde você mora?