Músicas tocadas neste programa: rubens figueiredo - pai te amo
zabumbahia - cheirinho de flor
o quadro - de um lado pro outro
quizila - descoberta
uscomipexe - reflexos condicionados
ruínas e muralhas - e você chegou
galocantô - o morro espera mais um
neill rocha - rasta floyd
O Morro do Chapéu é uma cidade de artistas populares. Não é comum a gente encontrar cidade deste tamanho, com um teatro organizado, dois grupos de teatro, os esquizocênicos e o grupo emocionarte. Duas respeitáveis filarmônicas, memorialistas, poetas, compositores, músicos, cantores, pintores e escultores. Morro do Chapéu tem inventores criativos e artesãos. É uma cidade privilegiada.
A arte não é propriedade dos famosos. É uma criação humana e exige pendor e criatividade, exige talento e gosto. E provoca nas pessoas que a apreciam, que têm sensibilidade para apreciá-la, uma grande satisfação, um deleite para o espírito.
Como vivemos numa sociedade que praticamente só valoriza o sucesso e sobretudo o dinheiro, a ponto de considerar que, se um artista não tem sucesso em ganhar dinheiro e fama, esse artista não tem valor, frequentemente nos esquecemos que muitos artistas morreram pobres e nem mesmo foram reconhecidos durante sua vida, só passando a ser apreciados depois de mortos. Leia mais…
O velho Manoel Pereira, seu Pereira, como é conhecido por todos lá na Lagoa da Escada, um distrito que fica a duas léguas de Feira de Santana, conta estórias fantásticas, que jura terem acontecido em sua vida.
Seu Pereira me contou que tinha u’a mula arisca, que só ele montava nela. Boa de trabalho, mas arisca e sobretudo temperamental. Quer dizer, u’a mula aluada. Quando alegre, fazia tudo o que era serviço, ligeira e forte. Mas, quando azoava, não tinha quem segurasse. Pior do que doutor operador quando vê sangue jorrando.
Esta mula falada, por coincidência chamada Pinote, uma vez cismou com a cara de seu Pereira, bem no meio da Lagoa da Escada, que quase sempre está seca e por onde seu Pereira costumava passar, vindo de Pé de Serra pra cá e indo daqui pra lá. Cismou nesse dia, ninguém sabe por quê e resolveu empacar. Seu Pereira, teimoso também, virou o diabo com o animal e acabaram numa disputa da peste. Certamente pra ver quem era mais teimoso, sem dúvida. Leia mais…
Músicas tocadas neste programa: chico buarque - gente humilde
cristóvão cerqueira - nóis é jeca, mais é jóia, de juraildes da Luz
izaurinha garcia - a banca do distinto
cleová - miragem
zequinha reis - caminhada
A palavra é o caminho mais curto da comunicação. E o mais mentiroso.
Empregamos um mundo de palavras para nos comunicar. Raramente paramos para pensar no significado e na história de cada uma delas. Nem poderia ser diferente, porque falamos nossas idéias tão rapidamente que muitas vezes não conseguimos dizer o que pensamos ou o que sentimos, porque o movimento dos lábios, da língua e das cordas vocais não acompanha o curso das idéias.
Em um tipo de distúrbio mental chamado mania, a pessoa fala tão ràpidamente que não consegue deter-se em uma idéia ou na articulação de algumas idéias, como ocorre nas falas normais. Na mania, a fala é muito rápida, mas as idéias ainda são mais rápidas. Tudo fica rápido, exageradamente rápido no paciente com o quadro de mania.
Como se diz que cada um de nós tem pelo menos uns 15 minutos de loucura por dia, também temos nossos momentos de maior correria e atropelo mentais, uma forma amena de loucura. Nessas situações costumamos falar o que não devemos e acabamos dando bom dia a cavalo, porque a rapidez das idéias é maior do que nos momentos de normalidade. Daí que não temos nesses momentos condição de pensar melhor o que vamos dizer, o que seria muito mais saudável.
Mas, como a normalidade e a loucura andam mais de mãos dadas do que supomos, trago hoje aqui algumas palavras que são ditas comumente por todos nós ou quase todos nós, sem que tenhamos refletido sobre o real significado de cada uma delas. Vejam como dizemos muitas vezes o que não pretendíamos dizer, só pelo emprego das palavras sem conhecimento de seu significado: Leia mais…
Músicas tocadas neste programa: chico buarque - gente humilde
cristóvão cerqueira - nóis é jeca, mais é jóia, de juraildes da Luz
izaurinha garcia - a banca do distinto
cleová - miragem
zequinha reis - caminhada
Na estrada do Areal, como quem vai para Bonito pela estrada de fora, toda semana eu passo, encontro um garoto de seus sete ou oito anos, pretinho, de capanga a tiracolo, descalço, a roupa remendada…
Todos os dias está o garoto tocando um gado para comer na beira da estrada, dali até o Areal, vai e volta o mesmo caminho, o mesmo andar, entra lua, sai lua.
Fico nervoso, que o gado manso fecha a estrada atrapalhando o caminho, atrasa a gente que está com pressa, correndo também atrás do tempo.
Um dia desses, me danei porque o gado estava atrapalhando.
Me zanguei e briguei com o menino que estava tomando conta. O menino não respondeu nada. Correu a tanger o gado. Fui embora aborrecido.
Hoje de manhã, por curiosidade ou aliás acho que por minha consciência doendo de ter brigado com ele, parei e puxei conversa com o garotinho. Fiquei sabendo que o gado é de dona Elenira, que paga dez reais por mês ao menino para ficar o dia todo atrás dos bois, pra lá e pra cá.
