Qua 2 Jan 2008
Prosa & Verso 020 (PARTE 02) – O NATAL E AS VENDAS
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Músicas tocadas neste programa: |
Em torno de 1789, na época da Revolução Francesa, que já vai fazer 220 anos, viveu na França um homem chamado Antoine Laurent de Lavoisier, se vocês preferirem, Antonio Lourenço Lavoisier, um dos grandes cientistas dos tempos modernos. Além de cientista e importante químico, também era, para seu azar, funcionário público e trabalhava na cobrança de impostos. Por conta desta sua ocupação, coletor de impostos, ele foi condenado à morte. Alguém tentou impedir que ele fosse executado, mas os poderosos do momento argumentaram que a Revolução não precisava de cientistas. Então foi levado à guilhotina, um instrumento inventado para decepar as pessoas condenadas, e foi então degolado.
Como eu dizia, este fato aconteceu há pouco mais de duzentos anos.
Mas o que eu queria dizer mesmo era que Lavoisier descobriu que nada se cria, nada se perde, que tudo se transforma. Como ele era um químico e não um devoto, ele estava se referindo à matéria, às coisas materiais: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. É uma descoberta que tem conseqüências em nosso mundo pessoal, em nosso entendimento acerca do que há de mais simples.
Se vocês quiserem saber mais a respeito de Lavoisier e de sua descoberta de que nada começa, nada acaba e que tudo está em constante mudança, tudo é transformação, perguntem aos seus filhos que estão na escola, para que perguntem aos seus professores ou para que pesquisem, para que cada um em sua casa pense, reflita sobre isto. Estou certo de que, ao refletir sobre isto, cada um de vocês vai abrir novas janelas por onde possam enxergar e compreender o mundo
Faz uns trinta ou quarenta anos, um apresentador de televisão chamado Abelardo Barbosa, conhecido como Chacrinha, fez uma brincadeira e se saiu com esta: Na televisão nada se cria, tudo se copia, o que é uma surpreendente verdade.
Escutem com atenção agora o que diz esta música interpretada por Nara Leão e vejam se tem alguma coisa a ver com o que acabei de falar e com as nossas vidas, com a vida de cada um de nós.
Agora passou o natal, com a mesmice de sempre: usa-se o pretexto de comemorar o aniversário de Jesus, para se falar em luz, paz, amor, caridade, e outras palavras cujo sentido já está tão desgastado, tão esvaziado pela repetição e que se prestam principalmente a estimular as compras, o consumo, a movimentação do comércio e o aumento dos lucros.
Passado o natal, vem o reveillon: adeus, ano velho, feliz ano novo, costuma-se fazer uma festa regada a champanhe e que termina com um verdadeiro baile de carnaval. Até parece que são duas etapas da vida bem demarcadas.
É comum as pessoas se saudarem com votos de próspero ano novo.
A passagem do ano porém é um convite à reflexão, porque simboliza um mito antiqüíssimo, que faz parte de praticamente todas as culturas. É o mito da morte e do renascimento. Em nossa vida, a propósito, morremos e renascemos constantemente sem nos darmos conta disto. Mas há uma coisa pra gente pensar com carinho e atenção: o homem novo, a pessoa nova, que renasce em cada um de nós todos os dias e todas as horas, morre para o que foi e renasce para o porvir, para o que vem. Aliás, deve morrer o velho, por assim dizer, para que renasça o novo, que por sua vez vem do velho e assim até o dia de desligar de uma vez O novo nasce do velho, da sua transformação. O adolescente de hoje é a transformação da criança de ontem e o adulto de hoje é a transformação do adolescente de ontem. O velho Freud, o criador da psicanálise, nos ensinou que cada um de nós, que somos adultos, carrega a criança que foi pela vida afora. Estamos sempre mudando. Podemos mudar para pior, mas podemos lutar, podemos nos esforçar para mudar para melhor. A passagem do ano é um bom momento, um momento oportuno para tentarmos novamente.
Data do artigo: Quarta-feira, 2 dAmerica/New_York Jan dAmerica/New_York 2008 às 4:21 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.