Qua 16 Jan 2008
Prosa & Verso 022 (PARTE 01) – NA ESTRADA DO AREAL
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Músicas tocadas neste programa: |
Na estrada do Areal, como quem vai para Bonito pela estrada de fora, toda semana eu passo, encontro um garoto de seus sete ou oito anos, pretinho, de capanga a tiracolo, descalço, a roupa remendada…
Todos os dias está o garoto tocando um gado para comer na beira da estrada, dali até o Areal, vai e volta o mesmo caminho, o mesmo andar, entra lua, sai lua.
Fico nervoso, que o gado manso fecha a estrada atrapalhando o caminho, atrasa a gente que está com pressa, correndo também atrás do tempo.
Um dia desses, me danei porque o gado estava atrapalhando.
Me zanguei e briguei com o menino que estava tomando conta. O menino não respondeu nada. Correu a tanger o gado. Fui embora aborrecido.
Hoje de manhã, por curiosidade ou aliás acho que por minha consciência doendo de ter brigado com ele, parei e puxei conversa com o garotinho. Fiquei sabendo que o gado é de dona Elenira, que paga dez reais por mês ao menino para ficar o dia todo atrás dos bois, pra lá e pra cá.
O menino não pode brincar. E menino é feito para brincar.
Não pode ir à escola. E escola é feita pra meninos aprenderem.
Os filhos de dona Elenira, assim ou assado, estão no grupo escolar de manhã, de tarde brincam em casa, ajudam o pai, limpam o terreiro… São pobres, são de uma família de trabalhadores.
Mas eu fico pensando, como é que é a estrada do menino da capanga, a perder sua infância atrás de bois e vacas, descalço, roupa remendada, sozinho? Como é que é e em que vai dar a estrada dele?
Data do artigo: Quarta-feira, 16 dAmerica/New_York Jan dAmerica/New_York 2008 às 4:11 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.