Qua 9 Jan 2008
Prosa & Verso 021 (PARTE 01) – INTOLERÂNCIA
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Músicas tocadas neste programa: |
Nossos preconceitos, nossa vaidade e nossa arrogância nos faz juízes implacáveis de nós mesmos e, sobretudo, dos outros. Desculpamos nossos erros, porque os escondemos. E não gostamos nem um pouco que alguém nos venha falar sobre os tais erros. Temos vergonha de admitir nossos erros e, justamente por isto, continuamos a repeti-los. E repetimos os mesmos erros.
Olhamos para os outros e, pelo contrário, vemos quase sempre estampados os seus erros. Mas desta vez não desculpamos, como fazemos a nós mesmos. Somos tiranos e às vezes verdadeiros carrascos.
A idéia de que temos que ser perfeitos é uma idéia enganosa. É a idéia que herdamos dos fariseus, aqueles doutores da Lei de Moisés, que se tinham em conta de perfeitos e, para parecerem mesmo perfeitos, jogavam os lixos de seus erros para debaixo dos tapetes, para os cantos atrás das portas, para debaixo dos móveis. Assim escondiam seus erros e pretendiam passar para os outros u’a imagem de perfeição. Jesus, que não era sopa, denunciava-os como hipócritas, traiçoeiros, dissimulados e como sepulcros caiados, bonitos por fora, e só podridão por dentro.
O próprio Jesus contou uma estória, porque Jesus contava estórias que eram os seus retratos da vida, contou uma estória em que uma viúva pobre fazia sua oração, confessando seus erros e pedindo humildemente que seu deus a perdoasse. Enquanto isto, um desses doutores da Lei entrou no templo e fez ali, todo posudo, sua oração: Deus, eu vos agradeço porque sou um cumpridor da Lei, porque dou esmola aos pobres, porque sou bondoso e acredito em vós, sou religioso e cumpro as regras e os rituais da igreja. E agradeço principalmente porque não sou um pecador, como aquela mulher que está ali atrás.
Acontece que todos nós, nas mínimas atitudes, se não tivermos cuidado, vamos repetir o mesmo comportamento do fariseu da parábola de Jesus: escondemos nossos erros e apontamos acusadoramente os erros dos outros.
Procedemos assim quando furamos uma fila, seja onde for, fila no supermercado, fila no caixa do banco, fila para comprar uma passagem lá no ponto de táxi ou para pegar um transporte.
Procedemos assim quando tentamos levar vantagem em tudo, desconsiderando totalmente o próximo, como se ele não merecesse o menor respeito.
E, desconsiderando totalmente o próximo, paramos na porta de casa e, com preguiça de descer do carro, tocamos a buzinar, quando deveríamos ir bater na porta ou tocar a campainha, a fim de não incomodarmos os outros vizinhos.
Não vou falar de grandes transgressões, transgressões maiores, até daquelas que infringem as leis, porque são flagrantes demais. Mas suponho ser verdade que quem é infiel no pouco é infiel no muito.
Errar é humano, mas bem que podemos aprender com nossos próprios erros, repensando nosso comportamento e nossas atitudes, fazendo nossa própria crítica, para não ficarmos sempre a repetir, repetir e repetir o que fazemos de errado. Afinal, suponho que a vida serve mesmo é para nos tornarmos melhores, melhores hoje do que fomos ontem, sem nos esquecermos que a perfeição como tal é inatingível.
Data do artigo: Quarta-feira, 9 dAmerica/New_York Jan dAmerica/New_York 2008 às 4:21 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.