O menino não pode brincar. E menino é feito para brincar.
Não pode ir à escola. E escola é feita pra meninos aprenderem.
Os filhos de dona Elenira, assim ou assado, estão no grupo escolar de manhã, de tarde brincam em casa, ajudam o pai, limpam o terreiro… São pobres, são de uma família de trabalhadores.
Mas eu fico pensando, como é que é a estrada do menino da capanga, a perder sua infância atrás de bois e vacas, descalço, roupa remendada, sozinho? Como é que é e em que vai dar a estrada dele?
Músicas tocadas neste programa: edson vasconcelos - o poeta e a noite, de chico leite
ellis regina - saudosa maloca, de adoniran barbosa
dóris monteiro - a banca do distinto
denise - flor precoce, de zequinha reis
Custa a acreditar. Afinal de contas, a gente sossegado, dentro da casa da gente, mesmo passando com dificuldade, mas sossegado na mesma vidinha do dia a dia, a gente não imagina como isto está acontecendo agora ali, dobrando a esquina.
Eu digo dobrando a esquina, mas na verdade se trata do outro lado da cidade, lá na saída pra Jacobina, que está se dando o contado aqui. E está se dando hoje, agora.
Há 8 anos que chegaram por aqui. Helena, grávida, Damião, disposto a trabalhar pela vida. Uma chácara para cuidar, um quartinho alugado naquela avenida de dona Marieta e estava arrumada a vida deles.
Mas, nem sempre o trabalho conta com esta sina que a vida lhe impõe: quer dizer, poucos meses depois, nascido o primeiro bruguelo, Damião é despedido do emprego. Não leva nada porque não tinha carteira assinada. Leia mais…
Músicas tocadas neste programa: edson vasconcelos - o poeta e a noite, de chico leite
ellis regina - saudosa maloca, de adoniran barbosa
dóris monteiro - a banca do distinto
denise - flor precoce, de zequinha reis
Nossos preconceitos, nossa vaidade e nossa arrogância nos faz juízes implacáveis de nós mesmos e, sobretudo, dos outros. Desculpamos nossos erros, porque os escondemos. E não gostamos nem um pouco que alguém nos venha falar sobre os tais erros. Temos vergonha de admitir nossos erros e, justamente por isto, continuamos a repeti-los. E repetimos os mesmos erros.
Olhamos para os outros e, pelo contrário, vemos quase sempre estampados os seus erros. Mas desta vez não desculpamos, como fazemos a nós mesmos. Somos tiranos e às vezes verdadeiros carrascos.
A idéia de que temos que ser perfeitos é uma idéia enganosa. É a idéia que herdamos dos fariseus, aqueles doutores da Lei de Moisés, que se tinham em conta de perfeitos e, para parecerem mesmo perfeitos, jogavam os lixos de seus erros para debaixo dos tapetes, para os cantos atrás das portas, para debaixo dos móveis. Assim escondiam seus erros e pretendiam passar para os outros u’a imagem de perfeição. Jesus, que não era sopa, denunciava-os como hipócritas, traiçoeiros, dissimulados e como sepulcros caiados, bonitos por fora, e só podridão por dentro. Leia mais…
Músicas tocadas neste programa: nara leão - little boxes
raul seixas - tente outra vez
música africana - mercy of God [compaixão de deus]
cristóvão cerqueira - gritos da terra
lulu santos - como uma onda no mar
Em torno de 1789, na época da Revolução Francesa, que já vai fazer 220 anos, viveu na França um homem chamado Antoine Laurent de Lavoisier, se vocês preferirem, Antonio Lourenço Lavoisier, um dos grandes cientistas dos tempos modernos. Além de cientista e importante químico, também era, para seu azar, funcionário público e trabalhava na cobrança de impostos. Por conta desta sua ocupação, coletor de impostos, ele foi condenado à morte. Alguém tentou impedir que ele fosse executado, mas os poderosos do momento argumentaram que a Revolução não precisava de cientistas. Então foi levado à guilhotina, um instrumento inventado para decepar as pessoas condenadas, e foi então degolado.
Como eu dizia, este fato aconteceu há pouco mais de duzentos anos.
Mas o que eu queria dizer mesmo era que Lavoisier descobriu que nada se cria, nada se perde, que tudo se transforma. Como ele era um químico e não um devoto, ele estava se referindo à matéria, às coisas materiais: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. É uma descoberta que tem conseqüências em nosso mundo pessoal, em nosso entendimento acerca do que há de mais simples. Leia mais…
Músicas tocadas neste programa: nara leão - little boxes
raul seixas - tente outra vez
música africana - mercy of God [compaixão de deus]
cristóvão cerqueira - gritos da terra
lulu santos - como uma onda no mar
Quando se fala a palavra chagas, pensamos logo em feridas. Uma chaga é uma ferida. Na linguagem da igreja católica, fala-se muito nas chagas de cristo, nas feridas que sofreu quando foi torturado e assassinado, quando foi pregado numa cruz até morrer. Mas Chagas também é um sobrenome. Existiu um médico brasileiro que ficou muito famoso e que se chamava Dr. Carlos. Carlos Chagas.
Vou falar agora sobre a Doença de Chagas, mas esta doença não tem nada a ver com feridas. O nome doença de Chagas é uma espécie de reconhecimento ao médico cientista Carlos Chagas, que foi o descobridor dessa doença. Leia mais…
Sobre Jorge Rocha
Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.