Escute o Prosa & Verso 019

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Músicas tocadas neste programa:
jomarito – apelo e Samba em prelúdio
sonata ao luar, de beethoven
raul seixas – metamorfose ambulante
tarcísio - conexão

Não sei se vocês concordam com Émile Dürkhein que era sociólogo e foi um dos fundadores da escola sociológica francesa. Este senhor, que morreu por volta de 1930, achava que a educação devia estar a serviço da cidadania. Segundo ele, o papel da educação é formar um cidadão que tomará parte do espaço público e não somente o desenvolvimento individual do aluno.

De acordo com esta visão, uma escola que só faz ensinar as matérias e só avalia o aluno pelo que ele aprendeu do que seus professores ensinaram não faz educação. A escola também deveria ser portanto um lugar de criatividade e certamente os professores também têm muito o que aprender com seus alunos, como os médicos têm o que aprender com seus pacientes. Há uma boa diferença entre ensinamento e educação. Ensinar é apenas passar conhecimento, mas educar é ajudar a pensar e fazer desabrochar a criatividade e novos saberes que podem nascer de lá do fundo da alma. E a alma é uma fonte praticamente inesgotável de saber.

Aliás, a palavra saber é prima da palavra sabor e faz supor com muita propriedade que a sabedoria não é apenas o conhecimento, mas a possibilidade de saborear esse conhecimento.

Na semana passada, eu ouvi, no canal da TV Escola, um relato de que no interior de São Paulo, um professor de matemática terminou sua aula e o chão da sala estava coalhado de papéis usados como rascunhos pelos alunos. Então chamou a todos ali para dar uma limpada na sala, a fim de começar a aula seguinte. Um dos rapazes respondeu que não ia fazer aquilo porque aquilo era trabalho de empregada.

Neste caso, qual deveria ter sido a atitude do professor? Deixo a cargo de cada um de vocês, ouvintes, pensar sobre o assunto e dar sua própria resposta, refletir sobre o que faria, se estivesse no lugar do professor…

Você pensou sobre o assunto? Já faz tempo que eu venho pensando sobre isto…

E por pensar sobre isto é que fiquei surpreso e até assustado, quando soube que está escrito em letras enormes, em uma parede de uma escola pública, a seguinte frase:

A vida é para quem topa qualquer parada.

E não para quem pára em qualquer topada.

Como se vê, é uma frase de efeito. Frases de efeito são aquelas frases vazias de sentido ou com sentido duvidoso, mas que impressionam pelo modo como estão construídas, seja pela rima, seja pelo trocadilho, seja pelo poder de convencimento que ela traz, sem dar tempo, a quem ouve, de refletir e perceber sua armadilha.

Vou repetir a frase:

A vida é para quem topa qualquer parada.

E não para quem pára em qualquer topada.

José Saramago, pensador e escritor português, prêmio Nobel de Literatura, diz que as frases de efeito são autoritárias, paralisadoras, circulares e às vezes elípticas. Ele escreveu assim: as frases de efeito, também jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, são uma praga maligna, das piores que têm assolado o mundo.

Muitas descobertas, muitos insights, saques, como chamamos, abrem novas portas e novos horizontes para nós. Mas, uma vez moldados, repetidos e repetidos e repetidos, acabam desgastando e se tornando vazios. Viram frases de efeito que apenas nos deslumbram e nada mais. Como um flash que ilumina tudo, mas é instantâneo e fugaz. Logo volta a escuridão, e continuamos sem enxergar, em nossa cegueira. Isto é o que costumam fazer muitos oradores, quando usam frases de efeito.

Outras vezes tais frases são bem construídas com palavras bonitas e sonoras, mas que, em seu conjunto, nada dizem. São vazias, quando não são verdadeiros sepulcros caiados, lindos por fora e podres por dentro, enganos dourados.

Precisamos todos nós, e em particular os educadores e os chamados formadores de opinião, ter todo o cuidado com o uso de frases de efeito. Devemos ter consciência do que estamos querendo mesmo dizer, quando falamos frases de efeito, para não semearmos joio ao invés de trigo.