Qua 26 Dez 2007
Prosa & Verso 019 (PARTE 01) – VIVER COMO HOMEM E NÃO COMO GADO
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Músicas tocadas neste programa: |
Já se passaram 30 anos, desde que morreu Joaquim, lá em Feira de Santana, na Fazenda Matinha, povoado do lado direito da estrada que passa por Santa Bárbara e vai pra Serrinha, subindo pro norte.
Joaquim era um trabalhador rural, morador daquele lugar que um dia fora um quilombo. Lá praticamente só tinha negro, todas as famílias plantavam feijão de arranca, depois colhiam, faziam os bonecos, como chamam uma arrumação sobre uma estaca alta enfiada no chão, ali deixavam pra secar e depois numa festa de mutirão cantavam e batiam. Era a bata do feijão, uma festa. Muitas vezes fui pra lá apreciar e mesmo participar da bata. Tinha uma cantiga que nunca esqueci. Dizia assim:
Onde tu vai, baiana
em São Paulo tem ladeira
Escorrego e caio
Quebro um gaio da roseira
Eu caio, eu caio, eu caio,
Da roseira eu quebro um gaio.
Assim, alegremente, cantando numa bata de feijão, aquela gente pode falar de modo figurado sobre os riscos e perigos da migração das pessoas da roça para São Paulo, onde, dizem eles, tem ladeira, ladeira onde se escorrega e se cai, quebrando o galho da roseira. Um aviso sem dúvida brincalhão, mas também sem dúvida sério, dos perigos que, em uma cidade grande e muitas vezes hostil, existem perigos a espreitar o nordestino que chega, sonhando com as luzes e os falsos atrativos dessas cidades. E poderão certamente se deparar com muita coisa desagradável, algumas das quais não se tem volta.
Eu estava falando em Joaquim e nos trinta e um anos de sua morte. Que aconteceu com Joaquim? E quem era Joaquim? Um nome tão comum, porque há por esse mundão muitos e muitos joaquins, com o mesmo nome ou com nomes diferentes, mas em condições bastante parecidas. Este Joaquim se chamava JOAQUIM PEREIRA DOS SANTOS.
ele era um pai
e como ele
havia muitos pais
e os seus ais subiam aos céus.
ele era um homem
e como ele
havia muitos homens
e sua fome a clamar!
ele era um ser,
um ser que pensa,
que junto aos seus
queria viver!
queria viver,
viver como um homem,
do seu trabalho,
não como gado.
ter liberdade, matar a fome,
sorrir do frio, poder morar.
ele era assim:
trabalhador, seus braços rijos
é que plantavam, é que colhiam
o que seus filhos não comiam.
e não comiam
porque os outros,
os outros, sim, eram os donos
da sua colheita
e do seu eito
e do seu leito,
da sua enxada, da sua foice.
e acharam os donos
que donos eram
também dos filhos,
que donos eram
do seu destino,
que gado era
e apenas gado.
e se enganaram…
e ao engano, juntou-se o ódio.
e ao seu ódio, o seu dinheiro.
e ao seu dinheiro, o fuzil de outrem.
e porque joaquim queria viver,
viver como homem,
não como gado,
ter liberdade, matar a fome,
vieram eles
e o mataram.
Data do artigo: Quarta-feira, 26 dAmerica/New_York Dez dAmerica/New_York 2007 às 4:00 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.