Escute o Prosa & Verso 018

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Músicas tocadas neste programa:
boas festas - de assis valente

Estamos em tempo de natal. Como todos sabem, costuma-se comemorar o aniversário de Jesus, embora ninguém saiba a data em que ele de fato nasceu. O dia 25 de dezembro foi escolhido como sua data aniversária, porque na Europa é o período em que começa o inverno e os povos antigos, com seus antigos costumes, faziam uma festa para celebrar a fertilidade da terra, um modo também antigo de louvar seus deuses pela sua generosidade. Era um ritual pagão, cheio de festa, dança, alegria e, como um culto à fertilidade, não poderia deixar de ter seu componente erótico.

Com o crescimento do cristianismo, sua disseminação e, posteriormente, sua aliança com os poderosos, quando se tornou a religião oficial do já decadente império romano, tiveram a brilhante e eficaz idéia de transformar as festividades pagãs em festas religiosas. Assim, a festa maior se transformou em aniversário de Jesus, o natal.

Como faz parte do comportamento humano a deturpação de tudo, a data do natal passou a ser, nos tempos modernos, nada mais do que uma oportunidade de se faturar, faturar, faturar. Aqui e acolá, alguns tentam apaziguar sua consciência distribuindo coisas pelas periferias, o que me lembra o que faziam os colonizadores, quando traziam, dos seus mundos ricos, espelhos, vidros lapidados, enfeites e outras bugigangas para tapear os nativos e invadir e dominar seus territórios.

No meio dessa correria louca, podemos ainda pelo menos tentar sacudir algumas pessoas para que se toquem, pensem, reflitam e até sonhem com uma possibilidade, se bem que a esta altura seja improvável, de um mundo melhor e mais justo, sem exploração do homem pelo homem, seja usando a força, seja usando a tapeação.

Há muita gente que acredita na força do pensamento. Até concordo que as idéias são poderosas, têm sua força, mas somente quando elas alimentam as ações. As ações, sim, é que têm o poder de criar, transformar ou destruir as coisas. A maior parte de nós acredita, posso dizer que a grande maioria das pessoas acredita que se desejamos ardentemente alguma coisa, que essa coisa vai acontecer. A grande maioria das pessoas tem a crença de que querer é poder . Em outras palavras, basta querer para que se torne possível. Esta atitude diante do mundo certamente que torna a vida mais fácil de se viver. Parece que nós humanos precisamos de ilusões, para que o viver seja menos angustiante. Não entro na discussão de se isto é bom ou ruim. Apenas penso que há um grande perigo nas ilusões. Elas podem tornar-se tão convincentes que acabamos por sair da realidade e viver, como se diz, no mundo da lua.

Até suponho que sonhar é algo importante. Tive um amigo chamado Edson Hiroshi Seò, um jovem agrônomo, filho de japoneses, vegetariano e praticante de ioga e de karatê, que costumava dizer que é bom ter a cabeça nas nuvens, mas com os pés no chão. As crenças, portanto, podem ser ilusórias. O escritor português, prêmio Nobel de Literatura, escreveu em seu livro A caverna que as ilusões não são em si um problema, que o problema era iludir-se.

Tenho para mim que as festas de fim de ano são uma grande ilusão. Dizem que no natal as pessoas se tornam mais fraternas, mais irmãs. O dia 1º de janeiro, primeiro dia do ano novo, é o dia da confraternização universal. As crianças esperam ser lembradas por Papai Noel.

Assis Valente, mais um baiano que foi embora para o sul-maravilha na primeira metade do século passado, acreditando que iria encontrar o Eldorado, acabou apaixonando-se por Carmem Miranda, paixão essa que não foi correspondida e que o levou ao suicídio saltando lá de cima do morro do Corcovado, segundo me contou um seu irmão, meu colega nos tempos de adolescência. Esse Assis Valente nos deixou belas composições musicais, entre as quais esta cantiga de natal, chamada Boas Festas.

Anoiteceu, o sino bateu,
a gente ficou feliz a rezar.
Papai Noel, se é que você tem
A felicidade, pra você me dar

Eu pensei que todo mundo
Fosse filho do Papai Noel
Mesmo assim, felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel.
Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem,
Com Certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem.