Escute o Prosa & Verso 016

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Músicas tocadas neste programa:
elis regina - aprendendo a jogar
chico buarque - tanto Mar
eugênia melo e castro - os argonautas
granada
delida e alain delon - parole, parole
the beatles - a hard day’s night
paulo diniz - vou embora

Ninguém pode negar que a cultura física, a prática de esportes, as artes marciais, são excelentes atividades que ajudam a preservar a saúde, mas que deveriam ser praticadas com o objetivo de fortalecer sobretudo a vontade e disciplinar o corpo e a mente e não apenas limitar-se à cultura física.

Aliás, se na boa prática do exercício físico bem orientado, dos esportes e das artes marciais também orientada por um mestre competente e maduro, quem mais se favorece é o caráter, do mesmo modo a cultura física narcisista e fanática, empobrece o espírito, que se torna vaidoso, irascível e intolerante e muitas vezes truculento.

Conheci pessoas que aprenderam, na prática das artes marciais, a domar seus impulsos, a tornar-se calmos, a conter seu ímpeto violento. Mas também conheci muitos que foram estimulados à competição apenas pela competição, sem outro objetivo senão ganhar. Gente que quando sofre uma derrota fica frustrado, fica arrasado e desconta nos mais fracos toda a sua incapacidade de superar a perda. São pessoas complexadas, que não admitem também receber críticas e muito menos repreensões na vida.

A cultura física é boa, mas a cultura da alma, da mente, do psiquismo, do espírito, como vocês preferirem chamar, sobretudo a cultura do caráter, é muito melhor. Uma frase bíblica, que está ali nos evangelhos, atribuída àquele Jesus de Nazaré, alerta que não é só de pão que vive o homem. E até que às vezes o pão chega a ser indigesto. Aliás, no Império Romano, os governantes eram pródigos em distribuir pães e espetáculos, quando pretendiam acalmar os descontentamentos do povo. Panis et circences, diziam eles. Tapeação, esmolas. Não passam de esmolas. E com isto, ou seja, com banana e bolos é que se enganam os tolos, como se dizia no tempo dos nossos pais.

E assim vamos, Vivendo e aprendendo.

E como vivendo e aprendendo estamos, há umas duas ou três semanas, fizemos neste programa uma viagem musical pelas Américas. Hoje vamos fazer um roteiro pela parte oeste da Europa, começando por Portugal, uma espécie de porta da Europa, porque fica no ponto mais ocidental do continente, o que dá uma proximidade maior para com o Brasil, além da língua que é a mesma e dos costumes que são bem parecidos.

Portugal viveu recentemente mais de 40 anos sob o poder do ditador Antônio Oliveira Salazar, de orientação fascista, regime do qual esse país se libertou na década de 70, do século passado, pela chamada Revolução dos Cravos.

Chico Buarque homenageou o movimento democrático português, através desta canção que vamos ouvir e que se chama Tanto Mar.

Mas, estamos em Portugal e vamos escutar também um fado, que é a sua expressão musical mais típica. A frase navegar é preciso, viver não é preciso, tão famosa tão pouco compreendida, teria sido o lema da escola de Sagres, a legendária escola de navegação, que ficava no extremo sul de Portugal. A letra e a música são de Caetano Veloso, brasileiro da Bahia, mas o ritmo é português, é um fado. E a intérprete é portuguesa e se chama Eugénia Melo e Castro.

Portugal é, digamos, parede e meia com a Espanha. Vamos passar então a esse país vizinho, a Espanha, que também viveu seus dias tristes de ditadura, também fascista, do chamado Generalíssimo Francisco Franco. O título de general pareceu pouco, para tanta sede de poder.

A ditadura de Franco se instalou a partir da sangrenta guerra civil espanhola, de triste memória, tão triste que os espanhóis se recusam a lembrá-la e muito menos comentá-la ainda hoje, já distante há mais de 60 anos.

Apesar de tudo, o regime de força não conseguiu matar a alegria do povo espanhol, uma gente bem humorada, rica em cantos e danças. Durante vários séculos, A Espanha viveu sob o domínio dos Árabes e muitos aspectos de sua cultura estão marcados pela influência desse curioso e admirável povo.

Se viajarmos pela Espanha, em direção ao norte, vamos nos deparar com os Pirineus, uma cadeia de montanhas, que separa o território espanhol do território francês. Transpondo os Pirineus, estaremos no sul da França e, uma vez na França, não vamos perder a oportunidade de ouvir Delida e Delon interpretando Parole, parole. Vejam como é bonita a canção e como é tocante a interpretação dos dois. Quem canta é Delida e quem fala é o ator Alain Delon.

Agora que cortamos a França de sul a norte, vamos atravessar o Canal da Mancha, porque nossa viagem é uma viagem relâmpago e musical.

Passando o Canal da Mancha, que é um braço do mar, chegamos à Inglaterra, onde vamos ouvir os Beatles, cuja música se chama se chama A hard day’s night.

A viagem musical de hoje vai parar por aqui, na Inglaterra, mas numa dessas quartas-feiras a gente retoma, usando a imaginação e o embalo das músicas para viajar por outros países, dessa vez da Europa Central.

Vamos voltar para o Brasil, pra nossa Bahia, pro nosso Morro do Chapéu, cantando com Paulo Diniz Vou embora.

Estamos de novo aqui no Morro. Ali na rua, em sua bicicleta, com seu bagageiro cheio de ferramentas, ele passa, sempre bem humorado. E lá vai ele pelas ruas de Morro do Chapéu.
Seu nome é José Milton Nascimento de Santana e está sempre a socorrer as pessoas que têm problemas com seus fogões, com suas panelas, com seus ferros de engomar, com seus eletrodomésticos.

Mora no bairro da Pedra Grande, é casado, tem três filhos, o maior com 12 anos, que já está aprendendo o ofício do pai.

Pois agora estou trazendo uma entrevista com Zé Milton, trabalhador morrense, que vive às custas do seu próprio trabalho. Não tem patrão, mas tem trabalho que dá sustento a ele e à sua família.

Este é José Milton, fazendo sua parte na comunidade, dando seu exemplo de como é possível ser um cidadão decente, manter sua família com um trabalho útil e honesto.

Embora seja comum achar-se por aí que vencer na vida é ganhar um bocado de dinheiro, ter poder e ter pose e status social, mesmo que consiga tudo isto explorando os outros, trambicando, trapaceando, com vivaldice e desonestidade, ainda existem pessoas bem perto de nós, que são corretas, decentes, honestas e trabalhadoras e que demonstram que isto, sim, é vencer na vida, tornar-se cidadão direito, viver às custas de seu próprio trabalho, ser honrado.

Afinal, o que fica depois dos anos fugazes da existência é a consciência tranqüila, a paz interior e, no máximo, a lembrança que deixamos para aqueles que queremos bem.