Escute o Prosa & Verso 022

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Músicas tocadas neste programa:
chico buarque - gente humilde
cristóvão cerqueira - nóis é jeca, mais é jóia, de juraildes da Luz
izaurinha garcia - a banca do distinto
cleová - miragem
zequinha reis - caminhada

Na estrada do Areal, como quem vai para Bonito pela estrada de fora, toda semana eu passo, encontro um garoto de seus sete ou oito anos, pretinho, de capanga a tiracolo, descalço, a roupa remendada…

Todos os dias está o garoto tocando um gado para comer na beira da estrada, dali até o Areal, vai e volta o mesmo caminho, o mesmo andar, entra lua, sai lua.

Fico nervoso, que o gado manso fecha a estrada atrapalhando o caminho, atrasa a gente que está com pressa, correndo também atrás do tempo.

Um dia desses, me danei porque o gado estava atrapalhando.

Me zanguei e briguei com o menino que estava tomando conta. O menino não respondeu nada. Correu a tanger o gado. Fui embora aborrecido.

Hoje de manhã, por curiosidade ou aliás acho que por minha consciência doendo de ter brigado com ele, parei e puxei conversa com o garotinho. Fiquei sabendo que o gado é de dona Elenira, que paga dez reais por mês ao menino para ficar o dia todo atrás dos bois, pra lá e pra cá.

O menino não pode brincar. E menino é feito para brincar.

Não pode ir à escola. E escola é feita pra meninos aprenderem.

Os filhos de dona Elenira, assim ou assado, estão no grupo escolar de manhã, de tarde brincam em casa, ajudam o pai, limpam o terreiro… São pobres, são de uma família de trabalhadores.
Mas eu fico pensando, como é que é a estrada do menino da capanga, a perder sua infância atrás de bois e vacas, descalço, roupa remendada, sozinho? Como é que é e em que vai dar a estrada dele?