É preciso uma dose significativa de crença em Deus, em um Deus eterno e na nossa conseqüente imortalidade d’alma, para fazer o que Dom Frei Luiz Cappio, bispo de Barra do Rio Grande, está fazendo: uma greve de fome até a morte.

E é preciso muito cinismo para fazer o que o padre, aquele do Paraíba, com o apoio do seu bispo, está fazendo: uma greve de fome contra a greve de fome do Dom Cappio. Passa pela minha vontade também fazer uma greve de fome também. Desta vez, em protesto à greve de fome do padre oportunista e cínico, que faz greve de fome contra a greve de fome do Frei Luiz Cappio. Uma cadeia, uma cadeia sem fim. Achei que eu seria o último dos idiotas nesta cadeia, mas hoje resolvi ler O Correio da Cidadania e me deparei, para minha surpresa, com dois artigos que falam da minha indignação, com os quais está afinada a minha visão, o meu mundo e, talvez, a minha fé. Única diferença: meu deus morre comigo. Nem ele é eterno, nem eu imortal.

Única vida, para mim, esta que me permite estar aqui pensando e escrevendo, não me sinto à vontade para encerrá-la em nome de uma causa tão real como esta do projeto de transposição das águas do São Francisco. Suponho que a vida do Dom Frei Luiz Cappio pertence a ele, somente a ele e ao seu Deus. Minha vida, única e exclusiva, a mim me pertence e só a mim e ao meu deus. Por concessão, eu a compartilho com os outros mortais a quem amo, minha companheira, os filhos, os amigos. A ninguém mais interessa se eu vivo ou morro. Penso que devo suicidar-me a qualquer momento que o deseje, se assim o desejar. Mas não deixo de admirar o bispo de Barra que, tendo sua crença inabalável num Deus eterno e numa alma imortal, é absolutamente coerente com o que crê e assim se torna fiel, não a deus, o abba-acaso, o meu deus, mas ao seu Deus, um ser espiritual infinitamente perfeito, criador e redentor de todas as coisas, eterno, isto é, sem início e sem fim, também infinitamente bondoso e imutável. E sobretudo fiel a si mesmo, a maior das coerências.

No site Correio da Cidadania, encontrei hoje um artigo escrito por Guilherme Costa Delgado, que é doutor em economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, donde pesquei os parágrafos abaixo:
“É a atitude ética de quem se dispõe a doar a própria vida por uma causa em favor da parte mais sofrida e esquecida da nação brasileira. Isto incomoda, porque transcende em muito uma discussão estritamente técnica de um projeto de obras públicas.
A discussão em torno do gesto de D. Luiz situa-se fundamentalmente no plano ético. Neste plano, o projeto técnico da transposição e as alternativas sugeridas por D. Cappio precisariam ser julgados sob o critério da destinação universal de um bem público extremamente escasso no semi-árido - a água, acessível a todos, mas preferencialmente aos mais pobres. Quando se tangencia este critério, para a erigir a obra técnica em si, sua construção em estilo faraônico e uma rede de interesses privados poderosos no seu entorno, seria muito ingênuo supor que esta não fosse mais uma repetição da velha estratégia de obras públicas ‘contra as secas’, recalibrada agora com verniz da modernidade do agronegócio brasileiro.
Consciente da impossibilidade de diálogo (até o presente), pela absoluta intransigência do poder civil e insensibilidade de setores ponderáveis do poder religioso, restou a D. Cappio o gesto extremo de colocar sua própria vida em doação.”
Não que a auto-imolação do bispo vá tocar o coração dos poderosos, mas certamente tocará o coração dos que com ele compartilham a crença e a fé [porque fé e crença não são sinônimos]. Isto, olhando apenas do ângulo ético, mesmo sem levar em conta que “dos 260 milhões de hectares irrigados no mundo, 80 milhões estão salinizados, particularmente nas regiões áridas e semi-áridas. Dos 11 projetos de irrigação analisados pelo Banco Mundial no Nordeste Brasileiro, sete são deficitários e muitos inviabilizados pela salinização.” E sem levar em conta que “Hoje, a agricultura irrigada é responsável pelo consumo de 70% da água doce utilizada no mundo. Portanto, manejar a água nos dias de hoje é absolutamente diferente de 50 anos atrás quando Lula era menino, ou 150 anos atrás quando D. Pedro era imperador.  Entretanto, chamar as corporações técnicas, as empresas e os governos à luz da razão, pelo que parece, nem com greve de fome até à morte.”, como escreveu, também no Correio da Cidadania, o coordenador da CPT, Roberto Malvezzi.
Afinal, diz ainda Guilherme Costa Delgado, no mesmo artigo, “agora estamos no século XXI e um gesto profético como o de D. Luiz Cappio não deveria produzir morte, abandono ou marginalização; mas, ao contrário, despertar a sociedade e o seu governo para cuidar dos pobres do semi-árido nordestino de maneira exemplar, com sentido de justiça, amor à natureza e pleno respeito a uma outra maneira de fazer política de desenvolvimento. É o momento de colocar nossas posições pois, se benditos são os mártires, maligna é a sociedade que por ação ou omissão produz mártires.”